Mostrando postagens com marcador crenças. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crenças. Mostrar todas as postagens

Luiz Antônio Simas

 O mistério da cruz não me comove particularmente e, não bastasse isso, desprovido da crença, sou mesmo um ressabiado crítico de instituições religiosas, de todos os matizes.


     Me apropriando desta ideia, lanço sobre Jesus Cristo um olhar carinhosamente humano.
Jesus Cristo transformou, afinal, água em vinho. Nunca transformou vinho em água. Fez isso, não custa lembrar, para não acabar com a festança da rapaziada. Disse também, naquele jantar com o fariseu escroto, que o mal nunca é o que entra, mas o que sai da boca do homem – e quebrou assim todos os tabus alimentares.

     O problema, para mim, é que tem cristão que insiste em transformar o barba em um chatonildo, inimigo dos fuzuês, dos birinaites e das alegrias. Cristo (o meu) era um farrista, não era um carola enxabido ou um pregador insulso. É por isso que eu me amarro no Jota da Nazaré.
É por isso, ainda, que sou do cristianismo popular: bebo e compartilho da boa mesa com os meus amigos e camaradas. E não entro em templo com fariseus que queiram ditar regras e impor grosseiramente suas verdades.

     Ele, o Cristo dos meus delírios, se sentiria mais a vontade em um botequim de esquina do que na Basílica de São Pedro. Se manifesta mais nas mãos calejadas dos devotos, do que nas batinas sacerdotais e nos ternos bem cortados dos condutores do bonde da aleluia.

     Meu Cristo, enfim, é um pequeno; pedrinha miudinha. Joga na várzea, bebe nos subúrbios, rala nas fábricas e, quando o sol vai quebrando lá pro fim do mundo, descansa feito João Valentão e adormece como menino brasileiro.

Hélio Schwartsman

 Há duas formas de tratar a religião. Podemos vê-la como um discurso puramente alegórico —isto é, sem maiores preocupações em retratar o mundo real. Nesse plano, abrir o mar Vermelho (Êx. 14:21-28), parar o movimento do Sol (Josué 10:12-14) e falar em concepção imaculada, ressurreições e alma não representam um desafio cognitivo.


Eu diria até que essa religiosidade pode ser saudável. Aquilo que se assume desde sempre como ficção raramente dá margem a fundamentalismos e à violência a eles associada. No mais, frequentar igrejas oferece ao fiel a possibilidade de inventar propósitos para a sua vida, além de oportunidades de interação social, o que é bom para a saúde.

O outro modo de encarar a religião é dar crédito às afirmações dos textos sagrados e de sacerdotes e tratá-las como hipóteses testáveis sobre o mundo. Aí, pouco do que dizem para em pé. Afinal, não dá para suspender a rotação da Terra sem arrasar o planeta; seres humanos não se reproduzem por partenogênese; e inexiste modelo físico pelo qual uma alma imaterial possa interagir com um corpo feito de matéria bariônica.

O fiel pode, é claro, escolher ficar com a religião mesmo que ela vá contra a física, a química, a biologia, a estatística. Um número não desprezível de pessoas acredita na infalibilidade do papa e na inerrância das Escrituras. Mas deve ser cognitivamente frustrante viver num mundo em que a ciência entrega seus produtos (antibióticos, fornos de micro-ondas etc.) e a religião se esconde confortavelmente atrás de uma mercadoria que só pode ser despachada quando o comprador já não estiver aqui para assinar o recibo.


Dráuzio Varella

 Estamos sós no Universo.

Ainda que exista vida num planeta distante, encontrarmos um ser semelhante a nós, com quem sejamos capazes de nos comunicar, é altamente improvável.

Os hominídeos que nasceram nas savanas da África, há 6 milhões de anos, foram frutos de adaptações a mudanças ambientais e eventos aleatórios que jamais se repetiriam em outro corpo celeste na ordem cronológica em que ocorreram aqui.

Para não recuarmos até as intempéries envolvidas nas origens da vida, há mais de 3 bilhões de anos, vamos partir de uma época muito mais recente, quando surgiram os mamíferos, conforme descreveram os paleontólogos Stephen Brusatte, da Universidade de Edimburgo, e Zhe-Xi Luo, da Universidade de Chicago, numa revisão para a Scientific American.

As primeiras criaturas semelhantes aos mamíferos não esperaram a extinção dos dinossauros para nascer (como se imaginava), surgiram há cerca de 210 milhões de anos, época em que os cinco continentes ainda estavam unidos, formando a Pangeia.

