que significa ser “terrivelmente” cristão ou evangélico?
Há governantes que gostam de impor seu poder pelo medo. Mas será que há cristãos que querem mesmo ser medonhos?
Muitos cristãos sentirão repulsa diante da ideia de afirmar a sua fé pelo medo que poderiam incutir nos outros. Entendo, mas o cristianismo “terrível” não é uma invenção recente.
Os cristãos, os judeus e os islamitas são exclusivistas, ou seja, adotam o Antigo Testamento, no qual Deus proclama: não terás outros deuses além de mim.
No judaísmo a ideia é: meu Deus é o único verdadeiro, os outros podem acreditar no que quiserem —eventualmente, veremos no fim quem tinha razão.
O cristianismo, ao contrário, tornou-se imediatamente missionário, como se a ideia de que só nosso Deus é o verdadeiro acarretasse o dever moral de convertermos a todos os que veneravam outros deuses. O Islã tomou um caminho parecido, com a consequência que as duas religiões parecem estar em guerra até hoje.
Duas observações: 1) É sempre sábio desconfiar dos que querem nosso bem —quer estejam vestidos de cruzados ou de pastores.
2) O caso dos judeus mostra que a crença que nosso Deus seja o único verdadeiro não nos dá necessariamente o dever e o direito de convertermos o mundo a ferro e fogo.
O cristianismo atribuiu a si uma vocação missionária universal ao lutar para se tornar religião oficial do Império Romano. Mas essa circunstância não explica por qual razão interna (e não só de expansão pelo mundo) os cristãos se tornaram logo “terríveis”. Por que precisaram que todos os outros adotassem as suas crenças e as suas regras de comportamento?
Talvez haja, nos anseios missionários, uma vontade de fazer o bem. É possível. Mas os anseios missionários, sobretudo quando se tornam impositivos e violentos, mal escondem a boçalidade. O que é a boçalidade? Nenhum cristão consegue controlar seus desejos “pecaminosos” e as dúvidas de sua fé.
Quanto mais os desejos e as dúvidas o pressionam, tanto mais ele se torna boçal, ou seja, tenta reprimir nos outros tudo o que ele não consegue reprimir nele mesmo.
A boçalidade vingou quando, na Renascença, a razão começou a semear dúvidas. Será que a terra é plana ou redonda? Será que está mesmo ao centro do universo? Os boçais foram deveras “terríveis”: para afastar as dúvidas que surgiam neles mesmos, eles se puseram a queimar bruxas e hereges.
Há 400 anos, numa praça de Toulouse, um jovem filósofo, Giulio Cesare Vanini, foi executado por pensar que há leis da natureza e que talvez haja evolução das espécies. Antes de ser estrangulado e queimado (e que suas cinzas fossem no fim dispersadas), o algoz lhe cortou a língua, culpada por falar demais
Sei, a história de Vanini foi 400 anos atrás…o tempo passou, não é? Mas a clínica mostra que os boçais continuam capazes de tudo para evitar encontrar seus próprios demônios.