A luta aqui é entre normas universais contra favores pessoais. Mesmo espíritos mais evoluídos reconhecem que têm coragem para tudo menos para negar o pedido de um amigo. Minha condenação por um delito habitual para as estrelas da minha galáxia foi o de não querer sair da rotação na órbita que conquistei, congregando satélites e uma multidão de meteoritos certos de minha capacidade de rotação astral. Foi a tentação de que eu e somente eu salvaria o nosso sistema espiritual ameaçado por todo tipo de supernovas.
Queriam que eu continuasse, ignorando a determinação de ceder espaço a outro corpo planetário, naquela área que congrega uma multidão de asteroides sem brilho, mas que se recusam a entrar no rumo das harmonias espirituais.
Tais asteroides, que capturaram minha índole, são tidos como idiotas ou burros conforme dizia um espírito de luz que habitou o vosso mundo, chamado Nelson Rodrigues. Ele alertava para a revolução em curso das bestas quadradas e dos centauros de 150 patas que estava em curso, e hoje, eu, devidamente desencarnado, confirmo.
Vocês meteram na cabeça a infantilidade de que vossa sociedade precisa de salvadores. Dos Messias que fariam por vocês aquilo que vocês têm o dever de realizar porque quem pode salvar o país não é governo ou leis, mas os valores de sua sociedade.
Retorno à minha condenação. Se todas as entidades espirituais rodopiam da esquerda para a direita, eu não pretendia tornar esse movimento direitista desordenado, por minha patética ignorância do cargo.
Assim, armamos um plano para executar essa permanência, dizendo que tal geometria astral estava dentro das quatro linhas orientadoras das colônias de luz. Com isso, acabei colidindo com um cometa de grande potência. Conclusão: fui condenado e aqui estou.
Mas, como havia previsto, meu médium, o vosso cancelado cronista, Roberto DaMatta, já estou recebendo um enorme volume de preces anistiadoras esperançosas de que, na próxima cambalhota do sistema, saia a minha anistia.
O Purgatório é o espaço da ambiguidade. Ele garante a não solução dos vossos dilemas políticos que pretendem abraçar a lei, não esquecendo os amigos.