Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos embargos, fui castigado. O STE é composto por entidades espirituais eruditas em direitos reencarnatórios e na anulação de culpas, especialidades do sistema jurídico desse nosso outro mundo.

 A luta aqui é entre normas universais contra favores pessoais. Mesmo espíritos mais evoluídos reconhecem que têm coragem para tudo menos para negar o pedido de um amigo. Minha condenação por um delito habitual para as estrelas da minha galáxia foi o de não querer sair da rotação na órbita que conquistei, congregando satélites e uma multidão de meteoritos certos de minha capacidade de rotação astral. Foi a tentação de que eu e somente eu salvaria o nosso sistema espiritual ameaçado por todo tipo de supernovas.

      Queriam que eu continuasse, ignorando a determinação de ceder espaço a outro corpo planetário, naquela área que congrega uma multidão de asteroides sem brilho, mas que se recusam a entrar no rumo das harmonias espirituais.

     Tais asteroides, que capturaram minha índole, são tidos como idiotas ou burros conforme dizia um espírito de luz que habitou o vosso mundo, chamado Nelson Rodrigues. Ele alertava para a revolução em curso das bestas quadradas e dos centauros de 150 patas que estava em curso, e hoje, eu, devidamente desencarnado, confirmo.

      Vocês meteram na cabeça a infantilidade de que vossa sociedade precisa de salvadores. Dos Messias que fariam por vocês aquilo que vocês têm o dever de realizar porque quem pode salvar o país não é governo ou leis, mas os valores de sua sociedade.

      Retorno à minha condenação. Se todas as entidades espirituais rodopiam da esquerda para a direita, eu não pretendia tornar esse movimento direitista desordenado, por minha patética ignorância do cargo.

      Assim, armamos um plano para executar essa permanência, dizendo que tal geometria astral estava dentro das quatro linhas orientadoras das colônias de luz. Com isso, acabei colidindo com um cometa de grande potência. Conclusão: fui condenado e aqui estou.

      Mas, como havia previsto, meu médium, o vosso cancelado cronista, Roberto DaMatta, já estou recebendo um enorme volume de preces anistiadoras esperançosas de que, na próxima cambalhota do sistema, saia a minha anistia.

      O Purgatório é o espaço da ambiguidade. Ele garante a não solução dos vossos dilemas políticos que pretendem abraçar a lei, não esquecendo os amigos.

