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Flavia Boggio

 Não é de hoje que inventam lendas, crenças e superstições com o objetivo de moldar o comportamento das pessoas. A história é sempre a mesma. Alguma autoridade, religiosa, política ou familiar, decide que seus subordinados não devem agir de certa forma. É criada, então, uma lorota para causar medo generalizado e evitar o hábito indesejado.

Ainda na Grécia antiga, o teatro era usado para ensinar aos cidadãos o que seria certo e errado. O povo hebreu escreveu o Levítico, terceiro livro do Velho Testamento, que é basicamente uma lista do que não fazer sob pena de enfrentar a fúria divina.

Algumas crenças permanecem e fazem parte do nosso cotidiano. Muita gente ainda acha que manga misturada com leite pode ser fatal. Isso porque, no período colonial, algum senhor de engenho quis impedir que escravos bebessem o leite da fazenda.

Deixar o chinelo virado para baixo, para alguns, é um sacrilégio pois pode matar a mãe. Lenda criada por outra mãe cansada de escorregar nos chinelos dos filhos. Tomar banho ou nadar só era possível duas horas depois de comer. Boato inventado, talvez, por pais que queriam dar uma "descansadinha" depois almoço.

Cortar o cabelo em lua minguante era extremamente proibido -ou o cabelo não cresceria. Trata-se de crença criada para evitar que mulheres façam mudanças radicais na TPM (eu inventei essa, mas é batata!).




Luis Fernando Veríssimo

 E Deus viu que eu me entediava, pois do que valia ser um rei no meu jardim sozinho, sem ter com quem compartilhar o Paraíso? Ou sem ninguém para me invejar? E então Deus, que já tinha criado o tempo, criou o passatempo, e me encarregou de dar nome às coisas. Eu vi a uva, e a chamei de parmatursa. Eu via a pedra e a chamei de cremílsica, e ao pavão chamei de gongromardélio, e ao rio chamei de... Mas Deus me mandou parar e disse que cuidaria daquilo, e me instruiu a procurar o que fazer enquanto terminava de criar o Universo, pois os anéis de Saturno ainda estavam lhe dando trabalho. E eu me rebelei e perguntei “Fazer o que?” e viu Deus que, além do Homem, tinha criado um problema.

  E perguntou Deus o que eu queria, e eu respondi: “Sabe que eu não sei?” E Deus disse que tinha me dado uma vida sem fim, e um jardim de prazeres digno de um rei para viver minha vida sem fim, e frutas e peixes e pássaros de graça e dentes para comê-los, e mel de sobremesa, e que eu esperasse para ver que espetáculo, que show de bolas, seria o Universo quando ficasse pronto. Tudo para mim. Só para mim. E não bastava? Não bastava. “Eu pedi para nascer, pedi?” disse eu. E Deus suspirou, criando o vento. E pensou: “Filho único é fogo”. O que eu queria? Queria outra pessoa. Era isso. Queria uma segunda pessoa. Queria um interlocutor. Um irmão, alguém para chamar de “tu”e com quem chamar o Senhor de “ele”. Ou “Ele”. E que quando Ele chamasse de vós, responderíamos em uníssono “nós?” . E quando se referisse a nós para os anjos, dissesse “eles”. Criando outra pessoa, Deus estaria, para todos os efeitos gramaticais, criando cinco.

  E Deus fez a minha vontade, e me pôs a dormir, e quando acordei tinha um irmão ao meu lado, tirado do meu lado. Igual a mim em todos os aspectos. Espera aí, em todos não. Deus, com a cabeça nos anéis de Saturno, não prestara atenção no que fazia e errara a cópia. Colocara coisas que eu não tinha e esquecido coisas que eu tinha, como o pênis, que se dependesse de mim se chamaria Obozodão. Deus se ofereceu para recolher a cópia defeituosa e fazer uma certa mas eu disse “Na-na-não, pode deixar”. Pois tinha visto que era bom. Ou boa. E fui tomado de amor pelo outro. A segunda sensação humana, depois do tédio. * Ela era o meu tu, eu era o tu dela. Juntos, inauguramos vários verbos que estão em uso até hoje. E eu a chamei de Altimanara, mas Deus vetou e lhe deu outro nome. E quando ela perguntou como era o meu nome, respondi “Mastortônio” mas Deus limpou a garganta, inventando o trovão, e disse que não era não. Ficou Adão e Eva (eu Adão, ela Eva) aos olhos do Senhor e na História oficial. Mas, em segredo (isto pouca gente sabe), nos chamávamos de Titinha e Totonho. E foi ela que disse “Totonho, quero que tu me conheças mais a fundo”. E eu: “No sentido bíblico?” E ela: “Há outro?” E inauguramos outro verbo.

