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Paulo Nogueira

 A filosofia existe para que as pessoas possam viver melhor. Lidar melhor com as adversidades. Enfrentar serenamente o “perpétuo vai-e-vem de elevações e quedas”, para citar uma grande frase de um filósofo da Antiguidade. Todos os grandes pensadores sublinharam esse ponto. A filosofia que não é útil na vida prática pode ser jogada no lixo.


     Um aristocrata romano chamado Boécio (480-524) era rico, influente, poderoso. Era dono de uma inteligência colossal: traduziu para o latim toda a obra de Aristóteles e Platão. Tudo ia bem. Até o dia em que foi acusado de traição pelo imperador e condenado à morte. Foi torturado. Recebeu a marca dos condenados à morte de então: a letra grega Theta queimada na carne. Boécio recorreu à filosofia, em que era mestre, para enfrentar o suplício. Entre a sentença e a morte, escreveu em condições precárias um livro que se tornaria um clássico da literatura ocidental: A Consolação da Filosofia.
A filosofia consola, mostrou em situação extrema Boécio. E ensina. E inspira. Considere Demócrito, pensador grego do século 5 a.C. Ele escreveu um livro chamado Sobre o Prazer. Primeira frase do livro: “Ocupe-se de pouco para ser feliz”. A recomendação básica de Demócrito, sob diferentes enunciados, é encontrada em muitos outros filósofos.

     Fazemos muitas coisas desnecessárias. Coloque num papel as atividades de um dia. Depois veja o que realmente era preciso fazer e o que não era. A lista das inutilidades suplanta quase sempre a das ações imperiosas. O imperador filósofo romano Marco Aurélio, do começo da Era Cristã, louvou a frase de Demócrito em suas clássicas Meditações. Acrescentou que devemos evitar não apenas os gestos inúteis, mas também os pensamentos desnecessários. Marco Aurélio recomendava o formidável exercício de conduzir a mente, quando agitada, para pensamentos aquietadores. Isso conseguido, controlamos a mente, esse cavalo selvagem, em vez de sermos controlados por ela.

Dráuzio Varella

 Gostemos ou não, o direito de dar cabo à própria existência é inalienável. A sociedade e as religiões podem criar regras, leis e princípios morais para condenar o suicídio, porém jamais conseguirão evitá-lo.


A função do Estado é proteger o cidadão do mal que terceiros possam causar a ele, não a de impedir os males que ele pode infligir a si mesmo. Fosse essa a pretensão, haveríamos de acabar com os medicamentos, vedar janelas, terraços de prédios, viadutos, destruir as armas e os objetos cortantes, entre outros cuidados tão inexequíveis quanto inúteis.

O apego à vida tem raízes evolutivas: na seleção natural levaram vantagens reprodutivas aqueles capazes de lutar para preservá-la; os desapegados não deixaram descendentes. É consequência desse longo processo seletivo, só nos entregarmos aos braços da terrível senhora exauridas as últimas forças.

O suicídio nos choca porque vai contra o instinto de defesa, essencial à preservação da espécie. Apesar de imaginarmos que deve ser desesperador o sofrimento por trás do ato tresloucado, o suicida desperta emoções contraditórias: compaixão, incriminação, culpa, desprezo.

Em 50 anos de oncologia, perdi dois pacientes por suicídio.

A primeira foi uma senhora de 60 anos, com histórico de várias internações psiquiátricas por depressão, que se atirou do sétimo andar, justamente no dia em que recebeu alta do tratamento quimioterápico.

O segundo era um homem HIV-positivo sem nenhuma das manifestações da Aids, que se trancou na cozinha com o gás do fogão, dois meses depois da morte do companheiro com quem vivera quase 40 anos.

Apenas dois casos ocorridos entre milhares de doentes com câncer que tratei me levaram a concluir que não vêm do corpo, mas dos padecimentos da alma, as motivações para o suicídio.

A tecnologia e os recursos terapêuticos à disposição da medicina moderna criaram os meios para que os limites da vida sejam alargados muito além do razoável. Quantas vezes me deparei com a dúvida: o que acabo de prescrever vai prolongar a vida ou o calvário dessa pessoa?

Na realidade, nem a sociedade nem nós, profissionais, estamos preparados para nos rendermos ao fato de que o corpo pode se tornar um fardo irreversivelmente insuportável, incapaz de oferecer o prazer mais insignificante, eventualidade em que a morte deveria ser entendida como desenlace natural.

