Wilhelm Reich

  Deixas que  assumam o poder  em teu nome. Mas tu mesmo nada dizes. E só demasiado tarde reconheces que te enganaram uma vez mais. É por isso que eu tenho medo de ti. 

 E tenho medo de ti, porque não existe nada a que mais fujas do que a encarar-te a ti próprio. Estás doente, Zé Ninguém, muito doente. Já há muito que terias derrubado os teus verdadeiros opressores se não tolerasses a opressão e não a apoiasses tu próprio.

Terás que entender que és tu quem transforma homens medíocres em opressores.  Que se orgulha dos seus grandes generais, mas não de si próprio. Que acredita mais arraigadamente nas coisas que menos entende. Tu és o  homem comum, que se conforta no falso aconchego de que há um estado maior cuidando de si.

Tu mesmo te desprezas, Zé Ninguém. Dizes: «Quem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida? E tens razão: Quem és tu para reclamar direitos sobre a tua vida? O zé ninguém é aquele ser mesquinho que passa a preferir a vantagem para si que a justiça. Que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandeza alheias.

 Deixa-me dizer-te. É que por isso não vale a pena ficar quietinho no conforto do lar. Cada um de nós tem responsabilidade pelo que se passa à nossa volta e no mundo, e as maiores revoluções foram feita por conjuntos de zés-ninguém, que sozinhos não eram nada, mas que em conjunto, e em consciência, foram conseguindo mudar as suas realidades.

 

Trechos do livro  Escuta,  Zé Ninguém

Edição José  Aléssio


Roberto Damatta

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