 E foi ela que me ofereceu o fruto da Árvore do Saber, a que Deus tinha me dito para nunca tocar mas colocado bem no meio do Paraíso, vá entender. Resisti, embora a fruta fosse rubicunda (uma das poucas palavras que consegui inventar, driblando a fiscalização do Senhor) e ela a segurasse contra o peito, como um apetitoso terceiro seio. Se comêssemos daquela fruta, perderíamos a inocência e nos tornaríamos mortais. “Em compensação...”, disse a Titinha. Em compensação, o que? Só saberíamos se comêssemos a fruta. E fomos tomados de curiosidade. A terceira sensação humana. A fatal.

  Quando soube da nossa transgressão, Deus deu um murro na Terra, criando o terremoto, e nos expulsou do nosso jardim. E durante todos estes anos muitas pessoas têm me perguntado (pois depois disso a Terra se encheu de muitas pessoas) se valeu a pena trocar meus privilégios de primeira e única pessoa pelo prazer de conjugar com outra, e o meu tédio pelo envelhecimento e a morte, e a minha inocência eterna pelo saber fugaz. E sabe que eu não sei?

  E, claro, sempre tem o gaiato que pergunta: “Fora tudo isso, que tal era a fruta?”

Ruy Castro

Publicamente incréu em todos os departamentos, tenho uma tendência a atrair místicos de vários matizes, de doutores em ectoplasma e reencarnação a praticantes de faquirismo e dança do ventre, passando por militantes das mais diversas seitas e religiões. A todos ouço com respeito, e volta e meia sou informado de que, baseado na posição das estrelas no dia e hora do meu nascimento –sou do signo de Peixes, com ascendente em Marisco e lua em Camarão—, alguém descobriu que, em vidas passadas, fui pastor de cabras na Assíria, secretário de Platão em Atenas e, mais recentemente, perfumista no Havaí. Outras pessoas íntimas do Além já me confiaram que, há milênios, foram mascates de tâmaras em Bagdá, damas de honra de Cleópatra no Nilo ou cortesãs na Paris de Luís 15. Tudo muito distante e charmoso. Nunca encontrei alguém que me confessasse ter sido centerfór do Bonsucesso em 1949 ou copidesque do "Notícias Populares". Mas isso era antes. Ouço dizer agora que, graças a terapeutas especializados, muita gente está descobrindo que a razão de seus problemas nesta vida reside nas bandalheiras que praticou em outras vidas. Para isto, foi criada a terapia de vidas passadas. Com a ajuda de um profissional, o sujeito regride àquelas vidas e, de alguma maneira, vai limpando a pedra até chegar aos dias de hoje. Um amigo meu estava confiante, mesmo sabendo que vaiou Jesus Cristo no sermão da montanha. Outro, que descobriu ter sido soldado bárbaro, acha mais difícil escapar. O que os congressistas estão fazendo, ao tentar anistiar os gordos caixas dois que receberam no passado, é parecido. Se limparem suas sujíssimas fichas pregressas, prometem se comportar no futuro. Pois sim. Todo político brasileiro já foi soldado bárbaro, e não há terapia, passada ou presente, que o absolva.

Leandro Karnal

 Minha vó recomendava: não toque tambor para maluco dançar! é um sábio conselho. Não se alimenta a insanidade alheia com argumentos. Mas minha avó viveu numa era menos pública. Naquela época, os doidos não entravam na sua caixa postal nem deixavam pacotes na sua portaria, creio. Tenho tido contato com uma maioria dominante de gente equilibrada, inteligente, que discordando ou concordando , trazem luz ao meu pensamento e me enriquecem. Porém, há uma ativa minoria troll que me assusta.


Seus tipos mais comuns:

01) gente que vive sob a sombra do Muro de Berlim, ou um pedaço do muro caiu na sua cabeça. Ainda vivem em plena Guerra Fria, em polaridades comunistas vs capitalistas.

02) Insanos religiosos, tribo grande, vasta e atenta a tudo que seja diferente da sua mania. Veneram bezerros variados.

