Luiz Antônio Simas

 O mistério da cruz não me comove particularmente e, não bastasse isso, desprovido da crença, sou mesmo um ressabiado crítico de instituições religiosas, de todos os matizes.


     Me apropriando desta ideia, lanço sobre Jesus Cristo um olhar carinhosamente humano.
Jesus Cristo transformou, afinal, água em vinho. Nunca transformou vinho em água. Fez isso, não custa lembrar, para não acabar com a festança da rapaziada. Disse também, naquele jantar com o fariseu escroto, que o mal nunca é o que entra, mas o que sai da boca do homem – e quebrou assim todos os tabus alimentares.

     O problema, para mim, é que tem cristão que insiste em transformar o barba em um chatonildo, inimigo dos fuzuês, dos birinaites e das alegrias. Cristo (o meu) era um farrista, não era um carola enxabido ou um pregador insulso. É por isso que eu me amarro no Jota da Nazaré.
É por isso, ainda, que sou do cristianismo popular: bebo e compartilho da boa mesa com os meus amigos e camaradas. E não entro em templo com fariseus que queiram ditar regras e impor grosseiramente suas verdades.

     Ele, o Cristo dos meus delírios, se sentiria mais a vontade em um botequim de esquina do que na Basílica de São Pedro. Se manifesta mais nas mãos calejadas dos devotos, do que nas batinas sacerdotais e nos ternos bem cortados dos condutores do bonde da aleluia.

     Meu Cristo, enfim, é um pequeno; pedrinha miudinha. Joga na várzea, bebe nos subúrbios, rala nas fábricas e, quando o sol vai quebrando lá pro fim do mundo, descansa feito João Valentão e adormece como menino brasileiro.

Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...