Contardo Calligaris

   Para o Antigo Testamento, a família é um valor crucial (“Honrar pai e mãe” é o quarto mandamento). Mas, para o Novo Testamento, a família é um valor secundário.

  Minha história preferida é a do homem que quer acompanhar a Jesus, mas pede “Senhor, permite-me que vá primeiro sepultar meu pai”. Jesus responde: “Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos” (Lucas 9, 57-60; Mateus 8, 19-22).
Mateus (12, 46-50) conta também que, quando alguém anuncia a Jesus que a mãe e os irmãos querem falar com ele, Jesus, apontando para seus discípulos, responde: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos”.

  Até o século 4º, os padres da Igreja também achavam que a família era uma espécie de mal menor, ao uso dos fracos. Como entender, então, a diferença entre Antigo e Novo Testamento?

  A família é um sistema muito eficiente de reprodução das ideias: os filhos tendem a adotar, ao menos em parte, as mesmas crenças de seus pais e avós (salvo exceções —que, justamente, são exceções). Portanto, em regra, um sistema de crenças bem estabelecido sempre defende a família: é graças à família que ele tenta se perpetuar.
Ao contrário, um sistema de crenças novo, revolucionário, é quase sempre oposto à família, encorajando fortemente a independência de cada rebento: para que ele possa pensar por conta própria, é bom que se separe da família.

  O Antigo Testamento foi redigido para consolidar a religião do povo judaico no fim do longo exílio e cativeiro dos judeus na Babilônia: fortalecer a família era crucial para que as crenças se mantivessem.
O Novo Testamento, ao contrário, precisava estabelecer o cristianismo e torná-lo dominante no Império Romano, ou seja, combater a continuidade das crenças transmitidas pelas famílias pagãs.

  Engraçadamente, quando o cristianismo se tornou dominante do Império, ele começou a promover a família como um valor. É que não se tratava mais de fomentar a rebeldia dos novos convertidos, mas de garantir a perpetuação de uma crença estabelecida.

  O cristianismo das origens era libertário, generoso e cioso da absoluta liberdade do foro íntimo. Por isso, era uma religião perigosa para qualquer poder estabelecido — e mesmo para qualquer Igreja: a família promete a perpetuação das crenças e também a da filiação à mesma igreja, enquanto o cristianismo dispensa a perpetuação das duas.
Por isso, o cristianismo surge como religião da modernidade. O cristão não se assusta ao assumir que ele pensa diferente dos pais nem que ele pensa diferente da própria Igreja.

  Nesse sentido, aliás, o cristianismo das origens reviveu na revolta protestante contra a Igreja Romana e foi de novo cerceado quando a Reforma produziu suas próprias Igrejas –mais preocupadas em se expandir e se perpetuar do que na ideia cristã.
Em suma, para o cristianismo originário, as afinidades afetivas e eletivas (ou seja, os amigos) são muito mais importantes do que a família.

Roberto Damatta

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