03) gente que está voltando de Woodstock a pé e ainda segue ovnis, vidas passadas, cristais, carma, fala com samambaias e flutua no éter no dorso de um pônei mágico. São simpáticos, mas como todo Gremlin, apresentam dificuldades…

04) Conspiracionistas em geral. O mundo é dominado por judeus, maçons, illuminati , por Bill Gates, pelo rock … Podem ser subgrupos dos grupos anteriores…


Gregório Duvivier

 Viva a internet. Antigamente, era preciso berrar, de preferência de cima de um montinho, aquilo que você queria tornar público. Se fosse um sermão, era preciso descolar uma montanha. Ainda assim, não se conseguia angariar muita gente. Jesus, por exemplo, foi o "influencer" mais popular da era pré-digital e só conseguiu juntar 11 seguidores em vida. Parece que tinha um décimo segundo, mas deu unfollow.

A internet operou uma revolução. Qualquer um consegue atingir o mundo inteiro. "Quantos talentos desconhecidos vão surgir!", pensou-se. "Quanta ciência! Quanta poesia!" Ledo engano.

"Desde que meu bebê nasceu não consegui tempo pra fazer cocô!", postou a mãe de um recém nascido. "Sem tempo pra nada!" Embora não tenha conseguido tempo pra fazer cocô, vale notar que ela conseguiu postar essa frase no Facebook e, em seguida, responder aos comentários, o que deixa muito claro quais são as prioridades da minha geração.

Gregório Duvivier

Querido leitor de jornal, você é, antes de tudo, um excêntrico. Ao contrário do resto do país, você não está no WhatsApp. Isso, por si só, denota, senão persistência, alguma excentricidade. Olhe à sua volta. Se houver alguém, está no WhatsApp. Caso pareça que está trabalhando, deve estar no WhatsApp web, invenção que tem por único objetivo deixar fingir que se está trabalhando. Você tampouco está na labuta, é verdade —mas existem muitas formas de não trabalhar, e de todas elas você escolheu ler um jornal. Você tampouco está no Instagram, o que faz de você um excêntrico do tipo subversivo. Os excêntricos mainstream, neste exato momento, estão caçando “likes” com fotos de sapato sobre azulejo. Você decerto não está no Twitter, o que é uma sorte danada. Vale celebrar. Caso você tenha um jornal de papel nas mãos, alguém tentará inferir que você tem idade avançada. Ledo engano: os leitores mais velhos estão todos no Facebook. Você já deve ter percebido: a rede social de Zuckerberg tomou o lugar do bingo. Você, leitor analógico, não é necessariamente velho, mas certamente é vintage. Você tem nas mãos uma relíquia com os dias contados, como quem segura um canudo de plástico —e não se importa com isso. Mesmo que você esteja lendo este texto no computador: posso garantir que você é, no mínimo, extravagante. Não bastou ler a manchete. Você clicou num link. Nos dias de hoje, uma percentagem ínfima dos leitores vão além da manchete. E não lembro onde foi que li isso, mas deve ter sido numa manchete. E mais, de todas as partes do jornal, você está lendo uma crônica. Isso faz de você um excêntrico subversivo do tipo diletante. Se bem lhe conheço, você não perde tempo com nada que pode servir para alguma coisa. Você parou um tempo do seu dia pra ler um texto que não informa nem edifica, escrito por um sujeito que não estudou para isso. E mais: você chegou ao fim —a duras penas, talvez, mas chegou. Pode ser um sinal dos tempos, mas hoje em dia fico emocionado com esse tipo de coisa. Olha só que coisa bonita: nós dois aqui, perdendo tempo juntos. É para você, meu igual, meu irmão, que volto a escrever em jornal. Uma coisa eu garanto: não vai lhe acrescentar nadinha. Eu sei que você gosta. Caso contrário não estaria aqui, conversando comigo nesse não-lugar do espaço-tempo —enquanto o mundo desaba ao redor.

Carlos Heitor Cony

 Em Fontamara, no alto do morro da região mais miserável da Itália, o governo fascista de Mussolini mandou uma comissão do partido fazer uma espécie de plebiscito entre os "cafoni" (camponeses) para saber o que eles pensavam politicamente.


O líder dos fascistas perguntou ao sapateiro: "Viva quem?". A resposta foi respeitosa: "Viva a rainha Margarida!"; "A rainha Margarida já morreu". O mesmo inquisidor escreveu ao lado: "alienado". O segundo a ser interrogado respondeu: "Abaixo os ladrões". Foi classificado como anarquista. O terceiro não sabia dizer "vivas". Só sabia dizer "abaixo" e respondeu: "Abaixo os impostos". Também foi classificado como anarquista.