Nessas circunstâncias, seria preciso colocar os doentes a par da gravidade e da irreversibilidade da doença, de modo que pudessem tomar a decisão informada de abreviar ou não a duração dos dias finais. Faltam as leis, mas não os meios necessários para lhes proporcionar o final digno que todos desejamos para nós mesmos.

Mais controvertidos, no entanto, são os casos daqueles que perderam a cognição. A longevidade atual vem acompanhada do aumento da prevalência de quadros demenciais; encontrar alguém que não tenha um parente desmemoriado, incapaz de executar tarefas mínimas, é privilégio de poucos.

Mulheres e homens com Alzheimer e demais demências nos estágios em que a memória se extinguiu – e, com ela, a condição humana -, perderam a autonomia inclusive para dar fim aos suplícios que os atormentam.

Você, que morre de medo de chegar à velhice como um corpo inerte alimentado por sonda, sem reconhecer os entes mais queridos, os profissionais que lhe manipulam as partes íntimas, nem compreender por que lhe trocam as fraldas, não acha que a visita repentina da mais indesejável das criaturas viria como bênção?

Fiz um trato com dois colegas mais novos, de que eles me darão morte digna e rápida, caso eu venha a perder a capacidade cognitiva para entender quem sou. Acho que eles cumprirão o combinado. Você, não gostaria de ter esse direito de escolha?

A faixa da população brasileira que mais cresce é a que passou dos 60 anos. A legião de pessoas alienadas do mundo que as cerca, aumenta a cada dia. Todos querem viver muitas décadas, mas não a qualquer preço. A sociedade precisa trazer o suicídio assistido à discussão, sem ideias preconcebidas.

Embora não seja fácil, é possível definir critérios técnicos que sirvam de base para criar leis, a partir das quais seja viável decidir enquanto temos saúde, em que eventualidades uma injeção letal ou outro procedimento ponha fim às nossas agruras.

Reinaldo José Lopes

 Tá puxado, como diz o vulgo. Será que dá para fazer alguma coisa contra esse tsunami de bobagens que insiste em nos afogar?


Bem que eu queria estufar o peito e proclamar que o jornalismo científico de qualidade é capaz de levar luz às massas, por meio da informação equilibrada e apoiada por argumentos racionais. Ia ser lindo se isso funcionasse, mas há boas razões para acreditar que esse tipo de abordagem só consegue alterar o que se passa dentro da cachola de uma parcela ínfima das pessoas.

Isso significa que combater o bom combate em defesa dos dados científicos é perda de tempo? Eu não iria tão longe (até porque, se isso estivesse demonstrado cabalmente, já estaria pulando do alto do viaduto mais próximo), mas a gente tem de saber exatamente o tamanho do monstro que está enfrentando antes de sacar a espada –e o ogro em questão é imenso, não dá para negar.

Aliás, ogro não, ogros –como os demônios, o nome deles é Legião. Ou, se você quiser algo menos poético, pode chamá-los de vieses cognitivos humanos. Todos nós, em maior ou menor grau, somos portadores dessas distorções sistemáticas de raciocínio, que são uma porcaria se a sua intenção é buscar a verdade de modo objetivo, mas serviram bastante bem aos nossos ancestrais (e ainda nos servem) na hora de fazer o serviço pesado da sobrevivência num mundo complicado e imprevisível.

Temos o nosso querido viés de confirmação, que nos faz ver só os fatos que confirmam o que já achávamos desde o início, em vez de levar em conta dados que desafiam nossas crenças; o chamado reforço comunal, no qual ideias improváveis (ou mesmo absolutamente ridículas) parecem mais atraentes quando são adotadas por um grupo coeso (algo que as bolhas de "amigos" das redes sociais reforçam com facilidade); e a simples tendência, demasiado humana, de achar padrões lógicos conectando eventos, mesmo quando tais padrões só existem na cabeça do sujeito.

Calma, a coisa fica ainda pior. Uma coisa que tem ficado cada vez mais clara em estudos recentes sobre comunicação científica é a existência do chamado "backfire effect" (algo como "efeito culatra" –é, eu sei, fica meio pornográfico em português). Em suma, quanto mais dados bem fundamentados você tenta jogar nas fuças do cidadão para ver se ele enxerga que está errado, mais fundo ele se entrincheira na sua posição estapafúrdia.

Em muitos casos, quanto mais a pessoa sabe sobre um assunto, maior a sua dificuldade de mudar de opinião quando confrontada com informações relevantes –e, claro, deveria ser o contrário.

