João Pereira Coutinho
Lira Neto
Seja nas historietas populares tradicionais, nas mais distintas mitologias, nos contos de fadas infantis ou em Hollywood, há um padrão que se repete, por trás da aparente multiplicidade de enredos e narrativas. É a alusão a um mundo comum inicial, ameno e familiar, paraíso terrestre e cotidiano subitamente assolado por uma força maligna, que chega soturnamente para desestabilizar o curso brando dos dias e a ordem natural das coisas. Estabelece-se uma situação de crise que possibilita a assunção de um herói dotado de voluntarismo e agudo senso moral.
Nestes 130 anos de República, também é manifesta a recorrência de certas mitologias políticas, sempre as mesmas, embora revistas, reinventadas e amoldadas ao sabor dos tempos. Uma repetição de estratégias e discursos facilmente identificáveis, a serem postos em ação de modo bem pouco surpreendente — mas que seguem produzindo efeitos desastrosos à maturidade de nossa cidadania.
Fabrica-se assim a figura do oponente deletério, a ser desmascarado e combatido, um inimigo a ser subjugado, exterminado, destruído. Por isso, é necessário desumanizá-lo, emprestar-lhe ares de besta-fera, satanizá-lo. A depender do contexto de época, atribuem-se várias fisionomias a esse ser. A fórmula mais recursiva é a do apelo a certa fantasmagoria tão pueril quanto eficaz: o “perigo vermelho” do qual falava Getúlio para impor o Estado Novo, a “República sindicalista” citada pelos militares e empresários que derrubaram Jango, os “comunistas” denunciados ainda hoje com alarde.
Se há um vilão a ser aniquilado, é preciso construir a figura de um herói corajoso e íntegro, escolhido pelo destino para a missão redentora. Ao alarmismo, justapõe-se então o salvacionismo. O que interessa é que o herói fabricado seja honesto e destemido, tenha força e disposição para agir. Importa é que restaure a ordem antiga, devolva ao povo suas “mais caras tradições cristãs”, recupere um passado idealizado, promova o retorno a um cenário paradisíaco, anterior à chegada do Mal.
Impõe-se o terceiro ingrediente histórico dessa reincidência narrativa: o moralismo. O discurso da “probidade” moral se faz acompanhar da presumida cruzada contra a corrupção. Getúlio chegou ao poder em 1930 denunciando a devassidão política e financeira da Primeira República. O mesmo argumento que se voltou contra ele quando os udenistas, Lacerda à frente, entoaram a ladainha de que éramos um país “governado por ladrões”.
Nelson Barbosa
Sempre houve e haverá desigualdade em sociedades humanas, mas, quando a desigualdade se torna extrema e injustificável, a população tende a se rebelar, liderada pela classe média. Quando a classe média se alia aos mais ricos, normalmente temos mais aumento da desigualdade, que é tolerado enquanto houver crescimento econômico ou administrado via repressão contra os mais pobres quando o crescimento econômico é insuficiente. Quando a classe média se alia aos mais pobres, geralmente temos redução da desigualdade, que, novamente, é tolerada enquanto houver crescimento. Também há mais inclusão social nesse caso, o que ironicamente acaba criando ansiedade em parte da classe média, por ter que compartilhar direitos e espaços antes percebidos como seus.
Mas o que é classe média? Há várias definições na literatura, baseadas em nível de renda (economistas), padrão de consumo (marqueteiros) e outros fatores. Gosto da taxonomia da jornalista Barbara Ehrenreich, em “Fear of Falling”, sobre os EUA, do fim dos anos 1980. O livro não foi traduzido para o português, mas tento um resumo: o que mais caracteriza a classe média é, adivinhe, o medo de cair! Segundo Ehrenreich, o principal capital da classe média é sua formação profissional, adquirida via estudo e experiência, o que, por sua vez, não é facilmente transferível às futuras gerações, como, digamos, dinheiro no banco. Uma pessoa de classe média tem vida geralmente confortável e segura, mas seus filhos não têm garantia de continuar na mesma situação. Para permanecerem na classe média, eles e elas terão que se qualificar e, mesmo assim, correm o risco de cair para as classes mais pobres se não houver empregos ou oportunidades suficientes para suas qualificações.
Gosto dessa taxonomia porque ela é simples. Ricos são aqueles com situação garantida hoje, amanhã e depois. A geração atual está bem, a seguinte idem e os netos também. Não há medo de cair. Classe média é o grupo que está bem hoje, mas que pode cair amanhã e, principalmente, cujos filhos não têm garantia de permanecer classe média. E os pobres são aqueles que batalham dia a dia para não cair na miséria. Aqueles para os quais um pequeno choque adverso (doença ou acidente) pode representar a diferença entre pobreza e miséria.