Ricardo Araújo Pereira

É difícil acreditar que estamos no ano de 2026. Difícil para mim. Para as minhas filhas é normalíssimo. Eu, com a idade delas, esperava que em 2026 a gente já conseguisse viver noutros planetas. Elas esperam que a gente ainda consiga continuar a viver neste. Eu esperava que a gente andasse mais em naves espaciais. Elas esperam que a gente ande menos de carro. Falharam, ligeiramente, as profecias da ficção científica. Em vez de termos todos modernas naves à disposição, dizem-nos que o meio de transporte mais sensato e menos poluente talvez seja o burro. Como tenho muito tempo livre, fiz o exercício de investigar o lugar para onde a humanidade tem vindo a dirigir o seu olhar, ao longo da história recente. Pode ser que isso aponte um caminho. No princípio do século passado, começamos a olhar para a grande tela do cinema. Depois, a meio do século, passamos a olhar para a tela da televisão. E agora, no início deste século, olhamos para a tela do celular. Temos vindo a olhar para telas cada vez mais pequenas, e na companhia de cada vez menos gente: víamos cinema em salas cheias, víamos televisão só com a família ou os amigos e agora olhamos para o celular sozinhos. Além disso, vemos cada vez mais coisas, e cada vez melhor, em telas cada vez menores. Os espectadores do início do século XX não tinham muito mais para ver do que o filme da saída dos operários da fábrica Lumière. Agora, cada operário da fábrica Lumière (se ela ainda existir) tem no bolso um aparelho que lhe permite ver milhões de filmes, incluindo o da saída dos operários da fábrica Lumière. O que é que este padrão indica? O que deseja uma espécie cuja ambição, aparentemente, é ver cada vez mais coisas, com cada vez maior nitidez, numa tela cada vez menor? Talvez o problema seja o seguinte: quanto melhor vemos quem somos, menos aguentamos vê-lo numa tela grande. E preferimos não ter companhia, provavelmente porque o espetáculo é obsceno. Ou a gente melhora depressa ou, em breve, não há tela. Nem espectadores. Só uma imagem muito nítida de um mundo sem gente.

Renato Terra

  Um país aprisionado no pesadelo

“A Hora do Pesadelo” — Deitada em berço esplêndido, uma jovem democracia tem pesadelos horríveis. Em todos, é atacada por um monstro incendiário com garras de nióbio. A cada cochilada cai num labirinto vertiginoso de destruição e pânico. Exército, cidadãos armados, garimpeiros, madeireiros, milicianos e deputados ecoam uma canção apavorante: “O Bozo vai te pegar! O Bozo vai te pegar!”. Ódio, mentira, corrupção, agressões. Os crimes se sucedem num ritmo frenético, os diálogos ficam mais confusos, um clima de tragédia iminente vai se anunciando. A cada piscar de olhos uma nova calamidade pode acontecer. O pesadelo começa a se imiscuir na vida real…

“It – A Obra-prima do Medo” — Brasília é uma pacata cidade aterrorizada por um espírito despótico. O ser maligno começa se manifestando sob a forma de um Castelo Branco ou um Garrastazu. Desde que abandonou a identidade metade humana, metade equina de Figueiredo, a entidade deu um tempo, mas agora vem ganhando força sob a forma do Palhaço. É assim que ela reaparece, mais de 50 anos depois, espalhando medo e devastação por onde passa.

“O Massacre da Serra Elétrica” — Detectado diariamente pelos satélites e pelo Imazon, o massacre da serra elétrica não sossega nem um dia sequer e é incentivado pelo desmonte provocado pelo psicopata Leatherface. Filme inovador em seu gênero por não se restringir a dizimar seres humanos, incluindo também o aniquilamento de árvores e animais, além de promover o caos climático.

“O Iluminado” — Jack é designado para cuidar de um hotel no inverno. Incapaz de trabalhar, passa o tempo aterrorizando todos à sua volta, inclusive sua mulher e seu filho. O espectador não distingue o que é alucinação psicótica ou assombração.

“Querida, Encolhi o Brasil” — Inicialmente produzido como filme infantil, a nova franquia, ainda inédita, se passa no Brasil. Tudo começa quando um blogueiro foragido cria uma máquina que encolhe as ambições coletivas de um país. Um raio de luz difusa invade a mente das pessoas que, uma a uma, passam a debater um assunto imbecil após o outro. Anos de civilização e construção de identidade são jogados no lixo. O pior de cada um vem à tona, e os debates idiotas passam às vias de fato. O país vai diminuindo, diminuindo, até (atenção, spoiler) sumir do mapa.

Ricardo Araújo Pereira

  Dizem que Tales de Mileto estava um dia tão embrenhado a olhar para o céu, observando as estrelas, que acabou por cair num poço. Platão acrescenta que uma bela e espirituosa criada da Trácia riu dele e o fez notar que a sua ambição de conhecer as coisas do céu o impediu de ver as coisas que tinha mesmo debaixo do nariz.

