Ernani Ssó

 Faz de conta que estou no trem e aceno na janela com um lenço branco. Sim, trata-se de uma despedida. Mas não sei exatamente quem ficou na estação – pra ser claro, não conheço a multidão formada por meus cinco leitores. Não consigo distinguir nenhum rosto. Vai ver, aqueles caras estão se despedindo da pessoa errada. Ou eu estou me despedindo das pessoas erradas.


Como se vê, eu nem precisava me despedir. Mas, num momento de fraqueza, pensei: e se nem notarem que sumi? Depois, me sinto cansado, podre de cansado.  Quer dizer, podre de cansado da miséria, do ódio, da burrice. Cansado da minha ingenuidade.

Passei metade da minha vida pensando que era uma pessoa forte. Nem como cidadão nem como escritor eu dou pro gasto.

Estou podre de cansado de escrever. Tem horas, inclusive, que não sei por que comecei a escrever e nem entendo o que acabei de escrever. Parece coisa de outra pessoa, com propósitos misteriosos.

 Podia ter ido pescar ou aprender sinuca como se deve. Por que embestei que devia disfarçar a complexidade num texto arduamente simples?  Por que quase me matei afiando meu sarcasmo, se a única coisa que consegui com isso foi causar ódio na turma dos dois neurônios, quando havia meios muito mais fáceis de atrair esse ódio?

Eu estava maluco e não sabia. Pelo menos agora eu sei.

É de admirar que eu não tenha sido apedrejado. Mas, nesse meio tempo, me chamaram de comunista e de anticomunista, de machista e de feminista. Isso prova o quê? Que eu sou legião ou que alguns leitores, perdidos no deserto das entrelinhas, alimentando-se de gafanhotos e mel como os velhos profetas bíblicos, são tentados pelo diabo com os pecados mais hediondos.

Nesse meio tempo, me acusaram, entre outras coisas, de defender bandidos, de moralismo e de velho.  Tinham razão de me acusar de velho.

Mas ninguém me viu pedindo respeito pelas minhas barbas brancas. Não acho que barbas brancas sejam álibi pra qualquer coisa. Se eu fosse pedir respeito por alguma coisa, seria pela minha inteligência. Não é muita, sei, mas é suficiente pra distinguir ao menos dois tipos de carne: a de gato e a de lebre.

Como disse, foi divertido por um tempo. Além de divertido, pude conhecer umas três pessoas que se tornaram minhas amigas, mesmo à distância. Só por isso já teria valido a pena.

Até qualquer hora.

***

Ernani Ssó é o escritor que veio do frio: nasceu em Bom Jesus, numa tarde de neve. Em 73, entrou pro jornalismo porque queria ser escritor. Saiu em 74 pelo mesmo motivo.

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