A expansão da classe média é vital para a manutenção da democracia, mas hoje isso está em risco em alguns países. Seja pela abertura comercial, pela automação da produção, pela imigração ou pela concentração de poder pelos mais ricos, o fato é que a classe média vem perdendo representação no Ocidente. Esse processo obviamente não ocorre sem reação, e, na política, é sempre mais fácil culpar o outro do que explicar situações complexas. Nos países avançados, os imigrantes são o bode expiatório. Por aqui a culpa é geralmente dos “esquerdistas”, que ousaram distribuir mais renda do que de costume quando foram governo.
Nos dois casos a elite cria uma cortina de fumaça para iludir a classe média, atribuindo só a imigrantes ou esquerdistas práticas condenáveis como corrupção, ausência de valores e pecados equivalentes. E, enquanto o medo de cair leva a classe média a se aliar aos mais ricos, sua situação econômica fica cada vez pior, com precarização das condições de trabalho e redução da mobilidade social. Até quando? Até que alguma liderança seja capaz de unir novamente classe média e mais pobres ou até a situação ficar tão ruim que isso acontece naturalmente. Torço pela a primeira alternativa, mas por enquanto ainda estamos na segunda.
Fábio Canton
Ética é um conceito relativamente simples, mas simplicidade é um valor que poucos praticam. Não é de bom alvitre que procuradores ou juízes desfraldem bandeiras partidárias em redes sociais, nem em qualquer meio, principalmente num momento em que o partidarismo contamina boa parte das relações pessoais e institucionais no país.
Espera-se que não ajam como militantes aqueles que investigam ou julgam militantes. Ocorrem casos desse tipo? Sim, um aqui, outro ali, casos excepcionais ("excepcional": adjetivo derivado do substantivo "exceção").
No Estado brasileiro, que não é um estado de exceção, não se denuncia nem se julga a partir de preceitos morais. Claro, aqui prevalece o direito, salvo um ou outro momento em que o acusador não se contém e diz tudo o que pensa do acusado, de suas preferências, seus hábitos, seu linguajar, suas roupas. Excepcionalmente.
No Estado brasileiro, que não é de exceção, vez ou outra prisões preventivas alongam-se até que o réu resolva celebrar acordo de delação -mas esses são casos excepcionais.
Como o Estado brasileiro não é um estado de exceção, aqui não se propõem regressões antidemocráticas, como o fim do habeas corpus ou a aceitação de provas ilícitas nos processos. Claro, exceto quando em nome de uma meta elevada -o combate à corrupção, por exemplo.
Nesse ambiente de tanta excepcionalidade, mas ainda não de um estado de exceção, indaga-se: se foi tão árdua a luta por uma Constituição cidadã, por que tanta gente a ignora?
A partição das atribuições das instituições republicanas, a observância das respectivas esferas de ação dos Poderes, o apego ao conteúdo dos autos de processos, o respeito às prerrogativas da advocacia e a obrigatoriedade da presença do advogado em quaisquer instâncias legais -em contenciosos ou conciliações- não são penduricalhos jurídicos, mas avanços civilizatórios.
Repito o que tenho afirmado com frequência: comete grave erro quem vislumbra vencer a corrupção passando por cima do direito. Quem age assim costuma também ignorar que prejulgamentos morais não servem para embasar denúncias, ao menos nos Estados democráticos.
O bom combate à corrupção (não se pode analisar o Brasil sem falar dela), que levará essa praga definitivamente à lona, terá vez no ringue constitucional. Não há outro caminho.
Em termos práticos, caso a caso, é claro que ações policiais contundentes são fundamentais. Ninguém pede que se acoquem bandidos, muito menos que se relativize o crime: um político popular, se corrupto, é tão corrupto quanto o mais impopular dos políticos corruptos. Já destruir a corrupção em seu nascedouro exige um pouco mais de sutileza. A fonte originária deste mar de propinas em que o Brasil se afoga é o relacionamento entre políticos e seus financiadores eleitorais, é a existência de partidos de aluguel, é o notável desprezo com que os administradores públicos olham para a Lei de Licitações.
Não, não vivemos em um estado de exceção, mas em um Estado recheado de excepcionalidades, o que é quase a mesma coisa. Sem uma profunda reforma política, chegaremos lá rapidamente.
Roberto Damatta
Vivi tempos em que éramos apenas “subdesenvolvidos”. Naquela era mitológica, havia um atraso admitido: o clima tropical (que impedia o pensamento, como dizia um dos nossos professores), a Serra do Mar (muralha que bloqueia a conquista do sertão), a colonização lusa (se fossem os holandeses...), a mistura fatal das raças, o jeitinho jurídico que, vejam o horror, condena ácidos criminosos a doces prisões domiciliares, o feroz imperialismo ianque, os coronéis latifundiários, os políticos ladrões (mas que faziam...), os sistemas eleitorais indevidos, a saúva, a sensualidade, o samba, a cachaça, o Diabo...