Não sei em que medida é que o fato de a moça ser bela, espirituosa e criada oriunda da Trácia acrescenta peso à humilhação de Tales, mas Platão achou importante que tivéssemos essas informações. Talvez seja mais humilhante fazer figura de bobo à frente de pessoas belas. Pode ser isso.

Costuma dizer-se que, quando o sábio aponta para a Lua, o louco olha para o dedo. O que me interessa é que o autor dessa observação olhou para todo o lado: para o sábio, para a Lua, para o louco e para o dedo. O que quer dizer que olhou através dos seus olhos (porque viu o sábio e o louco), e olhou através dos olhos do sábio e através dos olhos do louco (porque também viu a Lua, como o primeiro, e também viu o dedo, como o segundo). Na história de Platão, Tales só viu as estrelas. A criada viu Tales, as estrelas e o poço. Ela era uma filósofa melhor.

Heidegger recupera essa história no seu livro "O que É Uma Coisa?", cujo título dá vontade de rir, pelo menos até a gente começar a ler, altura em que toda a alegria nos abandona.

O livro é uma investigação sobre a substância das coisas, a nossa relação com elas, e o modo como a nossa relação com elas pode influenciar a sua substância. Ou seja, é chato (eu sou um leitor de filosofia muito sofisticado).

Mas todas aquelas reflexões sobre as coisas fizeram-me lembrar aquela expressão que os falantes de português usam: coisíssima nenhuma. E afastei-me um pouco do pensamento de Heidegger para me maravilhar com a improbabilidade dessa expressão.

Como assim, coisíssima? Coisa é um substantivo. Quem teve a ideia de o superlativar? E então concluí que qualquer filósofo pode dedicar-se a pensar as coisas. Mas só os filósofos de língua portuguesa podem ser bem-sucedidos na difícil, quase impossível tarefa de pensar em coisíssima nenhuma.

Luis Fernando Veríssimo

  Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro. E uma banana pelo potássio.

E também uma laranja pela vitamina C. Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.

Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.

Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão).

Cada dia uma Aspirina, previne infarto. Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso. Um copo de cerveja, para… não lembro bem para o que, mas faz bem. O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.

Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver.

Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente. E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia…

E não esqueça de escovar os dentes depois de comer. Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax. Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.

Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma.

Sobram três, desde que você não pegue trânsito. As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).

E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.

Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.

Ah! E o sexo! Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo – e nem estou falando de sexo tântrico.

Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação. Na minha conta são 29 horas por dia.

A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo! Por exemplo, tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. Chame os amigos junto com os seus pais. Beba o vinho, coma a maçã e a banana junto com a sua mulher… na sua cama.

Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.

Agora tenho que ir.

É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro.

E já que vou, levo um jornal… Tchau!

Viva a vida com bom humor!!!

Aran e Castelo

 


Sugestões de lápides para:


· O Editor: Fora de catálogo.

· O Mal-humorado: Não incomodem.

· O Cri-cri: Volto a insistir: para mim isso foi só um desmaio.

· O Geólogo: É pau, é pedra, é o fim do caminho.

· O Ejaculador precoce: Eu já esperava por isso, mas não tão rápido.

· O Impotente: De pé, nunca mais.

· O Místico: À margem do rio Piedra eu sentei e dancei.

 . O Ateu: Tão bem vestido e nenhum lugar para ir...


Marcius Melhem

 Depois de muito refletir, elaborei um manual de como agir frente às questões da vida.

Regra número um: diante de qualquer questão sempre se pergunte "eu tenho algo a ver com isso?" Fim do manual.
Sei que à primeira vista parece complexo. Mas com exemplos fica mais fácil.

Situação 1: meu vizinho é gay e namora outro homem.
Pergunta: "eu tenho algo a ver com isso?"
Resposta: não.
Consequência: eles seguem a vida deles, e eu a minha.

Situação 2: o hospital público do meu bairro está abandonado.
Pergunta: "eu tenho algo a ver com isso?"
Resposta: sim. Se o bem é público, é de todos.
Consequência: eu me junto a outras pessoas, incluindo meu vizinho gay e seu namorado, e vou cobrar do poder público que a situação melhore.

Situação 3: eu sou evangélico e tenho um vizinho que é do candomblé, religião de que eu não gosto.
Pergunta: "eu tenho algo a ver com isso?"
Resposta: não.
Consequência: eu continuo com a minha religião e meu vizinho com a dele.