Sillas de Souza Cesar

     Este é um texto sobre Filosofia do Direito, tema que não domino. Mas como o assunto é urgente, sinto-me tentado a propor uma reflexão. Falo da suposta anistia aos envolvidos na invasão de 8 de janeiro. Para contornar minha ignorância, usarei o que todos nós temos à mão: literatura. Kundera, Sófocles e Lucas bastam aqui.
      Em A Insustentável Leveza do Ser, o protagonista Thomaz é um médico cuja vida privada não é exatamente exemplar. Não implico contra os meios de aplacar sua libido, algo que alguns leitores talvez invejem. Questiono a sua consciente luta contra compromissos afetivos devidos aos seus familiares e amigos. Mas é a sua vida pública que chama a atenção e dá, a meu ver, profundidade ao personagem. Ela é o ponto central aqui, devido ao seu incomum senso de responsabilidade ética, dignificando esteticamente cada um dos revezes que sofrerá. O romance é ambientado entre a Checoslováquia e a Suíça, nos anos 60 e 70.
      Seus personagens centrais são checos traumatizados com a repressão stalinista, após a 2.ª Guerra Mundial. Num dado momento, Thomaz revolta-se contra a autoindulgência de seus compatriotas que justificavam o apoio dado a essa repressão, alegando que “não sabiam” o que se passava. Enfurecido, envia um artigo a um periódico local. O teor desse artigo é, segundo penso, Filosofia do Direito, urgindo.
      Thomaz cita a parte final da tragédia de Sófocles, em que Édipo, consciente da gravidade de seus crimes, não se esconde na ignorância dos fatos. Evocando uma dignidade heroica, destaca que o príncipe tebano culpou somente seus próprios olhos por sua insensatez, arrancando-os como quem, envergonhado, diz: “Eu vi, eu sei”. Sensato que era, Thomaz fez as devidas vênias sobre os exageros dessa ideia, deixando claro que punir alguém que age inconscientemente seria uma barbárie.
      A intenção de seu artigo limitava-se a lembrar que responsabilidades éticas não deveriam ser tão voláteis. A revista, contudo, extraiu um terço do texto, deliberando radicalidade, e o publicou junto aos classificados. Poucos leram. Dentre esses, a polícia de costumes soviética. Pelo restante do romance, Thomaz será chantageado para desdizer o que nem mesmo disse, mas resistirá, ainda que ceder fosse o esperado, e recomendado, pelos amigos conhecedores de sua moral.
      As punições não tardarão, e ele perderá cargos, empregos, profissão, pretensões, orgulho até abraçar resignado, mas feliz, sua breve velhice, junto de sua esposa e seu cachorro num esquecido vilarejo medieval checo, cujas ruas foram rebatizadas com nomes de celebridades russas. Refletindo sobre a leitura, lembrei de figuras históricas que talvez desaprovassem Thomaz.
      Veio-me à mente a descrição de Lucas, do momento em que Jesus suplica a Deus que perdoe seus malfeitores, pois eles não sabiam o que estavam fazendo. Mas uma das vantagens da Arte é revogar os limites humanos, concedendo à imaginação um hipotético controle da história. E, libertado pela ficção de Kundera, comecei a fantasiar minha presença no tribunal que julgava as lideranças, os religiosos, os soldados e os populares que apedrejaram, cuspiram, furaram e crucificaram Cristo.
      Flagrei-me exultante, olhando o polegar de Deus condenando a todos, após ouvir o cínico argumento da defesa que, baseada no testemunho do próprio crucificado, alegava que seus clientes não sabiam o que faziam. Assustado, vi-me, séculos depois, no mesmo tribunal, assistindo pessoas que eu conheço diante do mesmo polegar, repetindo: “Eu não sabia que tinha que amar ao próximo!”
      Depois, contido, pensei em situações nas quais a ignorância deve, de fato, absolver atos reprováveis. Seria uma barbárie julgar crianças como adultos ou doentes como sãos. Mas somente em ficções ruins, pessoas bem alimentadas e agindo premeditadamente poderiam alegar que não sabiam que invadir uma casa, defecar em seus cômodos, depredar seus móveis, pichar suas paredes fosse crime.
      Chamaria de realismo fantástico supor que essa ignorância fosse de tal ordem, que os invasores desconhecessem que a casa invadida era um símbolo de ordem institucional. Receio ser desnecessária alfabetização plena para entender essas coisas. Requer mais entendimento, por exemplo, manusear um celular. Os invasores viram, sabiam e deliberaram fazer o que fizeram. Podemos crer em muitas coisas, desejar outras tantas, mas não devemos duvidar de fatos.
      Entretanto, o que mais me assustou ao pensar sobre isso foi a facilidade com que, para evitar confrontos éticos, colocamos na conta da ignorância, nossa ou de nossos parentes e amigos, a apologia de atitudes desumanas.
      Há, entre nós, quem defenda, racionalmente, ações que levam a mortes desnecessárias em Gaza, Ucrânia ou São Paulo; o extermínio de minorias, a supressão de direitos civis e humanos. Há, entre nós, quem pregue ser mais justo viver pelo desejo de um líder supremo como Trump, Putin, etc., do que pelos erros e acertos compartilhados e negociados entre cidadãos e efêmeros mandatários.
      Nós, nossos amigos e nossos parentes estamos vendo o que acontece e sabemos o que isso significa. Como diria Thomaz, a ignorância não servirá de cúmplice para o nosso mau gosto.

Apócrifas e grifadas

 Pessoas perfeitas não mentem, não brigam, não erram e, principalmente, não existem!

Se for falar mal de mim, me chame! Sei coisas terríveis a meu respeito.

Tire o seu racismo do caminho, que eu quero passar com a minha cor.