O Brasil, como dizia Otto Lara Resende, não tinha furacão, tufão, terremoto, nevasca e maremoto, mas tinha inflação. Domesticamos a inflação, mas o populismo que produziu a plutocracia quebrou as contas públicas. Hoje, temos um sistema travado e o nosso time político, com o perdão pelo feio qualificativo que lhe cabe, é uma merda. Com a devida vênia aos honestos, todos têm algum laço, traço ou gene espúrio.
Aliás, a nossa elite é uma Grande Família. Os partidos, que deveriam conter os empenhos da casa, ressurgem fortes no estamento (como dizia com avassaladora sapiência Raymundo Faoro). Se você gritar “tio!” ou “padrinho!” no Congresso Nacional, ou em qualquer outro ambiente repleto de “gente grande”, você vai ouvir um amoroso “SIM?...”. Mudamos para a coisa pública, mas os laços de parentesco retornam como um furacão. Reprimimos legalmente o nepotismo puro, mas um ardiloso jeitinho inventou um brasileirismo – o nepotismo cruzado!
Nada, convenhamos, é mais legítimo na nossa democracia igualitária e meritocrática do que dar uma “mãozinha” a um parente se ele (ou ela) tem aquele talento. Mas, qual é o parente que, no Brasil, não tem talento?
Laurez Cerqueira
Depois do período colonial, as nações centrais mantiveram profundos vínculos econômico-financeiros com as nações periféricas por meio de suas corporações empresariais e, com seus liames políticos, impuseram a arquitetura do Estado e do poder.
Foi assim no Império e na República que resultou do golpe militar do Marechal Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Benjamim Constant, logo após a proibição da escravidão pela Lei Áurea.Os militares não se aliaram aos republicanos abolicionistas, mas aos proprietários das terras, das minas, das empresas e dos bancos que se estabeleciam no país.
As forças armadas e policiais brasileiras, por serem originárias historicamente dos reinados e mantidas por eles, para defenderem o patrimônio da Coroa e dos proprietários das terras e das empresas, têm se comportado, no Brasil, salvo raras exceções, como combatentes de inimigos internos, respaldadas por “Juízes de Pelourinho”, autoridades forjadas na cultura colonial do açoite, da degola, do esquartejamento e salgamento de corpos de líderes populares. Sempre foi assim em Pindorama e a história tem os fatos emoldurados e pendurados na parede da memória.
Por ter manifestado sentimento nativista e desejo de independência do Brasil, Felipe dos Santos foi amarrado a uma junta de cavalos bravios e arrastado pelas ruas de Vila Rica, em Minas Gerais, até o corpo partir em pedaços. As partes foram salgadas e penduradas nas árvores da entrada da cidade. Tiradentes foi enforcado, esquartejado, as partes do corpo também salgadas e amarradas em postes de Vila Rica. A cabeça ficou exposta no paço da cidade.
Zumbi teve a cabeça cortada, levada ao governador de Pernambuco, Melo de Castro, e exposta no paço da cidade do Recife. Antônio Conselheiro, Lampião e muitos dos seus seguidores também tiveram as cabeças cortadas e expostas em praças públicas. Assim se comportam as forças armadas e policiais do Brasil, em nome da ordem e do progresso ditadas pelos de cima.
A República brasileira é fruto de um golpe militar, manobrado politicamente por gerentes de interesse estrangeiros. Por incrível que pareça, o Brasil não consegue se livrar da sombra do passado.
Os golpes militares que se seguiram na história do Brasil, nos ciclos de vigência do Estado democrático de direito, foram dados por militares em parceria com gerentes de interesses externos, para realinhar o Brasil aos vínculos econômico-financeiros das nações centrais impostos pelas corporações empresariais.
Desde os tempos coloniais, as nações periféricas contam com categorias nativas, não proprietárias, de gerentes de interesses estrangeiros que vivem a pregar uma ideologia que só serve a eles e a seus negócios. São tipos que transitam na política e no mercado, e estão sempre participando de governos, principalmente no comando de áreas estratégicas, com as grandes corporações de mídia à disposição, onde formam a opinião pública e comandam a massa.
Não gostam de pagar impostos. Costumam ser sonegadores contumazes. Se dizem inimigos do Estado, mas sempre contam com a proteção e a salvação dos seus negócios pelo Estado.
Para eles, “Ordem e Progresso ” quer dizer: baixem as cabeças, trabalhem, produzam, consumam, não questionem, e deixem os destinos nas mãos deles.
The Economist
Sidney Miller
O Estado de São Paulo, em editorial
Não são apenas os devotos das seitas extremistas que limitam sua visão de mundo às mentiras, distorções e meias-verdades cínicas que leem nas redes sociais. A histeria irresponsável parece ter capturado também aqueles dos quais se esperam equilíbrio e sobriedade na formação de opinião pública.
Quase todos aparentemente estão se deixando pautar pela gritaria que tão bem notabiliza essa forma de comunicação instantânea, que na prática dispensa a reflexão. Nas redes, mesmo bem preparados formadores de opinião vêm tomando como expressão da verdade tudo aquilo que para eles faz sentido, sem se perguntarem se, afinal, aquilo que se informa é um fato ou uma rematada mentira.
