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Política e literaturas
Roberto Damatta
Sillas de Souza Cesar
Apócrifas e grifadas
Pessoas perfeitas não mentem, não brigam, não erram e, principalmente, não existem!
Se for falar mal de mim, me chame! Sei coisas terríveis a meu respeito.
Tire o seu racismo do caminho, que eu quero passar com a minha cor.A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar...(Rubem Alves)
Flavia Boggio
Não é de hoje que inventam lendas, crenças e superstições com o objetivo de moldar o comportamento das pessoas. A história é sempre a mesma. Alguma autoridade, religiosa, política ou familiar, decide que seus subordinados não devem agir de certa forma. É criada, então, uma lorota para causar medo generalizado e evitar o hábito indesejado.
Ainda na Grécia antiga, o teatro era usado para ensinar aos cidadãos o que seria certo e errado. O povo hebreu escreveu o Levítico, terceiro livro do Velho Testamento, que é basicamente uma lista do que não fazer sob pena de enfrentar a fúria divina.
Algumas crenças permanecem e fazem parte do nosso cotidiano. Muita gente ainda acha que manga misturada com leite pode ser fatal. Isso porque, no período colonial, algum senhor de engenho quis impedir que escravos bebessem o leite da fazenda.
Deixar o chinelo virado para baixo, para alguns, é um sacrilégio pois pode matar a mãe. Lenda criada por outra mãe cansada de escorregar nos chinelos dos filhos. Tomar banho ou nadar só era possível duas horas depois de comer. Boato inventado, talvez, por pais que queriam dar uma "descansadinha" depois almoço.
Cortar o cabelo em lua minguante era extremamente proibido -ou o cabelo não cresceria. Trata-se de crença criada para evitar que mulheres façam mudanças radicais na TPM (eu inventei essa, mas é batata!).
João Pereira Coutinho
Luiz Antônio Simas
O mistério da cruz não me comove particularmente e, não bastasse isso, desprovido da crença, sou mesmo um ressabiado crítico de instituições religiosas, de todos os matizes.
Me apropriando desta ideia, lanço sobre Jesus Cristo um olhar carinhosamente humano.
Jesus Cristo transformou, afinal, água em vinho. Nunca transformou vinho em água. Fez isso, não custa lembrar, para não acabar com a festança da rapaziada. Disse também, naquele jantar com o fariseu escroto, que o mal nunca é o que entra, mas o que sai da boca do homem – e quebrou assim todos os tabus alimentares.
O problema, para mim, é que tem cristão que insiste em transformar o barba em um chatonildo, inimigo dos fuzuês, dos birinaites e das alegrias. Cristo (o meu) era um farrista, não era um carola enxabido ou um pregador insulso. É por isso que eu me amarro no Jota da Nazaré.
É por isso, ainda, que sou do cristianismo popular: bebo e compartilho da boa mesa com os meus amigos e camaradas. E não entro em templo com fariseus que queiram ditar regras e impor grosseiramente suas verdades.
Ele, o Cristo dos meus delírios, se sentiria mais a vontade em um botequim de esquina do que na Basílica de São Pedro. Se manifesta mais nas mãos calejadas dos devotos, do que nas batinas sacerdotais e nos ternos bem cortados dos condutores do bonde da aleluia.
Meu Cristo, enfim, é um pequeno; pedrinha miudinha. Joga na várzea, bebe nos subúrbios, rala nas fábricas e, quando o sol vai quebrando lá pro fim do mundo, descansa feito João Valentão e adormece como menino brasileiro.
José Régio
Demi Getschko
A mentira e a calúnia convivem com a humanidade desde que ela existe. Nada há de novo sob o sol! Dois exemplos clássicos na literatura aplicam-se: o arquivilão Iago, em Otelo, de Shakespeare e Dom Basílio, no Barbeiro de Sevilha, de Beaumarchais.
Da boca de Iago ouvimos que “a reputação de uma pessoa nada mais é que um bem falso e vão, que se ganha sem mérito, e se perde sem motivo”. Emília, sua mulher, o define: “Ele é invejoso. Não porque inveje algo. É, apenas, por ser”. No “credo” da ópera, Iago proclama: “Sou um celerado, porque sou um homem. E em mim sinto a lama originária”. Disseminando mentiras mas de forma a torná-las críveis, adicionando “provas” e “indícios” que não resistiriam a um escrutínio banal, Iago consegue destruir reputações e levar à morte, tanto a inocente Desdêmona, quanto o ingênuo e ciumento Otelo.