Situação 4: meu bairro está com assaltos frequentes.
Pergunta: "eu tenho algo a ver com isso?"
Resposta: sim. O Governo estadual tem obrigação de prover segurança à população.
Consequência: me junto a meu vizinho gay, seu namorado, e meu outro vizinho do candomblé, vamos até a delegacia do bairro e ao batalhão da PM responsáveis pela área e cobramos um plano de ação.

Situação 5: tenho uma vizinha que planta maconha e fuma.
Pergunta: "eu tenho algo a ver com isso?"
Resposta: não.
Consequência: ela continua se arriscando com essa droga ilegal, e eu continuo saudável com meu cigarro e meu uísque legalizados.

Situação 6: não estou satisfeito com os representantes do meu Estado no Congresso Nacional.
Pergunta: "eu tenho algo a ver com isso?"
Resposta: sim. Sou eleitor e ajudei a colocá-los lá.
Consequência: estudo melhor quem são os candidatos, depois me uno a meu vizinho gay, seu namorado, meu outro vizinho do candomblé, e minha vizinha maconheira. Juntos tentamos votar com mais consciência.

A questão no fundo é que 90% dos problemas do mundo não existiriam se as pessoas entendessem que se meter na vida do outro não melhora a nossa vida.

Ascanio Seleme

 Eles são milhares, alguns dizem que são centenas de milhares, eles afirmam ser milhões. Os terraplanistas estão em todos os lugares, mas nasceram e cresceram nos Estados Unidos. Eles acreditam franca e abertamente que a Terra é plana e que o mundo inteiro é enganado por interesses escusos de governos e instituições multinacionais que sustentam que o planeta é redondo, circula em torno do sol e gravita numa galáxia também em permanente movimento. Dizem que também satanistas, maçons, judeus e o Vaticano patrocinam a ideia errada de que a Terra é redonda.


Para os terraplanistas, o mundo é um disco, uma espécie de pizza coberta por uma cúpula de vidro, onde o sol e as estrelas são imagens criadas e exibidas numa espécie de display gigantesco acoplado à cúpula. E está parado. Onde? Não sabem dizer. Existe inclusive uma associação que congrega essas pessoas, a Flat Earth Society (Sociedade da Terra Plana), que organizou, em 2017, a Primeira Conferência Internacional da Terra Plana, realizada em Raleigh, na Carolina do Norte.

Há ainda centenas de sites e blogs de terraplanistas que espalham nas redes sociais a sua certeza. Eles dizem que as imagens feitas do espaço e que mostram a Terra como uma imensa bola de gude azul são falsas. Garantem que a Terra é plana sem oferecer qualquer evidência nesse sentido e reclamam quando são chamados de lunáticos. Por isso, talvez, existam até mesmo sites de encontros românticos de terraplanistas. Para agregar pessoas consideradas no mínimo esquisitas e que podem ser rejeitadas pelas demais.

Antes deles, muitos não acreditaram que o homem foi mesmo à Lua. Os terraplanistas dizem que os astronautas, todos eles desde antes de Neil Armstrong, são atores que participam de uma enorme conspiração contra a verdade. Afirmam também que os cientistas são comprados para afirmar o contrário do que acreditam. Dizem até que "essa gente" inventou os dinossauros para contar a história da colisão de um asteroide com a Terra há 66 milhões de anos. Se acreditassem nos dinossauros, confirmariam a tese do asteroide, da Terra redonda e, puf, sua teoria iria para o espaço.

Aliás, os terraplanistas também não acreditam em espaço. Alguns afirmam que vivemos numa espécie permanente de "Truman Show", o filme em que um homem vive uma realidade simulada desde o seu nascimento. Sua vida é um show de TV acompanhado no mundo inteiro. Todos sabem que Truman Burbank, estrelado por Jim Carrey, vive num mundo falso, menos ele. Os que acreditam nesta teoria imaginam que todos os seres do planeta vivam numa realidade simulada e que alguém, fora da cúpula de vidro, nos manipula e se diverte conosco.

Há um documentário na Netflix chamado "A Terra é plana", que mostra em detalhes este universo bizarro em que os terraplanistas vivem. Para quem tem tempo, é um bom entretenimento de pouco mais de uma hora e meia.

Não se tem notícia no Brasil de terraplanistas. Mas há outros grupos bastante curiosos de pessoas que acreditam em coisas tão sem sentido quanto a teoria da Terra plana. Há em todos os níveis da sociedade nacional aqueles que não acreditam que houve um golpe militar no Brasil em 1964. Dizem que o presidente João Goulart foi destituído democraticamente do seu cargo. Muitos dentre estes afirmam que nem mesmo ditadura houve no país entre o ano do golpe e 1985. E há ainda os que garantem que não existiu tortura no Brasil, apesar das milhares de provas em contrário.