Algumas dezenas de milhões de anos antes, solavancos nas placas tectônicas tinham provocado erupções simultâneas de vulcões espalhados pela Pangeia. A poluição atmosférica resultante causou uma extinção em massa que quase acabou com a vida na Terra.

A seleção natural eliminou os anfíbios e répteis gigantes que dominavam o mundo.

Tartarugas, sapos, crocodilos, dinossauros e os primeiros ancestrais dos mamíferos se aproveitaram do vazio deixado pelos antigos dominadores para ocupar novos nichos ecológicos.

Esses mamíferos primordiais já apresentavam características que reconhecemos familiares: dentes de leite na infância, saliências e sulcos nos molares, pelos no corpo, musculatura mastigatória robusta e cérebros grandes.

Eram insignificantes comedores de insetos, pequenos como os ratos, que mantinham hábitos noturnos, cuidado providencial para escapar dos crocodilos e dinossauros que não paravam de aumentar de tamanho na vizinhança.

Há 200 milhões de anos, um cataclismo monumental fraturou a Pangeia em diversas áreas. No final, os cinco continentes estavam separados.

A atividade vulcânica causou nova extinção em massa, oportunidade aproveitada pelos animais que souberam ocupar os espaços abandonados pelos que se foram; entre eles, os dinossauros e os mamíferos.

Cerca de 145 milhões de anos atrás, uma variação anatômica foi decisiva para a sobrevivência dos mamíferos: o encaixe dos dentes entre as arcadas superior e inferior, inovação que ampliou a possibilidade de alimentação mais variada.

Ao redor de 100 a 120 milhões de anos, outra surpresa: apareceram as angiospermas, plantas que dão flores e frutos acessíveis a animais com a dentição apta para mastigá-los.

Apesar da performance ecológica razoável, esses pequenos mamíferos chegaram perto da extinção por culpa dos dinossauros, brutamontes insaciáveis, acostumados a devorar tudo o que viam pela frente.

Foi quando um asteroide de 180 km de comprimento cismou de cair no México, há 66 milhões de anos. O impacto foi tão brutal que abriu uma cratera de 1,5 km de profundidade.

O choque provocou terremotos, tsunamis com ondas de mais de cem metros e, como sempre, a erupção dos benditos vulcões. Digo benditos porque os dinossauros não resistiram, sobreviveram apenas os ancestrais que dariam origem às aves. Azar deles, sorte dos mamíferos que se espalharam e se diversificaram num mundo livre daqueles mastodontes.

No estado americano do Novo México foi desenterrado o esqueleto de um mamífero que viveu há 63 milhões de anos. É provável que se trate do primata mais velho já descrito, ancestral longínquo dos que desceram das árvores nas savanas da África, há 6 milhões de anos, e começaram a andar em pé com a coluna ereta.

Imagine, você, que exista vida noutro planeta. Qual a probabilidade da repetição desses e de milhares de outros eventos ao acaso que eliminaram tantos competidores, para que nós estejamos aqui?

Vulcões em erupção, placas tectônicas que se chocam nas profundezas, continentes que se separam, árvores que dão frutos, um asteroide que provoca terremotos, tsunamis, incêndios e poluição ambiental astronômica. Faltasse um desses fenômenos, não haveria ninguém para contar essa história ou compor sinfonias.

São tantas e tão complexas as variáveis para explicar nossa existência que fica mais fácil atribui-la a um ser poderoso que tudo criou num passe de mágica.

Vinícius Mota

 Os clássicos gregos e romanos ilustram o que era a religião dos antigos. Na "Ilíada", os deuses entram na batalha, uns ao lado dos aqueus, outros, dos troianos.


Afrodite é ferida por um humano, Diomedes. A ninfa Tétis acode o filho em apuros, o herói Aquiles, e o presenteia com uma armadura divina forjada pelo olímpico Hefesto. O espírito do rio de Troia, Xanto, dá uma coça no campeão grego, que enchia com cadáveres as suas águas. Os deuses estavam entre os homens e com eles interagiam, o que fazia do mundo um jardim encantado.

O monoteísmo abraâmico começou a expulsar a divindade da Terra, e o movimento iniciado por Martinho Lutero há 500 anos pode ser considerado o apogeu desse processo. Com o reformador alemão, secundado pelo ainda mais radical João Calvino, Deus foi banido de vez do convívio com os homens. Não restou força terrena –sob a forma de santo, espírito ou sacerdote– capaz de restabelecer a conexão mística.

