Rubem Alves

 O galo acordava bem cedo, todas as manhãs, ainda escuro, e anunciava solene aos seus companheiros, bichos do galinheiro: ‘- Vou cantar para fazer o sol nascer…’

E se empoleirava no alto do telhado, olhava para o horizonte, e ordenava, categórico: ‘-Co-co-ri-co-có…’
Dali a pouco a bola vermelha mostrava o seu primeiro pedaço e o galo comentava, triunfante: ‘- Eu não disse?…’
E os bichos ficavam boquiabertos e respeitosos ante poder tão extraordinário conferido ao galo: cantar pra fazer o sol nascer. E nem havia sombra alguma de dúvida, porque tinha sido sempre assim, com o galo-pai, com o galo-avô…
Aconteceu, entretanto, que o galo certo dia perdeu a hora, e quando ele acordou o sol já estava lá, brilhando no meio do céu.


Há pessoas que se parecem com o galo. Acham que o sol nasce por causa delas. E até estabelecem inquisições para perseguir galos de canto diferente e condenam outros a fechar o bico.
Eu penso, ao contrário, que não é nada disso.
O sol nasce sempre, do mesmo jeito, com galo ou sem galo.
Assim, o galo pode dormir à noite, sem a angústia de ter de acordar na hora certa. Se dormir demais, o sol vai se levantar do mesmo jeito. O que, sem dúvida, diminui seu senso de importância, mas tem a compensação do sono tranqüilo, o que não é de se desprezar.
Mais do que isso: o galo pode inventar outros cantos, sabendo que o sol não vai se zangar e vai nascer como sempre, no mesmo lugar.

*****
Tive, no meu aquário, um peixe de cores banais. Mas era um peixe guerreiro, que não suportava a presença de um competidor. Se isto acontecia ele se transfigurava, e o seu corpo era possuído por cores escondidas que ninguém suspeitava morassem nele. Mas como ninguém desejava o combate mortal, a magia podia se realizar com o auxílio de um simples espelho.

Pobre peixe: incapaz de reconhecer sua própria imagem no reflexo.

*****

Algumas pessoas discutem sobre uma casa, que todos vêem.
Para um grupo, ela é habitada por um nobre, de hábitos aristocráticos e conservadores…
Outros afirmam o oposto: mora ali um operário, homem do povo… Alguns, por oposição, dizem que ela está vazia… Eu me aproximo, apontam na direção da casa, pedem minha opinião, e concluo que alguma coisa deve estar errada com os meus olhos, pois não vejo coisa alguma, só nossos próprios reflexos, através dos vidros da vidraça.


Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...