Já Dom Basílio cinicamente recomenda a calúnia como forma de desqualificar um pretendente indesejado: “Caluniem, caluniem, sempre algo sobrará”.
Lira Neto
Seja nas historietas populares tradicionais, nas mais distintas mitologias, nos contos de fadas infantis ou em Hollywood, há um padrão que se repete, por trás da aparente multiplicidade de enredos e narrativas. É a alusão a um mundo comum inicial, ameno e familiar, paraíso terrestre e cotidiano subitamente assolado por uma força maligna, que chega soturnamente para desestabilizar o curso brando dos dias e a ordem natural das coisas. Estabelece-se uma situação de crise que possibilita a assunção de um herói dotado de voluntarismo e agudo senso moral.
Nestes 130 anos de República, também é manifesta a recorrência de certas mitologias políticas, sempre as mesmas, embora revistas, reinventadas e amoldadas ao sabor dos tempos. Uma repetição de estratégias e discursos facilmente identificáveis, a serem postos em ação de modo bem pouco surpreendente — mas que seguem produzindo efeitos desastrosos à maturidade de nossa cidadania.
Fabrica-se assim a figura do oponente deletério, a ser desmascarado e combatido, um inimigo a ser subjugado, exterminado, destruído. Por isso, é necessário desumanizá-lo, emprestar-lhe ares de besta-fera, satanizá-lo. A depender do contexto de época, atribuem-se várias fisionomias a esse ser. A fórmula mais recursiva é a do apelo a certa fantasmagoria tão pueril quanto eficaz: o “perigo vermelho” do qual falava Getúlio para impor o Estado Novo, a “República sindicalista” citada pelos militares e empresários que derrubaram Jango, os “comunistas” denunciados ainda hoje com alarde.
Se há um vilão a ser aniquilado, é preciso construir a figura de um herói corajoso e íntegro, escolhido pelo destino para a missão redentora. Ao alarmismo, justapõe-se então o salvacionismo. O que interessa é que o herói fabricado seja honesto e destemido, tenha força e disposição para agir. Importa é que restaure a ordem antiga, devolva ao povo suas “mais caras tradições cristãs”, recupere um passado idealizado, promova o retorno a um cenário paradisíaco, anterior à chegada do Mal.
Impõe-se o terceiro ingrediente histórico dessa reincidência narrativa: o moralismo. O discurso da “probidade” moral se faz acompanhar da presumida cruzada contra a corrupção. Getúlio chegou ao poder em 1930 denunciando a devassidão política e financeira da Primeira República. O mesmo argumento que se voltou contra ele quando os udenistas, Lacerda à frente, entoaram a ladainha de que éramos um país “governado por ladrões”.
Daniel Martins de Barros
Nosso cérebro é cheio de falhas. Enxergamos o que queremos, lembramos do que nos interessa, encontramos relação onde existe acaso. Criamos assim uma imagem bastante imperfeita da realidade. O bom é que mesmo com essas imperfeições o cérebro foi bom o suficiente para ao menos perceber-se defeituoso.
Mais surpreendente ainda foi termos encontrado meios para contornar esses problemas. Um cérebro sozinho não teria condições de fazê-lo, mas, com a união de várias mentes, o ser humano empreendeu uma de suas maiores revoluções: a revolução científica. Criamos e desenvolvemos métodos para evitar os tropeços de nossos raciocínios.
Se antes acreditávamos nas ideias que a observação do mundo nos trazia, passamos a chamá-las de hipóteses, que deveriam ser testadas antes de serem aceitas. E logo percebemos que não bastava fazer experiências para confirmá-las, era preciso que elas pudessem ser derrubadas. Uma hipótese impossível de ser negada não é muito diferente de um dogma, afinal. E o pior: com isso, as verdades passaram a ser consideradas transitórias. A qualquer momento um novo experimento podia modificar nossas crenças.
Assim a ciência passou a ser encarada com um misto de fascínio e medo. Os resultados eram realmente fascinantes: podíamos ver planetas, enxergar nossos ossos, curar doenças antes fatais - o conhecimento não apenas nos ajudava a compreender melhor o mundo, mas também a fazer intervenções mais eficazes nele. Mas tais resultados nunca foram vistos sem alguma desconfiança. Por ser contraintuitiva, contrariar nossas percepções, derrubar pressupostos, o público em geral sempre manteve reservas com relação à ciência.
Roberto Damatta
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