Nessa longa trajetória o cristianismo comportou-se, na sacada do historiador francês Marcel Gauchet, como "la réligion de la sortie [da saída] de la réligion". Os assuntos humanos se emanciparam da lógica religiosa.
Essa sem dúvida é uma forma elegante e plausível de contar uma longa e complicada história, mas é justo acusar também os ruídos ao redor.

O misticismo jamais foi suprimido ao longo da marcha cristã. Veja-se, no universo católico, o fervor do culto mariano, de que a devoção em Aparecida é vigorosa manifestação.

O pentecostalismo das transações misteriosas com o espírito divino é o ramo protestante que mais adeptos arrebata nas nações emergentes. Novas ondas de crenças "pagãs", mesmo entre os mais ricos, instruídos e descolados, parecem pregar a reconciliação do homem com a natureza. O cérebro humano, com toda a sua potencialidade e todas as suas vicissitudes, é bem mais antigo que a mais longeva das grandes religiões.


Dráuzio Varella

      Todo charlatão que se preza alega receber eflúvios energéticos do além túmulo. Em busca de alívio para os mais variados males, os crédulos vão até ele. Basta correr o primeiro boato de que o parente do filho do amigo de algum vizinho sarou ao receber um passe para que a fama do charlatão se espalhe. Em pouco tempo, começam as romarias em sua porta.


     Se o espertalhão aprendeu certos truques há mais de um século desmascarados pelos mágicos, como enfiar tesouras em narizes, raspar córneas e fazer cortes superficiais através dos quais retiram falsos tumores sem que os incautos sintam dor ou se deem conta da prestidigitação, os testemunhos de poderes extrassensoriais correm o mundo. A credulidade humana não tem nacionalidade nem respeita fronteiras.

     Ele se alimenta da insegurança do outro. Apregoa o dom de incorporar “entidades” que mobilizam energias transcendentais, capazes de restabelecer a ordem nas células do organismo enfermo.
Ninguém questiona a natureza dessa energia: cinética, térmica, potencial, atômica? Ninguém estranha por que ela não faz um tapete voar nem ferver a água de um copo.

     As motivações que levam gente esclarecida a ir atrás do sobrenatural são as mesmas que mobilizam a pessoa mais simplória. Credulidade é condição contagiosa, não respeita escolaridade, posição social, cultura ou talento artístico. Trato de doentes com câncer há 50 anos. Assisti ao desapontamento de inúmeras famílias que viajaram centenas de quilômetros com seus entes queridos —muitas vezes debilitados—​ atrás da promessa de curas mágicas que jamais se concretizaram.

     A vítima se aproxima do charlatão na esperança de um milagre. Poucos se conformam com a finitude da existência e aceitam as restrições impostas pelas leis da natureza: milagres não existem, são criações do imaginário humano. Se existissem, em meio século de atividade profissional intensa com pacientes graves, eu teria visto pelo menos um, ainda que fosse uma redução ínfima nas dimensões de uma metástase. Cem por cento das chamadas curas espirituais que tive a oportunidade de avaliar não resistiram à análise racional mais elementar.

     Como nem sempre estão bem definidos os limites de separação entre superstições, crendices e religião, quem ousa denunciar as artimanhas do charlatão é tido como contestador da religiosidade alheia e enfrenta a ira popular. Duvidar da eficácia de suas ações é afrontar a palavra do “enviado de Deus” e as convicções dos fiéis. Tentar convencê-los de que são ludibriados por um malandro que lhes incute esperanças vãs é considerado sacrilégio.

Rubem Alves

 O galo acordava bem cedo, todas as manhãs, ainda escuro, e anunciava solene aos seus companheiros, bichos do galinheiro: ‘- Vou cantar para fazer o sol nascer…’

E se empoleirava no alto do telhado, olhava para o horizonte, e ordenava, categórico: ‘-Co-co-ri-co-có…’
Dali a pouco a bola vermelha mostrava o seu primeiro pedaço e o galo comentava, triunfante: ‘- Eu não disse?…’
E os bichos ficavam boquiabertos e respeitosos ante poder tão extraordinário conferido ao galo: cantar pra fazer o sol nascer. E nem havia sombra alguma de dúvida, porque tinha sido sempre assim, com o galo-pai, com o galo-avô…
Aconteceu, entretanto, que o galo certo dia perdeu a hora, e quando ele acordou o sol já estava lá, brilhando no meio do céu.