A verdade, portanto, vem perdendo importância até para quem vive dela. Um exemplo é a imprensa, que não raro repercute de maneira irrefletida os debates produzidos a partir de informações distorcidas ou simplesmente falsas. É natural que, algumas vezes, as publicações, no afã de registrar tudo o que pareça ter caráter noticioso, acabem por dar guarida a versões dos fatos que, com o tempo, se provam mentirosas.
O que tem acontecido, porém, é que os fatos se tornaram quase irreconhecíveis ante as certezas ideológicas alimentadas pela acachapante onipresença das redes sociais na vida de quase todos os brasileiros. Num cenário desses, todo aquele que ousar questionar as convicções cristalizadas de parte a parte, mesmo munido de fatos incontestáveis e de argumentos racionais – ou até por causa disso –, será tratado como um ser exótico, uma espécie de rebelde deslocado no mundo dos que, orgulhosamente, se julgam do “lado certo”.
Assim, a influência das redes sociais, que é inegavelmente grande, tornou-se uma explicação mágica para tudo – e para muita gente supostamente bem pensante nada do que acontece fora delas parece ter valor. Com toda essa suposta capacidade, quase sobrenatural, de entronizar e decapitar reis, as redes sociais tornaram-se uma espécie de fetiche dos formadores de opinião, que há algum tempo veem nelas a grande arena onde se disputa o poder de determinar o que é a verdade.
As redes sociais, até onde é possível concluir, são o lugar onde narrativas se chocam não em busca do esclarecimento, como acontece em sociedades maduras, mas para fazer triunfar a mistificação que favoreça este ou aquele ponto de vista, e onde o consenso só ocorre entre os que já estão de acordo entre si, por razões ideológicas.
É claro que nada do que deriva desse ambiente de franca hostilidade pode ser tomado como base para orientar políticas públicas e muito menos para consolidar as opiniões a partir das quais a sociedade se posiciona acerca dos grandes problemas nacionais. Ao contrário, o debate nacional naturalmente descamba para o terreno da ficção, quando não para o da mais vulgar briga de rua, na qual tem razão aquele que termina a refrega em pé.
No livro O Jornalismo como Gênero Literário, Alceu Amoroso Lima diz que o jornalismo, sempre que “envenena a opinião pública, fanatiza-a ou a informa mal, está falhando à sua finalidade”. O autor, que escreveu em 1958, decerto não imaginava a revolução da comunicação digital que ora se atravessa, mas o princípio ali exposto está mais atual do que nunca.
O jornalismo que se deixa submeter à balbúrdia irracional das redes sociais não cumpre sua função, que é a de dar aos cidadãos condições de refletir de maneira efetiva sobre o mundo que os cerca e sobre os problemas que os afetam. Ao contrário, os formadores de opinião que tomam como legítima e digna de consideração a gritaria dos fanáticos, conferindo-lhe ares de autenticidade, estimulam a consolidação do facciosismo que, no limite, inviabiliza os consensos, sem os quais a democracia simplesmente não se realiza.
Eliane Brum
Quando a política demanda adesão pela fé, é preciso ter muito cuidado. Os partidos que estão aí, puxando para um ou outro credo, podem acreditar que lhes é favorável ter uma população de crentes legitimando seus projetos de poder. Mas a adoração, rapidamente, pode se deslocar para outro lugar. Ou pior, para um ídolo de barro qualquer. Rebaixar a política nunca é uma boa ideia para o futuro. Quem acha que controla crentes, com suas espirais de amor e de ódio, não aprendeu com a história nem entende o demasiado humano das massas que gritam.
A adesão pela fé, manifeste-se ela pelo ódio ou pelo amor, elimina complexidade e nuances, reduz tudo a uma luta do bem contra o mal. E isso, pode ser perigoso.Uma democracia demanda cidadãos autônomos, adultos emancipados, capazes de se responsabilizar pelas suas escolhas e se mover pela razão. O que se vê hoje é uma vontade de destruição que atravessa a sociedade e assinala mesmo pequenos atos do cotidiano. O linchamento, que marca a história do país e a perpassa, é um ato de fé. Não passa pela lei nem pela razão. Ao contrário, elimina-as, ao substituí-las pelo ódio. É o ódio que justifica a destruição daquele que naquele momento encarna o mal. Isso está sendo exercido no Brasil não apenas na guerra das redes sociais, mas de formas bem mais sofisticadas. Isso tem sido estimulado. Quem acha que controla linchadores, não sabe nada.
Talvez o mais importante, neste momento, seja resistir. Resistir a aderir pela fé ao que pertence ao mundo da política. Fincar-se na razão, no pensamento, no conhecimento que se revela pelo exercício persistente da dúvida. É mais difícil, é mais lento, é menos certo e sem garantias. Mas é o que pode permitir a construção de um projeto para o Brasil que não seja o da destruição. Quem sofre primeiro e sofre mais com a dissolução em curso são os mais pobres e os mais frágeis. É preciso resistir também como um imperativo ético.