Sorria sem câmera , converse sem celular, ajude sem plateia, ame sem condições.

A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar...(Rubem Alves)

Geralmente aqueles que sabem pouco falam muito e aqueles que sabem muito falam pouco...(Rousseau)

A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original...(Albert Einstein)

Felicidade é a única coisa que podemos dar sem possuir...(Voltaire)

Flavia Boggio

 Não é de hoje que inventam lendas, crenças e superstições com o objetivo de moldar o comportamento das pessoas. A história é sempre a mesma. Alguma autoridade, religiosa, política ou familiar, decide que seus subordinados não devem agir de certa forma. É criada, então, uma lorota para causar medo generalizado e evitar o hábito indesejado.

Ainda na Grécia antiga, o teatro era usado para ensinar aos cidadãos o que seria certo e errado. O povo hebreu escreveu o Levítico, terceiro livro do Velho Testamento, que é basicamente uma lista do que não fazer sob pena de enfrentar a fúria divina.

Algumas crenças permanecem e fazem parte do nosso cotidiano. Muita gente ainda acha que manga misturada com leite pode ser fatal. Isso porque, no período colonial, algum senhor de engenho quis impedir que escravos bebessem o leite da fazenda.

Deixar o chinelo virado para baixo, para alguns, é um sacrilégio pois pode matar a mãe. Lenda criada por outra mãe cansada de escorregar nos chinelos dos filhos. Tomar banho ou nadar só era possível duas horas depois de comer. Boato inventado, talvez, por pais que queriam dar uma "descansadinha" depois almoço.

Cortar o cabelo em lua minguante era extremamente proibido -ou o cabelo não cresceria. Trata-se de crença criada para evitar que mulheres façam mudanças radicais na TPM (eu inventei essa, mas é batata!).




João Pereira Coutinho

O tempo é dos reacionários. Falo daquelas "mentes naufragadas", de que falava Mark Lilla no seu livro, e para as quais o presente em que vivemos é tão precário, tão imundo, tão cruel que o melhor é retornar ao passado. Antigamente, dizem eles, tudo era mais simples, mais ordenado, mais perfeito. Como os revolucionários que tanto abominam, os reacionários são iguais a eles e podem estar à esquerda e à direita, entre ateus ou fervorosos crentes. Podem ser nacionalistas extremistas que desprezam a democracia pluralista e sonham com formas autoritárias de política. É contra essa moda que se insurge o filósofo francês Michel Serres em ensaio recente. Serres, do alto dos seus quase 90 anos, publicou "Antes é que Era Bom!" (edição portuguesa pela Guerra & Paz), ensaio de uma ironia fina, no qual a autobiografia se mistura com a filosofia. Antes é que era bom? Sem dúvida, escreve Serres. Para ficarmos apenas no século 20, esse tempo arcádico para onde os reacionários querem voltar, havia grandes estadistas, como Hitler ou Stálin. E havia também paz, muita paz, ao contrário das barbáries de hoje. Como não recordar, com um sorriso nostálgico, os anos de 1914 ou 1939? Como esquecer os piqueniques em Hiroshima ou Nagasaki? Como não sonhar com os tempos felizes no Gulag ou em Auschwitz? Antigamente, quando tudo era bom, vivia-se longamente até aos 35 ou 40 anos —e uma família tinha que ter cinco filhos, às vezes mais, na esperança de conservar dois. Não havia problemas na previdência social porque, em rigor, não havia previdência social. Nem previdência social, nem água encanada, nem sistema de descarga, nem antibióticos, nem anestesia. E sobre os produtos naturais que era possível consumir diretamente da origem, sem controle sanitário de qualquer espécie, Michel Serres, filho de agricultores, suspira: era diarreia em família seis vezes por ano! Que interessava a febre aftosa quando era possível beber leite acabado de mungir de uma vaca bucólica e enferma? Os reacionários que enchem a boca com a história desconhecem-na grosseiramente. E eu, depois de ler Michel Serres, imagino como seria terapêutico construir uma Disneyland só para eles —um resort gigantesco onde, voluntariamente, os reacionários poderiam experimentar os prazeres do passado com que tanto sonham. Viveriam 24 horas sob vigilância policial. Trabalhariam a terra com as mãos, ou com instrumentos tão rudimentares como as mãos, e não com as frescuras da tecnologia. Os cuidados de saúde estariam a cargo de um barbeiro —ou, então, de um médico especializado em sangrias ou lobotomias. E as mulheres reacionárias, especialmente elas, viveriam submetidas aos caprichos dos pais, dos maridos, dos irmãos, sem direitos cívicos de qualquer espécie. Se estivessem em plena menopausa, era hospício para elas. Ah, já me esquecia: a alimentação seria "autêntica". Como negar aos nostálgicos os prazeres de uma boa diarreia?