Há pessoas que se parecem com o galo. Acham que o sol nasce por causa delas. E até estabelecem inquisições para perseguir galos de canto diferente e condenam outros a fechar o bico.
Eu penso, ao contrário, que não é nada disso.
O sol nasce sempre, do mesmo jeito, com galo ou sem galo.
Assim, o galo pode dormir à noite, sem a angústia de ter de acordar na hora certa. Se dormir demais, o sol vai se levantar do mesmo jeito. O que, sem dúvida, diminui seu senso de importância, mas tem a compensação do sono tranqüilo, o que não é de se desprezar.
Mais do que isso: o galo pode inventar outros cantos, sabendo que o sol não vai se zangar e vai nascer como sempre, no mesmo lugar.

*****
Tive, no meu aquário, um peixe de cores banais. Mas era um peixe guerreiro, que não suportava a presença de um competidor. Se isto acontecia ele se transfigurava, e o seu corpo era possuído por cores escondidas que ninguém suspeitava morassem nele. Mas como ninguém desejava o combate mortal, a magia podia se realizar com o auxílio de um simples espelho.

Pobre peixe: incapaz de reconhecer sua própria imagem no reflexo.

*****

Algumas pessoas discutem sobre uma casa, que todos vêem.
Para um grupo, ela é habitada por um nobre, de hábitos aristocráticos e conservadores…
Outros afirmam o oposto: mora ali um operário, homem do povo… Alguns, por oposição, dizem que ela está vazia… Eu me aproximo, apontam na direção da casa, pedem minha opinião, e concluo que alguma coisa deve estar errada com os meus olhos, pois não vejo coisa alguma, só nossos próprios reflexos, através dos vidros da vidraça.


Luíz Felipe Pondé

         A crença em milagres é um clássico em religiões. Acreditar que passiflora e pedras energéticas funcionam é indicação de que algo em sua forma de ver o mundo não funciona. Crer que alguém que faz uma cirurgia espiritual curará seu câncer é sinal de desespero. Uma vez adentrado o terreno da crença de que alguém possui poderes paranormais, você adentra o terreno do risco de que essa pessoa se aproveite de você, fazendo você comprar coisas, “colonizar” seus sonhos, sua vida, sua grana, seu futuro.


          Religião precisa de sustentação econômica como qualquer empresa ou ser humano.  O mundo da fé é habitado por um número gigantesco de picaretas do espírito. Isso não implica, vale dizer, que toda vivência religiosa seja objeto de picaretas do espírito.   As contradições da alma são infinitas. Somos seres preguiçosos, a menos que nossos pecados nos estimulem a algo.  A idolatria é uma compulsão no gênero humano. A religião é pré-histórica. A vida não tem um sentido maior, e esse fato se materializa em elementos concretos como perdas, sofrimentos, frustrações diversas.  Não se trata de um problema abstrato.

Contardo Calligaris

   Para o Antigo Testamento, a família é um valor crucial (“Honrar pai e mãe” é o quarto mandamento). Mas, para o Novo Testamento, a família é um valor secundário.

  Minha história preferida é a do homem que quer acompanhar a Jesus, mas pede “Senhor, permite-me que vá primeiro sepultar meu pai”. Jesus responde: “Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos” (Lucas 9, 57-60; Mateus 8, 19-22).
Mateus (12, 46-50) conta também que, quando alguém anuncia a Jesus que a mãe e os irmãos querem falar com ele, Jesus, apontando para seus discípulos, responde: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos”.

  Até o século 4º, os padres da Igreja também achavam que a família era uma espécie de mal menor, ao uso dos fracos. Como entender, então, a diferença entre Antigo e Novo Testamento?

  A família é um sistema muito eficiente de reprodução das ideias: os filhos tendem a adotar, ao menos em parte, as mesmas crenças de seus pais e avós (salvo exceções —que, justamente, são exceções). Portanto, em regra, um sistema de crenças bem estabelecido sempre defende a família: é graças à família que ele tenta se perpetuar.
Ao contrário, um sistema de crenças novo, revolucionário, é quase sempre oposto à família, encorajando fortemente a independência de cada rebento: para que ele possa pensar por conta própria, é bom que se separe da família.