A corrupção é uma bandeira conveniente para quem nada quer mudar mas precisa fazer de conta que quer. Ela sempre cabe, porque, ao mesmo tempo que é consenso – ou alguém vai se declarar a favor da corrupção? –, é difusa. Elege-se os corruptos a destruir, que viram bonecos, rostos a ser eliminados. E nada se muda da estrutura que provoca as desigualdades e permite a corrupção de fundo.
Quando o cenário desmorona e a vida é corroída no cotidiano, a vontade de acreditar aumenta. Quanto maior o falseamento e mais frágeis as verdades, maior a vontade de crença. Havia pelo menos uma condição que na ditadura era mais fácil, a de que ou se estava contra ela ou a favor. Era muito fácil saber quem eram os inimigos – e os que não eram inimigos eram amigos. A democracia complica as coisas ao aumentar as nuances.
Apesar de muito mais difícil, é bem melhor que as coisas sejam vistas como de fato são: complexas. Nostalgias do preto e branco podem ser perigosas, mais ainda num cérebro com vontade de crença. Diante da necessidade de se construir um novo projeto para o país, me parece necessário resistir à vontade de crença. Prefiro ser ateísta também na política.
Leonardo Sakamoto
Não existe posicionamento sem ideologia. Nossa ideologia vai conosco para toda parte. Essa matriz de interpretação do mundo que abraçamos, consciente ou inconscientemente, diz muito sobre como vemos os fatos e o que eles significam para nós e para os outros. Aliás, não há discurso mais ideológico do que aquele que diz que não possui ideologia. Ao tentar naturalizar relações sociais, culturais e econômicas como se fossem “naturais” ou “lógicas” ele está construindo, na verdade, uma complexa rede de estruturas.
Para que alguém continue ganhando e alguém continue perdendo. Para que todos achem isso normal. Ou, no limite, para que você seja tão bem doutrinado que se torne um cão de guarda daquele que te explora. Em tempos difíceis economicamente, saídas que rifam direitos dos mais pobres e preservam os dos mais ricos (que tal aumentar impostos e taxar dividendos?) são vendidas como a única alternativa para preservar a qualidade de vida de muitos. Quando elas, por sua própria natureza, significam a proteção de poucos.
Uma discussão ampla e que envolva todos ao invés de medidas tomadas de cima para baixo seria um ato sensato. Mas a sensatez anda sumida por aqui. Como bem disse Paulo Freire, todos são orientados por uma base ideológica. A discussão é se a sua é includente ou excludente. Mas se as pessoas que mais precisariam fazer essa reflexão chamam Paulo Freire de “lixo” e “burro”, será uma grande caminhada até que percebam o tamanho da corrente que prende seus pés.
Vera Magalhães
Leandro Karnal
O universo das redes sociais é constituído de átomos de veneno e moléculas de adjetivação. Palavras usadas em demasia costumam perder sentido prático. O insulto é sempre um espelho bizarro.
Rótulos escondem quase tudo e atendem a necessidades de simplificação rasteira, especialmente em ambientes superficiais e regados a sangue e bílis como redes sociais. O que significa ser conservador? Parto das ideias de Edmund Burke. No fim do século 18, o irlandês desconfiava de processos de mudança brusca na França. A primeira característica dos conservadores passa a ser a desconfiança de quebras repentinas da tradição. Para Burke, o presente é um compromisso entre dois mundos: o que nos antecedeu e o futuro. Rupturas como a Revolução Francesa ou a Russa (1917) causam mais danos do que avanços.
O conservador, inspirado em Burke, desconfia da perfectibilidade humana, ou seja, de que estejamos fadados à perfeição. Acima de tudo, o conservador clássico desconfia do Estado como elemento de resolução dos problemas.
Dependendo de onde está quem escreve, sua opção política pode ser descrita com nomes distintos. Liberal, por aqui, é signo aberto. Nos EUA, republicanos nasceram ligados a profissionais liberais e eram pró-livre iniciativa. Seus radicais defenderam o fim da escravidão antes da Guerra da Secessão, e a integração irrestrita dos negros à cidadania americana no pós-guerra. Criaram cotas, associações de reparação e leis que favoreceram por alguns anos a ascensão dos ex-escravos à condição de proprietários e eleitores/eleitos. Hoje, ser republicano parece ser desconfiar de todos esses princípios.
Os democratas nasceram ligados às elites agrárias sulistas. O panorama muda na Grande Depressão dos anos 1930. O laissez-faire de Hoover deu lugar ao New Deal e ao Welfare State de Roosevelt/Truman. Democratas passaram a simbolizar o trabalhador mais simples e as minorias.