Está na hora, portanto, de abandonar ilusões sobre o poder da argumentação racional. Caçoar de adeptos de ideias malucas é fácil, mas contraproducente. Se não buscar caminhos para atingir o íntimo das pessoas, seus sonhos e suas aspirações, a ciência corre o risco de ficar falando sozinha.

Paulo Nogueira

Uma das questões presentes desde sempre para a humanidade é a seguinte: como se expressar? Muitos sábios se detiveram nesse tema. Quase todos condenaram a eloquência desmedida, a suntuosidade verbal. A opção é pela simplicidade e pela brevidade. “A verdade precisa falar uma linguagem simples, sem artifícios”, escreveu um filósofo da Antiguidade. O filósofo francês Montaigne, do século XVI, dedicou linhas brilhantes ao assunto em seus Ensaios. Montaigne conta duas histórias instrutivas e divertidas. Numa delas, os embaixadores de uma cidade grega tentavam convencer o rei de Esparta a aderir a um esforço de guerra. O espartano deixou-os falar longamente. Depois disse: “Não me lembro do começo nem do meio da argumentação de vocês. Quanto à conclusão, simplesmente não me interessa”. Na outra história, dois arquitetos atenienses disputavam a honra de construir um grande edifício. A platéia à qual cabia a escolha ouviu um extenso discurso do primeiro arquiteto. As pessoas já se inclinavam por ele quando o segundo disse apenas: “Senhores atenienses, o que este acaba de dizer eu vou fazer”. Montaigne cita seu pensador predileto, o romano Sêneca, segundo o qual nos grandes arroubos da eloquência há “mais ruído que sentido”. Escreveu Montaigne: “Gosto de uma linguagem simples e pura, a escrita como a falada, e suculenta, e nervosa, breve e concisa, não delicada e louçã, mas veemente e brusca.” Os espartanos eram admirados por Montaigne pela simplicidade com que viviam e se expressavam. Ele conta que uma vez perguntaram a uma autoridade de Esparta por que não colocavam por escrito as regras da valentia para que os jovens pudessem lê-las. A resposta foi que os espartanos queriam acostumar seus jovens antes aos feitos que às palavras. “O mundo é apenas tagarelice e nunca vi homem que não dissesse antes mais do que menos do que devia”, disse Montaigne. Outro mestre de Montaigne, Plutarco, autor de Vidas Paralelas, mostrou que falar demais pode ser perigoso. “A palavra expõe-nos, como nos ensina o divino Platão, aos mais pesados castigos que deuses e homens podem infligir”, disse Plutarco. “Mas o silêncio jamais tem contas a dar. Não só não causa sede como confere um traço de nobreza.” Mark Twain defendeu a mesma coisa de uma forma divertida. “Melhor ficar quieto e deixar que os outros achem você um idiota do que falar e confirmar.”

Juremir Machado da Silva

   Ser feliz, como diz a música de Kleiton e Kledir, é tudo o que se quer. Os filósofos, ao longo dos séculos, antes de serem esterilizados por normas acadêmicas e obrigações de produtividade quantitativa, tratavam era disso, do bem-viver, do belo, do bem, do verdadeiro, da felicidade, do cotidiano, dos dilemas éticos e morais. Ser feliz já foi utopia. Tornou-se meta. Virou obsessão. A felicidade pode doer. Onde ela está? No conhecimento? No ser? No ter? No parecer? Na religião? Na liberdade? Na realização ou na negação dos desejos? No autocontrole? No pensamento positivo? Na autoconfiança? Como alcançá-la? De que é feita? Qual o seu tempo de duração? Pode-se ser feliz sempre? Qual o preço da felicidade?

  Ousemos: o principal tema da filosofia é a felicidade. Kant perguntou: o que podemos saber? O que devemos fazer? O que temos direito de esperar? O que é o homem? Cabe acrescentar: o que é a felicidade? Nenhuma questão é tão importante atualmente quanto essa. A vida é curta. Mas, na infelicidade, pode ser longa. O que podemos saber sobre a felicidade? O que devemos fazer pela felicidade? O que temos direito de esperar em termos de felicidade? O que é o homem feliz? Uma filosofia digna desse nome deve se impor a questão da felicidade como uma ética. A história da humanidade tem sido a história da luta entre duas classes antagônicas e complementares, a dos felizes e a dos infelizes. Podemos sonhar com a utopia de uma sociedade com felicidade para todos em algum momento? Na maior parte do tempo? Quais podem ser os obstáculos à felicidade geral? A doença? A morte? O amor não correspondido? A dor?