  O Antigo Testamento foi redigido para consolidar a religião do povo judaico no fim do longo exílio e cativeiro dos judeus na Babilônia: fortalecer a família era crucial para que as crenças se mantivessem.
O Novo Testamento, ao contrário, precisava estabelecer o cristianismo e torná-lo dominante no Império Romano, ou seja, combater a continuidade das crenças transmitidas pelas famílias pagãs.

  Engraçadamente, quando o cristianismo se tornou dominante do Império, ele começou a promover a família como um valor. É que não se tratava mais de fomentar a rebeldia dos novos convertidos, mas de garantir a perpetuação de uma crença estabelecida.

  O cristianismo das origens era libertário, generoso e cioso da absoluta liberdade do foro íntimo. Por isso, era uma religião perigosa para qualquer poder estabelecido — e mesmo para qualquer Igreja: a família promete a perpetuação das crenças e também a da filiação à mesma igreja, enquanto o cristianismo dispensa a perpetuação das duas.
Por isso, o cristianismo surge como religião da modernidade. O cristão não se assusta ao assumir que ele pensa diferente dos pais nem que ele pensa diferente da própria Igreja.

  Nesse sentido, aliás, o cristianismo das origens reviveu na revolta protestante contra a Igreja Romana e foi de novo cerceado quando a Reforma produziu suas próprias Igrejas –mais preocupadas em se expandir e se perpetuar do que na ideia cristã.
Em suma, para o cristianismo originário, as afinidades afetivas e eletivas (ou seja, os amigos) são muito mais importantes do que a família.

Leandro Karnal

    Jovem e ainda inseguro com os desafios críticos do amadurecimento, comecei a anunciar ao mundo que estava me tornando ateu. Naquela etapa, o ateísmo era muito mais o enfrentamento da tradição. Uns aderiam ao rock, outros faziam tatuagem, alguns fumavam maconha; eu, avesso aos deleites citados, estava virando ateu. Entendo que meu ateísmo é exclusivamente pessoal, fruto de experiências e leituras que só têm significado para mim e responde a questões limitadas ao meu universo. 

     Ateus e religiosos podem ser éticos ou canalhas. Sou contra a intolerância dos sistemas que querem impor fé a todos. Gente autoritária é somente gente idiota, cheirando a incenso ou a razões de Estado. Gente autoritária não tem Deus ou não-Deus, possui apenas um projeto de poder como meta. Acima de tudo, fundamentalistas da religião ou do ateísmo são chatos, muito chatos, insuportáveis na sua missão de levar a luz ao mundo, ou seja, mudar todos para que fiquem a sua imagem e semelhança. 

Frei Betto

  O segundo mandamento da lei de Deus, conhecida como decálogo, é "Não usar o santo nome de Deus em vão". Alguém poderia objetar: que mal há em evocar o santo nome? Nenhum, se a pessoa se esforça por viver os valores ensinados pela Bíblia, considerada por nós, cristãos, a palavra de Deus. 


A manipulação política do nome de Deus é velha como o cachimbo de Adão. Já no século 4 o imperador Constantino, ao perceber que a perseguição aos cristãos, movida pelo Império Romano, tornava seu governo cada vez mais impopular, se declarou convertido à fé cristã, cessou a repressão e deu aos bispos o status de príncipes. Pura cooptação da igreja para impedir que o império desabasse. E a prova de que sua suposta conversão consistia em golpe político é que só se deixou batizar ao se encontrar no leito de morte. Com certeza por via das dúvidas, por temer as penas do inferno...


Precisa-se estar atento ao fato de Jesus, no Evangelho, em especial no capítulo 23 de Mateus, criticar duramente não os ateus ou praticantes de outras religiões, mas os religiosos aproveitadores e corruptos de sua própria religião, o judaísmo. Tratou-os como "raça de víboras", "sepulcros caiados", "guias cegos", "hipócritas". Denunciou-os: "Não imitem suas ações, pois falam e não praticam. Amarram pesados fardos e os colocam nos ombros dos outros, mas eles próprios não estão dispostos a movê-los nem sequer com um dedo" (3-4).


Isso faz lembrar padres e pastores que falam mais do diabo que de Deus, ameaçam os fiéis com as penas do inferno, inflam nas pessoas os sentimentos de culpa, enquanto recolhem o dinheiro sofrido dos pobres para viverem como marajás. Por isso, estão dispostos a apoiar o governo que assegura seus privilégios, não cobra impostos das igrejas e concede a elas sistemas de rádio e televisão.