Outro grupo exótico, recém-descoberto no Brasil, é formado por indivíduos que dizem que o nazismo e o fascismo foram movimentos políticos de esquerda. Contra todas as evidências e provas históricas, teimam em afirmar que os nazistas eram esquerdistas porque seu partido se chamava Nacional Socialista. Não dá para dizer se esta turma é ingênua ou ignorante. A diferença entre os brasileiros e os terraplanistas americanos é que estes ainda recolhem fundos para fazer uma jornada até a borda da terra. Os brasileiros que não acreditam no golpe, na ditadura, na tortura e ainda afirmam que Hitler era um esquerdista psicopata já estão viajando há tempo.

Luis Fernando Veríssimo

 Sou um tímido veterano e posso dar conselhos aos que estão recém-descobrindo o martírio de enfrentar esse terror, os outros, e a obrigação de se fazer ouvir, ter amigos, namorar, procriar e, enfim, viver, quando preferia ficar quieto em casa. Ou, de preferência, no útero.

*
Algumas coisas não funcionam. Já tentei várias maneiras de conviver com minha timidez e nenhuma deu certo. Decorar frases, por exemplo. Já fui com uma frase pronta para impressionar a menina e na hora saiu “Teus verdes são como dois olhos, lagoa”. Também resista à tentação de assumir um ar superior e dar a impressão de que você não é tímido, é misterioso.
*
Evite manobras calhordas, como identificar alguém tão tímido quanto você no grupo e quando, por sacanagem, lhe passarem a palavra, passar a palavra imediatamente para ele. O mínimo que um tímido espera de outro é solidariedade. E não há momento mais temido na vida de um tímido do que quando lhe passam a palavra.
*
Tente se convencer que você não é o alvo de todos os olhares e de todas as expectativas de vexame quando entra em qualquer recinto. Porque, no fundo, a timidez é uma forma extrema de vaidade, pois é a certeza de que, onde o tímido estiver, ele é o centro das atenções, o que torna quase inevitável que errará a cadeira e sentará no chão, ou no colo da anfitriã. Convença-se, o mundo não está só esperando para ver qual é a próxima que você vai aprontar.
*
Mesmo com o secreto e permanente desejo, é verdade, de não estar ali, mas quieto em casa.

Domínio Público

 O certo e o justo



Tem uma piada velha que começa assim: o advogado vai ao motel acompanhado da mulher do melhor amigo, também advogado. Chegando lá, encontra a própria mulher acompanhada do melhor amigo. Ao constrangimento inicial segue a dúvida.

– E agora? O que é que a gente faz?

– O certo seria a gente destrocar os casais e cada um voltar pra casa acompanhado do respectivo cônjuge.

– Sim, isso seria o certo. Mas não seria o justo.

– Por quê?

– Porque a gente tá chegando, e vocês tão saindo.

Ricardo Araújo Pereira

 Desconfio sempre de alguém que me acolhe em determinado sítio dizendo: "Seja bem-vindo, isto aqui é tudo uma grande família". Isto é maneira de receber? Quem diz isso, como é óbvio, não conhece a minha família. Nem a maior parte das outras. Em geral, a pior coisa que pode acontecer a alguém é ter família.


     Qual é o primeiro crime relatado na Bíblia? Um irmão assassina outro. Caim mata Abel, o seu irmão, não mata Reginaldo, um colega de trabalho. Na mitologia grega é a mesma coisa: Cronos castra Urano, seu pai. Não castra Vinícius, o seu açougueiro.

     Em Shakespeare, o mesmo: Hamlet pondera matar Cláudio, seu tio, que por sua vez matou Hamlet sênior, seu irmão. Não deseja matar Chico, o síndico do seu prédio, que por sua vez não matou Paulão, o entregador de pizza.

     Há notícia de moços que foram criados por lobas e acabaram por fundar a cidade de Roma. Mas Palermo, na Sicília, eu aposto que foi fundada por gente criada por seres humanos. A loba é uma progenitora respeitável.
Raramente aparece na toca bêbeda ou desbarata o salário no cassino.

     As famílias são, de fato, um perigo real que não se deve menosprezar. A esmagadora maioria dos homicídios ocorre, aliás, dentro de portas. Quantas vezes lemos manchetes que dizem: "Homem mata mulher e sogra"? Inúmeras. E quantas vezes lemos: "Homem mata mulher e sogra de outra pessoa"? Bem menos.