Hoje, nos EUA, se dizer um "liberal" é se afirmar como alguém de esquerda, pois se exige Estado presente, provendo serviços aos cidadãos, direitos às minorias etc. No Brasil, ambos os lados da política majoritária americana (e suas muitas divisões internas) estariam classificados como centro (numa lógica de socialdemocracia) ou direita.
Na Europa, muitos conservadores clássicos adotam posturas que aqui seriam denominadas como "liberais" ou de "esquerda". Na França, o líder da campanha da extrema-direita de Le Pen, Florian Philippot, passeava feliz de mãos dadas com seu namorado Pim Fortuyn, conservador nacionalista holandês, inimigo da imigração islâmica. Era gay. Foi assassinado por um militante defensor dos animais. Para muitos como eles, o conservadorismo era o respeito a sua orientação sexual, já que não caberia ao Estado dizer o que ele deve ser, especialmente no que toca a questões pessoais que em nada afetam as alheias. O modelo "liberal na economia e conservador nos costumes" não é único, mas é mais próximo das jabuticabas tupiniquins do que das tulipas de clima temperado.
Diferentemente de tudo isso, surge o reacionário. Ele idealiza um passado glorioso onde as famílias eram sólidas e perfeitas, a religião dominava, o Estado era eficaz e nunca corrupto e todos andavam felizes nas ruas. O reacionário quer restaurar esse passado mítico reprimindo o que ele considera modernidades inaceitáveis. Um exemplo histórico seria o conde Joseph-Marie De Maistre (1753-1821). O problema do reacionário é que ele parte do mesmo equívoco de alguns revolucionários autoritários. Um clássico membro do Exército Vermelho, por exemplo, durante a Revolução Cultural Chinesa (uma lavagem cerebral somada a genocídio), estava disposto a destruir tudo o que existia para construir uma nova ordem gloriosa. Um clássico reacionário também quer barrar tudo para que se restaure uma ordem perfeita que sua avó inventava da cadeira de balanço minutos antes de abandonar a lucidez de forma definitiva.
Há dezenas de outras posições políticas possíveis, da socialdemocracia, passando pelos "verdes", até o anarcocapitalismo. O espectro político plural permite muitas coisas, menos o ataque ao Estado Democrático de Direito e aos princípios contidos no artigo 5º da nossa Constituição. Se você nega o artigo quinto (combate ao racismo, igualdade diante da lei, criminalização da tortura etc.), você não é de direita ou de esquerda, você é apenas um canalha.
Mônica de Bolle
Nos últimos tempos, soubemos que o nazismo é de esquerda, o globalismo é vertente nefasta do marxismo cultural, ideologia é o que há de pior ainda que se confunda com ideias, e que a bela música Imagine de John Lennon é hino em prol da hiperglobalização, e do sonho comunista. Para os que dizem coisas como essas, privatizar é de direita, intervir no funcionamento dos mercados é de esquerda, priorizar o comércio internacional é de direita, combater a desigualdade de renda é de esquerda. Há apenas dois mundinhos: o da direita divina ou o da esquerda pagã. E, a política econômica, necessariamente, deve se enquadrar em algum desses mundinhos porque caso não o faça, não merece qualquer atenção – nem do bem, nem do mal.
Ocorre que, no Brasil, um governo social-democrata privatizou. Vários governos militares, que de esquerda nada tinham, intervieram no funcionamento dos mercados até não mais poder, causando os desarranjos que hoje muitos preferem esquecer. O comércio internacional sempre foi pauta tóxica que nem a direita, nem a esquerda quiseram abraçar. Afinal, o protecionismo sempre reinou absoluto no País tropical, abençoado por Deus, esse País em que dizer que Ele está acima de todos virou mote de campanha e de governo. O globalismo – Deus nos livre – torna o homem escravo e Deus irrelevante, avisam. Só não nos dizem exatamente como.
Tampouco nos iluminam sobre como o Brasil sairá do seu eterno isolamento global sem passar por algum processo que possa não ser identificado como globalização. A imigração é o mal do século, querem que acreditemos. Contudo, há estudo após estudo mostrando que políticas que facilitam a imigração são capazes de aumentar a produtividade e de impulsionar o crescimento. O espantalho da imigração simplesmente não existe no Brasil, onde quase não recebemos – mais – imigrantes. Os recebemos aos montes no passado, somos um País de imigrantes. Mas, é fácil esquecer disso na balbúrdia da atualidade.
Bernardo Mello Franco
Aos 10 anos de idade, o escritor Umberto Eco (1932-2016) ganhou seu primeiro concurso de redação. O tema tinha tudo a ver com aqueles tempos: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?”. O jovem estudante respondeu que sim. “Eu era um garoto esperto”, gracejou, décadas depois, em conferência na Universidade Columbia.