Contardo Calligaris

 que significa ser “terrivelmente” cristão ou evangélico?


Há governantes que gostam de impor seu poder pelo medo. Mas será que há cristãos que querem mesmo ser medonhos?

Muitos cristãos sentirão repulsa diante da ideia de afirmar a sua fé pelo medo que poderiam incutir nos outros. Entendo, mas o cristianismo “terrível” não é uma invenção recente.

Os cristãos, os judeus e os islamitas são exclusivistas, ou seja, adotam o Antigo Testamento, no qual Deus proclama: não terás outros deuses além de mim.

No judaísmo a ideia é: meu Deus é o único verdadeiro, os outros podem acreditar no que quiserem —eventualmente, veremos no fim quem tinha razão.

O cristianismo, ao contrário, tornou-se imediatamente missionário, como se a ideia de que só nosso Deus é o verdadeiro acarretasse o dever moral de convertermos a todos os que veneravam outros deuses. O Islã tomou um caminho parecido, com a consequência que as duas religiões parecem estar em guerra até hoje.

Duas observações: 1) É sempre sábio desconfiar dos que querem nosso bem —quer estejam vestidos de cruzados ou de pastores.

2) O caso dos judeus mostra que a crença que nosso Deus seja o único verdadeiro não nos dá necessariamente o dever e o direito de convertermos o mundo a ferro e fogo.

O cristianismo atribuiu a si uma vocação missionária universal ao lutar para se tornar religião oficial do Império Romano. Mas essa circunstância não explica por qual razão interna (e não só de expansão pelo mundo) os cristãos se tornaram logo “terríveis”. Por que precisaram que todos os outros adotassem as suas crenças e as suas regras de comportamento?

Talvez haja, nos anseios missionários, uma vontade de fazer o bem. É possível. Mas os anseios missionários, sobretudo quando se tornam impositivos e violentos, mal escondem a boçalidade. O que é a boçalidade? Nenhum cristão consegue controlar seus desejos “pecaminosos” e as dúvidas de sua fé.

Quanto mais os desejos e as dúvidas o pressionam, tanto mais ele se torna boçal, ou seja, tenta reprimir nos outros tudo o que ele não consegue reprimir nele mesmo.

A boçalidade vingou quando, na Renascença, a razão começou a semear dúvidas. Será que a terra é plana ou redonda? Será que está mesmo ao centro do universo? Os boçais foram deveras “terríveis”: para afastar as dúvidas que surgiam neles mesmos, eles se puseram a queimar bruxas e hereges.

Há 400 anos, numa praça de Toulouse, um jovem filósofo, Giulio Cesare Vanini, foi executado por pensar que há leis da natureza e que talvez haja evolução das espécies. Antes de ser estrangulado e queimado (e que suas cinzas fossem no fim dispersadas), o algoz lhe cortou a língua, culpada por falar demais

Sei, a história de Vanini foi 400 anos atrás…o tempo passou, não é? Mas a clínica mostra que os boçais continuam capazes de tudo para evitar  encontrar seus próprios demônios.

Leandro Karnal

  O deus alheio é falso, sabemos há séculos. Assim como meu país é o melhor do mundo unicamente porque eu nasci nele, minha fé é a correta, a única que segue as escrituras verdadeiras, a que salva etc. Todos conhecem a ladainha incessante que inverte uma premissa religiosa, não se trata mais de um “povo escolhido”, todavia de um “deus escolhido pelo meu narciso”. Ele é o eleito por mim porque é o mais adequado ao meu universo. Ele se adapta ao meu cercadinho e meu comportamento molda a forma do divino.


     Se sou conservador, meu deus também o é e eu ainda digo que sou por causa dele. Se abomino sexo, meu deus diz o que eu penso de tal forma que criador vira criatura. Moldamos deus a nossa imagem e semelhança, por isso usei e usarei deus com letra minúscula o tempo todo, porque reconheço aqui a idolatria tradicional de sacralizar um objeto.