     E parece-me sensato que, a ter de matar alguém, o homicida opte por um familiar. O homicídio acaba por ser uma atividade demasiado íntima para ser levada a cabo com estranhos. Até é falta de educação.

Ruy Castro

 Diz a lenda que, pouco antes do jogo Brasil x URSS pela Copa do Mundo de 1958, na Suécia, Vicente Feola, o treinador brasileiro, reuniu seus jogadores no vestiário e traçou a estratégia que, com a bola de pé em pé pelo nosso ataque no meio da defesa russa, levaria ao primeiro gol do Brasil. Não tinha erro — a jogada era mortal. De repente, Garrincha perguntou a Feola: "Mas o senhor já combinou com os russos?".


Desde então, estabeleceu-se que, antes de qualquer decisão importante, não importa o assunto, é bom primeiro combinar com os russos. Mesmo assim, é raro o dia em que alguém por aqui não se dê mal justamente por isto – por não ter combinado com os russos.

A expressão é boa, mas a história de Garrincha não aconteceu e ele nunca disse a frase. Para meu livro "Estrela Solitária", sobre a vida do jogador, conversei com quatro pessoas presentes naquele vestiário em 1958: o preparador físico Paulo Amaral e os jogadores Bellini, Didi e Nilton Santos. Todos me disseram que Garrincha sequer foi chamado a ouvir a preleção — porque não adiantava, só fazia o que lhe dava na cabeça.

O que não quer dizer que, na vida real, não se deva combinar com  os russos. A menos, claro, que você seja o Garrincha.

Luis Fernando Veríssimo

 Depois de fazer o laço da forca e colocar uma cadeira embaixo, o escritor sentou-se atrás da sua mesa de trabalho, ligou o computador e digitou: 

“No fundo, no fundo, os escritores passam o tempo todo redigindo a sua nota de suicida. Os que se suicidam mesmo são os que a terminam mais cedo.”

Levantou-se, subiu na cadeira sob a forca e colocou a forca no pescoço. Depois retirou a forca do pescoço, desceu da cadeira, voltou ao computador e apagou o segundo “no fundo”. Ficava mais enxuto. Mais categórico. Releu a nota e achou que estava curta. Pensou um pouco, depois acrescentou: 

“Há os que se suicidam antes de escapar da terrível agonia de encontrar um final para a nota. O suicídio substitui o final. O suicídio é o final.”

Levantou-se, subiu na cadeira, colocou a forca no pescoço e ficou pensando. Lembrou-se de uma frase de Borges. Encaixa, pensou, retirando a corda do pescoço, descendo da cadeira e voltando ao computador. Digitou:

“Borges disse que o escritor publica seus livros para livrar-se deles, senão passaria o resto da vida reescrevendo-os. O suicídio substitui a publicação. O suicídio é a publicação. No caso, o livro livra-se do escritor.”

Levantou-se, subiu na cadeira, mas desceu da cadeira antes de colocar a forca no pescoço. Lembrara-se de outra coisa. Voltou ao computador e, entre o penúltimo e o último parágrafo, inseriu:

“Há escritores que escrevem um grande livro, ou uma grande nota de suicida, e depois nunca mais conseguem escrever outro. Atribuem a um bloqueio, ao medo do fracasso. Não é nada disso. É que escreveram a nota, mas esqueceram-se de se suicidar. Passam o resto da vida sabendo que faltou alguma coisa na sua obra e não sabendo o que é. Faltou o suicídio.”

Levantou-se, ficou olhando a tela do computador, depois sentou-se de novo. Digitou: 

“No fundo, no fundo, a agonia é saber quando se terminou. Há os que não sabem quando chegaram ao final da sua nota de suicida. Geralmente, são escritores de uma obra extensa. A crítica elogia sua prolixidade, a sua experimentação com formas diversas. Não sabe que ele não consegue é terminar a nota.”

Desta vez não se levantou. Ficou olhando para a tela, pensando. Depois acrescentou: 

“É claro que o computador agravou a agonia. Talvez uma nota de suicida definitiva só possa ser manuscrita ou datilografada à moda antiga, quando o medo de borrar o papel com correções e deixar uma impressão de desleixo para a posteridade leva o autor a ser preciso e sucinto. Tese: é impossível escrever uma nota de suicida num computador.”

Era isso? Ele releu o que tinha escrito. Apagou o segundo “no fundo”. Era isso. Por via das dúvidas, guardou o texto na memória do computador. No dia seguinte o revisaria.

E foi dormir.


Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...