  A sociedade de consumo tem oferecido a compra e posse de objetos e de bens imateriais como parâmetro de felicidade. Ser feliz seria consumir o máximo possível. Basta? Funciona? Até que ponto? O produtivismo exige consumidores insaciáveis. A engrenagem não pode parar. E se a felicidade estiver, em algum momento, em ter menos? Em retornar para a natureza, para a família, para o local, para o simples? Você abriria mão de que para ser feliz? Se eu fosse filósofo, pautaria o meu pensamento por três eixos clássicos: como sei que sei? Como provo que provo? Como posso ser feliz? Nenhuma questão é tão importante quanto a da felicidade. É possível ser feliz? É uma ilusão? A felicidade pode conviver com a infelicidade? Chega de preconceito: pensar a felicidade é uma questão filosófica maior.

Mário Sérgio Conti

 Um subproduto da infindável crise nacional é o mau humor. Ele ficou unânime. O Brasil outrora engraçado é agora movido a azedume. A faísca espirituosa, que iluminava falácias e liberava o riso, deu lugar ao rancor. A ironia política entrou em pane.

O conceito de ironia foi desenvolvido por Sócrates, que dizia o contrário daquilo que achava verdadeiro. Quando lhe perguntaram quem era o homem mais sábio da Grécia, respondeu: "Só sei que nada sei". Irônico, o sabe-tudo se disse um ignorante total.
A ironia causa problemas. Sócrates a usava para fazer perguntas e chegar à verdade. Com as suas indagações, o filósofo sabotava as certezas do interlocutor, que ficava espiritualmente livre para aceitar o inesperado, o verdadeiro.
Num mundo racional, os atenienses deveriam agradecer as ironias do pensador, que os conduzia à verdade. No mundo real, eles ficavam uma arara porque Sócrates os ridicularizava.
Para piorar, o filósofo tinha os olhos arregalados de um boi. Vestia togas desalinhadas. Chegava atrasado às festas nas quais era o convidado principal. Aristófanes espalhou que Sócrates era um chato.
Kierkegaard observou que, transformada em método, a ironia alcança tudo e todos. Sem limites, ela faz com que a própria realidade oscile. A existência se torna estranha ao sujeito irônico, e este se torna estranho à existência. Realidade e linguagem entram em descompasso.
Por exemplo: muitos atenienses passaram a achar que, com o seu só-sei-que-nada-sei, Sócrates simulava humildade; dava uma de sábio, mas sofismava. Sem se dar conta da realidade (a irritação crescente), o pensador insistiu na sua retórica (irônica). Acabou condenado por corrupção e bebeu cicuta.

Paulo Nogueira

 Heráclito e Demócrito

      Heráclito e Demócrito foram dois grandes filósofos gregos da Antiguidade.
      Diante da miséria humana, Heráclito chorava. Demócrito ria.

 No correr dos dias nós vemos uma série infinita de absurdos e de patifarias. Alguém a quem você fez bem retribui com ódio. A inveja parece onipresente. Você tropeça e percebe a alegria mal disfarçada dos inimigos e até de amigos. A hipocrisia é dominante. As decepções se acumulam. Até seu cachorro se mostrou menos confiável do que você imaginava.

       Em suma, a vida como ela é.

 Diante de tudo isso, as alternativas estão basicamente representadas nas atitudes opostas de Heráclito e Demócrito. Você pode chorar. E dedicar o resto de seus dias a movimentos que alternam gemidos de autopiedade e consumo de antidepressivos de última geração.

       Ou então você pode rir.

 Sêneca comparou a atitude de Heráclito e Demócrito para fazer seu ponto: ria das coisas, em vez de chorar.

Leandro Karnal

 Acho estranha a palavra ateu. Ela deriva do grego e significa a negação de Deus ("a" significa negação e "theos" deus). Como toda definição, ela fala mais dos valores da pessoa que a utiliza do que sobre o alvo do termo. Seria como definir a mim, Leandro, como não asiático ou não peixe. Conhecer pela negação é problemático.


     A concepção de Deus responde a quase tudo. As perguntas encontram resposta para o crente: origem das coisas, sentido da vida, moral, etc. Deus é a hipertrofia da racionalidade, porque tudo se torna lógico com Ele. Mesmo não construindo um campo empírico irrefutável, o religioso pode responder a quaisquer desafios. O crente sabe sobre a origem das coisas (teogonia) e questões do bem e do mal (teodiceia). No campo religioso, há resposta para uma inocente criança natimorta e para um vilão nonagenário atuante. Uma mulher extraordinária como dona Zilda Arns morre em um terremoto? Há explicação. Um político corrupto recupera-se de um câncer? Também encontramos na fé a elucidação do enigma ou o reconhecimento de caminhos insondáveis para mim e acessíveis ao Ser Supremo.