      Não me refiro aos infiéis daqui e dali. Começo o texto pensando em mim. Há quase dez anos, estive pela enésima vez na Índia. Talvez pelo calor ou pelo meu horror a andar descalço, ingressei irritado em um templo dedicado a Shiva. Meu guia era shivaíta, assim como sua família. Era uma tradição religiosa de séculos entre eles. Diante do altar com a divina esposa Parvati, o simpático indiano-hindu foi tomado de forte emoção, similar à que presenciei em Fátima ou Lourdes com católicos. Já disse, talvez o calor, talvez o incômodo eterno que tenho em pisar em pedras descalço, talvez apenas minha ignorância… Na saída, de repente, fiz a ele uma pergunta profundamente infeliz: “Você acha, realmente, que existe um ser chamado Shiva?”.

     A indagação está na minha memória como uma das mais idiotas da minha vida. Mais do que isso: foi invasiva e preconceituosa com a crença do meu guia. Eu o estava pagando e isso conferia mais autoritarismo ao meu questionamento. Ele não tinha a liberdade de me mandar pastar ou pedir que a divindade me punisse. Educado e mais sábio do que eu, respondeu que sim e que isso fazia parte de uma tradição antiga. Só então percebi que o calor havia evaporado o pouco bom senso que eu tinha. Passei o resto da viagem me desculpando com nosso orientador local.

     Não sou religioso. Não compartilho das crenças da maioria. Porém, continuei ocidental e cristão. Pior, incorporei o pior do etnocentrismo monoteísta e deixei de lado o melhor que seria a compaixão sincera por qualquer ser humano. Jamais perguntei a alguém que estava de joelhos em Fátima (e fui tantas vezes lá) se aquela pessoa realmente acreditava naquilo tudo. Visitei igrejas no mundo todo e nunca me ocorreu indagar a um padre durante a consagração: “Escuta, moço, você acha mesmo que isto é algo além de farinha?”. Por quê? Porque, mesmo não sendo religioso, aquela era minha cultura. Bastou eu ser separado da matriz europeia e meu pequeno monstrinho etnocêntrico e fascista veio à tona. Não há problema com o que estou acostumado, porém, a fé do outro é sempre tratada como folclórica.

     O outro, essa profunda categoria antropológica, é um desafio. Mais grave: venho dando aulas sobre alteridade (o estudo do outro) há décadas. Ensinei a centenas de alunos a teoria. Eduquei muitos sobre os riscos de eu me considerar como referência do universo e julgar, com meus valores, culturas distintas. Trabalhei relativismo em autores variados. Critiquei eurocentrismo e dogmas. Os alunos me ouviram, eu não me escutei e fiz aquela pergunta abominável.

     Eu estou certo porque é o que acredito, você está errado porque não segue o que eu professo. Você é exótico, estranho, infantil até. Eu sou o iluminado e, como um novo Moisés, o verdadeiro deus, o meu, claro, revelou-me no sagrado monte Sinai as regras das minhas leis. Moisés retirou o calçado para estar na presença divina e ficou abalado com a proximidade do sagrado. Eu, pelo contrário, alego que os outros precisam calçar as sandálias da humildade. Se não pensarem como eu, são arrogantes e cegos. Sou o novo doutor da lei, o fariseu clássico, o que grita no Templo que foi salvo e que é distinto do samaritano impuro. Claro! Passo pelo humano ferido na beira da estrada e sigo cantando louvores. Ressalto: a idiotice da fé cega é tão constrangedora como a arrogância do ateu que humilha alguém porque Shiva é mais estranho do que um crucifixo.

      Seu deus pode pedir que você respeite a sexta, descanse no sábado ou santifique o domingo. Seu deus pode pedir que você pague dízimos ou trízimos, que acenda velas ou cante. Seu deus é seu.
A única verdade, a única redenção possível para os homens e seus muitos deuses, assim como para os ateus, é a capacidade de ver o outro. Se você e seu deus acham que qualquer ser humano é inferior, ou indigno, ou desviado, ou doente moralmente, você e seu deus são babacas absolutos e se merecem. Descobrir o outro é um desafio para ateus, agnósticos e crentes. Creia ou não creia, apenas não seja idiota.

Amós Oz

 Há muitos anos, quando eu ainda era criança, minha avó me explicou em palavras muito simples a diferença entre um judeu e um cristão: “Veja só”, ela disse, “os cristãos acreditam que o Messias já esteve uma vez aqui e certamente voltará um dia. Os judeus afirmam que o Messias ainda está por vir. Por causa disso, houve tanta raiva, perseguição, derramamento de sangue, ódio… Por quê?”. Ela disse: “Por que cada um não pode simplesmente esperar para ver? Se o Messias chegar dizendo: ‘Olá, é um prazer revê-los’, os judeus vão ter de admitir e reconhecer o fato. Se, por outro lado, o Messias chegar dizendo: ‘Como vão, é um prazer conhecê-los’, todo o mundo cristão terá de se desculpar com os judeus. Entre “o agora e o então”, disse minha avó, “simplesmente viva e deixe viver.” Ela era definitivamente imune ao fanatismo.