Luiz Antônio Simas

 O mistério da cruz não me comove particularmente e, não bastasse isso, desprovido da crença, sou mesmo um ressabiado crítico de instituições religiosas, de todos os matizes.


     Me apropriando desta ideia, lanço sobre Jesus Cristo um olhar carinhosamente humano.
Jesus Cristo transformou, afinal, água em vinho. Nunca transformou vinho em água. Fez isso, não custa lembrar, para não acabar com a festança da rapaziada. Disse também, naquele jantar com o fariseu escroto, que o mal nunca é o que entra, mas o que sai da boca do homem – e quebrou assim todos os tabus alimentares.

     O problema, para mim, é que tem cristão que insiste em transformar o barba em um chatonildo, inimigo dos fuzuês, dos birinaites e das alegrias. Cristo (o meu) era um farrista, não era um carola enxabido ou um pregador insulso. É por isso que eu me amarro no Jota da Nazaré.
É por isso, ainda, que sou do cristianismo popular: bebo e compartilho da boa mesa com os meus amigos e camaradas. E não entro em templo com fariseus que queiram ditar regras e impor grosseiramente suas verdades.

     Ele, o Cristo dos meus delírios, se sentiria mais a vontade em um botequim de esquina do que na Basílica de São Pedro. Se manifesta mais nas mãos calejadas dos devotos, do que nas batinas sacerdotais e nos ternos bem cortados dos condutores do bonde da aleluia.

     Meu Cristo, enfim, é um pequeno; pedrinha miudinha. Joga na várzea, bebe nos subúrbios, rala nas fábricas e, quando o sol vai quebrando lá pro fim do mundo, descansa feito João Valentão e adormece como menino brasileiro.

José Régio

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos... Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí... Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos... Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátria, tendes tectos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... Eu tenho a minha Loucura ! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura. Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! Não sei por onde vou, Não sei para onde vou - Sei que não vou por aí!

Demi Getschko

 A mentira e a calúnia convivem com a humanidade desde que ela existe. Nada há de novo sob o sol! Dois exemplos clássicos na literatura aplicam-se: o arquivilão Iago, em Otelo, de Shakespeare e Dom Basílio, no Barbeiro de Sevilha, de Beaumarchais.


Da boca de Iago ouvimos que “a reputação de uma pessoa nada mais é que um bem falso e vão, que se ganha sem mérito, e se perde sem motivo”. Emília, sua mulher, o define: “Ele é invejoso. Não porque inveje algo. É, apenas, por ser”. No “credo” da ópera, Iago proclama: “Sou um celerado, porque sou um homem. E em mim sinto a lama originária”. Disseminando mentiras mas de forma a torná-las críveis, adicionando “provas” e “indícios” que não resistiriam a um escrutínio banal, Iago consegue destruir reputações e levar à morte, tanto a inocente Desdêmona, quanto o ingênuo e ciumento Otelo.

Já Dom Basílio cinicamente recomenda a calúnia como forma de desqualificar um pretendente indesejado: “Caluniem, caluniem, sempre algo sobrará”.

 Voltaire aconselhou “quando ouvimos novidades, devemos esperar pelo ‘sacramento da confirmação’”. 