Eco cresceu numa pequena cidade da Lombardia. Alfabetizou-se sob o regime fascista e teve que decorar discursos do Duce na escola. Mais tarde, espantou-se com a euforia das festas pela Libertação. “A paz me deu uma sensação curiosa. Tinham me dito que a guerra permanente era a condição normal de um jovem italiano”, relembrou.
As memórias de infância ajudaram o escritor a decifrar o fascismo — o original, dos camisas negras, e seus filhotes modernos, que reaparecem “às vezes em trajes civis”. Ele batizou o fenômeno de “ur-fascismo”, ou “fascismo eterno”, e listou características que ajudam a identificá-lo: o nacionalismo agressivo, o ódio contra minorias, o machismo violento, a exaltação do líder, a obsessão por teorias conspiratórias. “Os seguidores têm que se sentir sitiados”, explicou.
O ur-fascismo execra os artistas, abomina os intelectuais e detesta os professores. Considera que as universidades “são um ninho de comunistas”. “Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas”, afirmou Eco.
O Congresso, onde se questiona o governo, também é visto como ameaça permanente. Afinal, só o líder é capaz de interpretar a vontade popular. “Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do Parlamento por não representar mais a voz do povo, pode-se sentir o cheiro de ur-fascismo”, alertou.
O fenômeno se alimenta do ressentimento. Promete o resgate das tradições e a volta a um passado idealizado, onde tudo estaria sob controle. “Isso explica por que uma das características típicas dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política”, escreveu.
Hélio Schwartsman
Na batalha pelo voto evangélico, bem, mal, anjos e demônios têm sido invocados. Religião e política compõem um coquetel complexo, por vezes explosivo. Ainda assim, são, na democracia, indissociáveis um do outro. E é uma relação bem assimétrica.
No cômputo geral, a democracia faz mais bem do que mal às religiões, especialmente àquelas que são minoritárias. É só quando a liberdade de culto, uma das marcas registradas do Estado democrático, está assegurada que as fés não dominantes têm condições de prosperar. Os efeitos da religião sobre a democracia são mais problemáticos.
Religiões operam com absolutos morais, como as noções de pecado e recompensa ou castigo eternos. Os mandamentos divinos vêm, por exemplo, na forma de imperativos singulares, cada um deles inviolável, não de um plano de metas do qual tenhamos de cumprir 70% ou 80%. Ao pautar a política por uma lógica espiritual, o discurso religioso estimula as pessoas a tratar as questões que envolvem costumes de forma dogmática ou maniqueísta, o que constitui uma espécie de negação da própria política.
Enquanto uma lei positiva se justifica por sua racionalidade, comporta gradações e pode ser objeto de negociação, o pecado, por ter sido definido por uma autoridade incontestável, vem na forma de pacotes fechados. E, vale lembrar, negociações que levem a acordos e compromissos são o feijão com arroz da política nas democracias.
Não sou muito otimista quanto à possibilidade de solução estável. O problema de base é que não dá para tirar a religião da equação. Na democracia, clérigos são livres para pregar o que bem desejarem, e eleitores só devem satisfações do voto a suas consciências. Na verdade, seria impossível pedir às pessoas que não levem em conta seus valores, muitas vezes amparados em ensinamentos teológicos, na hora de fazer suas escolhas.
A religião é uma assombração que não conseguiremos exorcizar.
Roberto Damatta
Um dos mistérios das sociedades humanas é a constatação de como os seus membros são (e estão) convencidos de que suas crenças, gestos, comidas, rituais, utopias, ideologias (e tudo o mais que denominamos “estilo de vida”) são óbvios, virtuosos, legais e religiosamente certos. O deles é fantasioso. Mas o nosso é mais do que verdadeiro - é real. Além disso, é espantoso descobrir que toda essa tonelagem de valores é invisível aos seus membros. O crente não tem consciência da sua crença.
O feitiço é tão grande a ponto de pensarmos que falamos uma língua quando é a língua que nos fala. E só tomamos consciência disso quando nos confrontamos com a aparente algaravia de um outro idioma. O encontro com o outro obriga a perceber a diferença e a diferença é o limite que condena a traduzir e a tentar compreender. Para o portador da boa-nova e para o crente, o extraordinário é descobrir o tamanho do batalhão de outros crentes que, com crenças diferentes das suas, também formam a humanidade. Esse foi o susto desagradável que a antropologia social deu no eurocentrismo.
A tolerância é um hóspede não convidado de um mundo que confunde tecnocracia com sabedoria. A diversidade agencia dúvidas, conduz a escolhas e engendra o inimigo capital dos crentes: a liberdade, o ceticismo e o inesperado abraço da compreensão. O caminho da transcendência anunciada por alguns santos, poetas e filósofos. Mesmo quando o crente conhece outras crenças, ele não as percebe como alternativas, mas as encara dentro de uma matriz que vai do infantil e do eventualmente divertido até chegar ao “esquisito”. Daí para o errado, o proibido, o censurável, o louco e o abominável, é um passo.