Reinaldo José Lopes

 Os pontos mais extremos do espectro político e ideológico têm a desagradável tendência de se encontrar, morrendo juntinhos n’um abraço de afogados – se não pelo conteúdo exato do que defendem, ao menos pelo teor estapafúrdio de seus credos. Cristãos conservadores adeptos do literalismo bíblico (a crença de que cada sílaba da Bíblia é literalmente verdade, em todos os aspectos), por exemplo, acreditam que o ser humano surgiu há poucos milhares de anos, plasmado pela ação direta de Deus, sem qualquer relação com as demais formas de vida, único ocupante do trono da Criação (logo abaixo do Senhor, é claro).


 Para simplificar, chamemos essa crença de “criacionismo da Terra jovem” (já que seus adeptos tampouco aceitam os 4,5 bilhões de anos da idade real do nosso planeta). Absurdo, dirá o leitor. E, no entanto, talvez mordidos por algum tipo de inveja freudiana de seus oponentes da extrema direita, ateus da esquerda radical frequentemente aderem a uma concepção ideológica que, apesar das diferenças superficiais, funcionalmente diz a mesma coisa que o literalismo bíblico. “Tudo no ser humano é construção social”, pregam eles. “Não existe natureza humana. Somos infinitamente maleáveis.” Que me desculpe a massa de crentes de ambos os lados, mas isso não passa de criacionismo para ateus.

Nietzsche

 Deus”, “imortalidade da alma”, “redenção”, “o além”, todos esses são conceitos ao quais não dediquei nenhuma atenção, com os quais não perdi nenhum tempo, nem mesmo quando criança – talvez eu jamais tenha sido bastante infantil para fazê-lo? – Não conheço o ateísmo em absoluto como resultado, e menos ainda como acontecimento: ele se dá em mim como instinto. Sou demasiadamente curioso, demasiadamente problemático, demasiadamente altaneiro para me satisfazer com uma resposta grosseira. Deus é uma resposta grosseira, uma indelicadeza contra nós, pensadores –, até, no fundo, apenas uma proibição grosseira que nos fazem: não deveis pensar!




De: NIETZSCHE, Friedrich. "Ecce h

omo:

Luis Fernando Veríssimo

  Num dia do ano 1859, o editor de uma respeitada revista inglesa chamada Quarterly Review recebeu os originais do livro de um certo Charles Darwin, que leu e achou interessante, mas que, na sua opinião, não atrairia muitos leitores. O editor aconselhou Darwin a escrever sobre pombas. O público adorava livros sobre pássaros. E o título do livro de Darwin não ajudava: Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida. Pouco comercial, segundo o editor, que mesmo assim concordou em publicar o livro, com uma tiragem de 1.250 exemplares, vendidos todos num dia só. Desde então e até hoje o livro não parou de vender, e nunca deixou de ser discutido. Nada mal para um autor que, se não tivesse publicado sua teoria sabendo o alvoroço que provocaria, nunca seria mais do que um anônimo naturalista provinciano especializado em minhocas. 

O alvoroço continua. Mais 160 anos depois, muita gente ainda prefere que Darwin tivesse seguido o conselho de escrever sobre pombas. Os índices de leitura de horóscopos atestam o fracasso de Copérnico em convencer a humanidade de que a Terra não é o centro do Universo, como ela ainda pensa. A ciência em geral tem tido um péssimo desempenho na tarefa de vencer a crendice e o obscurantismo, embora a versão “oficial” da História humana desde, pelo menos, o século 18 tenha sido a de conquistas irreversíveis da razão secular, com alguns soluços de irracionalidade.

Darwin também não convenceu muita gente. Numa enquete recente, mais de 70% dos americanos pesquisados responderam que preferem a explicação bíblica da origem da sua espécie à de Darwin. Em vários Estados americanos há leis que obrigam o ensino da versão bíblica juntamente com a da evolução, que deve ser identificada como apenas uma especulação teórica em contraste com a palavra de Deus. A influência do fundamentalismo religioso cresce na política e nos costumes do mundo e, cada vez mais, do Brasil. 


Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...