Lira Neto

 Seja nas historietas populares tradicionais, nas mais distintas mitologias, nos contos de fadas infantis ou em Hollywood, há um padrão que se repete, por trás da aparente multiplicidade de enredos e narrativas. É a alusão a um mundo comum inicial, ameno e familiar, paraíso terrestre e cotidiano subitamente assolado por uma força maligna, que chega soturnamente para desestabilizar o curso brando dos dias e a ordem natural das coisas. Estabelece-se uma situação de crise que possibilita a assunção de um herói dotado de voluntarismo e agudo senso moral.


Nestes 130 anos de República, também é manifesta a recorrência de certas mitologias políticas, sempre as mesmas, embora revistas, reinventadas e amoldadas ao sabor dos tempos. Uma repetição de estratégias e discursos facilmente identificáveis, a serem postos em ação de modo bem pouco surpreendente — mas que seguem produzindo efeitos desastrosos à maturidade de nossa cidadania.

Fabrica-se assim a figura do oponente deletério, a ser desmascarado e combatido, um inimigo a ser subjugado, exterminado, destruído. Por isso, é necessário desumanizá-lo, emprestar-lhe ares de besta-fera, satanizá-lo. A depender do contexto de época, atribuem-se várias fisionomias a esse ser. A fórmula mais recursiva é a do apelo a certa fantasmagoria tão pueril quanto eficaz: o “perigo vermelho” do qual falava Getúlio para impor o Estado Novo, a “República sindicalista” citada pelos militares e empresários que derrubaram Jango, os “comunistas” denunciados ainda hoje com alarde.

Se há um vilão a ser aniquilado, é preciso construir a figura de um herói corajoso e íntegro, escolhido pelo destino para a missão redentora. Ao alarmismo, justapõe-se então o salvacionismo. O que interessa é que o herói fabricado seja honesto e destemido, tenha força e disposição para agir. Importa é que restaure a ordem antiga, devolva ao povo suas “mais caras tradições cristãs”, recupere um passado idealizado, promova o retorno a um cenário paradisíaco, anterior à chegada do Mal.

Impõe-se o terceiro ingrediente histórico dessa reincidência narrativa: o moralismo. O discurso da “probidade” moral se faz acompanhar da presumida cruzada contra a corrupção. Getúlio chegou ao poder em 1930 denunciando a devassidão política e financeira da Primeira República. O mesmo argumento que se voltou contra ele quando os udenistas, Lacerda à frente, entoaram a ladainha de que éramos um país “governado por ladrões”.

Daniel Martins de Barros

 Nosso cérebro é cheio de falhas. Enxergamos o que queremos, lembramos do que nos interessa, encontramos relação onde existe acaso. Criamos assim uma imagem bastante imperfeita da realidade. O bom é que mesmo com essas imperfeições o cérebro foi bom o suficiente para ao menos perceber-se defeituoso.

  Mais surpreendente ainda foi termos encontrado meios para contornar esses problemas. Um cérebro sozinho não teria condições de fazê-lo, mas, com a união de várias mentes, o ser humano empreendeu uma de suas maiores revoluções: a revolução científica. Criamos e desenvolvemos métodos para evitar os tropeços de nossos raciocínios.

  Se antes acreditávamos nas ideias que a observação do mundo nos trazia, passamos a chamá-las de hipóteses, que deveriam ser testadas antes de serem aceitas. E logo percebemos que não bastava fazer experiências para confirmá-las, era preciso que elas pudessem ser derrubadas. Uma hipótese impossível de ser negada não é muito diferente de um dogma, afinal. E o pior: com isso, as verdades passaram a ser consideradas transitórias. A qualquer momento um novo experimento podia modificar nossas crenças.

  Assim a ciência passou a ser encarada com um misto de fascínio e medo. Os resultados eram realmente fascinantes: podíamos ver planetas, enxergar nossos ossos, curar doenças antes fatais - o conhecimento não apenas nos ajudava a compreender melhor o mundo, mas também a fazer intervenções mais eficazes nele. Mas tais resultados nunca foram vistos sem alguma desconfiança. Por ser contraintuitiva, contrariar nossas percepções, derrubar pressupostos, o público em geral sempre manteve reservas com relação à ciência. 

Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...