Mas como toda rigidez contém o seu contrário, só a crença produz descrença. E, assim, toma o infiel como desafiador - o outro absoluto -, como forte ou superior justo porque ele resiste. A religião abolida torna-se feitiçaria; a ideologia reprimida vira virtude, a música censurada é a mais ouvida. E o estrangeiro branquela e louro, engalanado por sotaques, é tido como mais civilizado; enquanto o nosso familiar universo misturado é apresentado como doente e atrasado. Para o nosso lado permanentemente colonizado, os estrangeiros brancos - os “de fora” - sempre foram superiores. Eles contrastam com os negros africanos e os nativos que, no Brasil, constituem uma ficção chamada de “povo”.
Na nossa mitologia, cada qual tem uma cota de poder. Mas nenhuma atinge o ideal atribuído aos “brancos”, que reiteram o paradigma clássico segundo o qual o herói civilizador é um superestrangeiro. Só que eles não vieram do céu, como os deuses, mas nos “descobriram”. Assim, imperadores e imperatrizes austríacas que falavam com sotaque, mandavam na multidão de mestiços e negros dominados por costumes tidos como exóticos e atrasados. De um lado, a Corte; do outro, o Brasil... O modelo de cima e de fora proibia o de dentro, lido como inferior e doente. Aceitamos costumes de fora tanto quanto ignoramos as nossas práticas cotidianas. Tudo o que é de fora é “legal”. Tudo o que é de dentro é visto como “tupiniquim” - como atraso. Daí resulta essa imensa segmentação entre a máquina administrativa, com seus formalismos supostamente civilizados, e o Estado e a sociedade feitos de jeitinhos nos quais se concretiza o mal-estar de uma indisfarçável ilegalidade recorrentemente produzida.
Ilegalidade que cresce na medida em que recusamos levar a sério hábitos e estilos de vida e inventamos leis que não podem pegar. De fato, que fazer quando o compadrio e o parentesco puxam para a nomeação do sobrinho, contrariando a regra que criminaliza o nepotismo costumeiro? O administrador público segue a lei até ser capturado pela força das crenças embutidas nos costumes. Achar que costumes mudam com leis é uma crença que, como diz Gilberto Freyre, promove enormes mudanças formais, mas deixa intocados costumes e crenças para os quais essas mudanças foram dirigidas.
Mudamos as leis, mas não preparamos a sociedade para as mudanças por elas requeridas. Seria muito melhor diminuir o fervor legalista para dar mais atenção às demandas dos costumes. Pois a sua força só será domesticada quando eles forem reconhecidos, compreendidos e, na medida do bom senso, atendidos. Enquanto isso não for realizado, vamos continuar a ter Estado e sociedade como inimigos. Cada qual cavando a sepultura do outro como é o caso dessa crise interminável na qual as demandas da amizade se confundem com as responsabilidades dos cargos e poderes.
Joel Pinheiro da Fonseca
Os rótulos estão em alta; o pensamento em baixa, todo mundo quer um cercadinho ideológico para chamar de seu. Nesse pacote, você ganha algumas opiniões prontas, palavras de ordem e inimigos determinados. Melhor de tudo: de agora em diante, para criticar alguma posição ou pessoa, não é preciso argumentar; basta atribuir a ela o rótulo contrário.
O rótulo como manobra de desqualificação é um sintoma de nossa preguiça intelectual. O uso de rótulos em si, contudo, é uma necessidade do intelecto: não temos como lidar com todos os detalhes e pequenas variações que o mundo nos apresenta. Por isso agrupamos fenômenos similares sob um mesmo nome. A maneira como eu encaro os problemas da sociedade e suas soluções pode não ser idêntica à sua, mas se partilharmos de algumas premissas importantes e buscarmos soluções pelos mesmos caminhos, dá para nos agrupar na mesma classificação.
Ao fazê-lo, contudo, colocamos em andamento um processo que não é puramente intelectual, mas também social. Ao atribuir a nós mesmos um rótulo ideológico, passamos a nos ver como parte de um time ou tribo. E estamos cercados de tribos rivais. Se perdermos, nossa existência está em jogo. Nesta chave, o conteúdo específico das ideias torna-se irrelevante perto de seu papel como símbolos identitários, afirmações da nossa existência e de nosso poder.
Quando o pensamento político se torna ferramenta para arregimentar seguidores, ele deixa de lado a função que esperamos dele: descobrir o melhor jeito de organizar a sociedade, buscando algo como um bem comum que vá além do interesse imediato de alguma tribo.
Pensar apenas no bem comum e na elaboração intelectual de propostas, sem estratégia ou pragmatismo, é se lançar na irrelevância; viver no mundo dos sonhos e ainda ser usado por oportunistas em busca de uma justificativa teórica para disfarçar seu projeto amoral de poder. Aderir, por outro lado, à lógica da guerra tribal irrestrita é contribuir para a degeneração da ordem política, caminhando em última análise para a tirania.
Leonardo Sakamoto
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