     Um ateu tem menos respostas do que um religioso. Porém, ao eliminar a hipótese Deus, ele comete mais do que uma restrição metodológica. A voz que nega a existência de divindade(s) é lida como negadora de todo o fundamento moral e social. O edifício social cimenta-se com crenças e Deus é o fiador do sistema.

     Protágoras de Abdera, famoso filósofo grego clássico, sofreu um processo em plena guerra do Peloponeso. Seu tratado Sobre os Deuses afirma que "não posso saber se existem ou não". A dúvida de Protágoras nasce de duas posições. A primeira é sofista: relativização das verdades absolutas. A segunda é seu antropocentrismo radical: o homem é a medida de todas as coisas. O ceticismo de Protágoras é muito mais agnóstico do que ateu. Ele duvida se podemos saber algo sobre os deuses, não exatamente a negação da existência deles.

     As ideias de Protágoras não eram uma novidade na Atenas do quinto século antes da era cristã. A novidade é a perseguição: seus livros foram queimados e ele foi expulso da cidade. O Estado começava a alcançar quem duvidava dos deuses oficiais. Similar e contemporâneo foi o processo contra Anaxágoras de Clazômena (foi professor de Péricles) que buscava causas naturais para os fenômenos como terremotos e raios. Não sabemos ao certo se ele foi morto, preso ou exilado. A democrática cidade-Estado se abalava com ideias de agnosticismo ou ateísmo. O grande Sócrates viveria também a acusação de impiedade.

     A vitória do Cristianismo na Europa Ocidental fez um refluxo do ateísmo ou do seu registro. Multiplicam-se anticlericais ao longo do milênio seguinte, escasseiam ateus e agnósticos. Muita gente não gosta de padres, freiras ou da instituição Igreja. Poucos, quase ninguém, duvidam da existência de Deus. Na verdade a acusação de hereges é sempre que a instituição da Igreja Católica não corresponde ao verdadeiro propósito divino. A heresia, como a dos cátaros ou valdenses, quase sempre, é um reforço da crença em Deus e acusação contra o abandono do divino pelo papado ou seus representantes.

     Lucien Febvre, em uma obra clássica sobre a descrença e a obra de Rabelais, afirmava que era quase impossível existir um ateu até o Renascimento, porque não havia nem palavras ou estruturas mentais para comportar a negação de Deus. Anos depois, essa tese caiu por terra, mas ainda é certo dizer que o ateísmo rareou muito até o século 16.

     Com o avançar da modernidade, emergem pensamentos claramente ateus, como o Barão D'Holbach e, posteriormente, o filósofo Ludwig Feuerbach. No sentido como o entendemos, o ateísmo é derivado do Iluminismo e do materialismo do século 19.

     Já abordei outras vezes o que pode levar alguém ao ateísmo, caso tenha crescido crente. Existem muitos tipos de ateus. Um abunda entre jovens: o negador de Deus que faz da ideia uma cruzada contra pais (religiosos) e instituições. O ataque é uma plataforma contra a autoridade. Há o ateu em relação que questiona o mal. Assim como a origem do universo é um argumento forte para religiosos, a presença do mal em um mundo no qual tudo foi criado por Deus e nada existe sem seu consentimento é um bom ponto para céticos da já citada Teodiceia. Partem do argumento do filósofo Epicuro: "Quer impedir o mal, mas não é capaz? Então ele é impotente. Ele é capaz, mas não está disposto? Então, ele é malévolo. Ele é capaz e disposto? Donde vem então o mal?".

     Há ateus da revolta. São os que pediram com intensidade pela cura de um filho, pelo fim de um problema grave e não alcançaram a graça. É uma revolta vingativa: Deus não me atendeu e eu me vingo dizendo que ele não existe.
O tipo mais complicado de ateu é o catequista, aquele que herdou o pior das religiões e fica agressivo pregando sua fé negativa.

     Escasseiam religiosos e ateus tranquilos. Tanto a fé como a negação dela são um guarda-chuva poderoso para dores variadas.

     Cresce, hoje, um pensamento chamado apateísmo, a indiferença em relação à religião. Não se trata de um ataque ou defesa de Deus, porém um afastamento da experiência religiosa. Funciona com o indivíduo pensando no sagrado como se pensa na política da Mongólia: existe, todavia tenho pouco interesse.

     Nunca associei ética à fé ou a sua ausência. Temos ateus e religiosos éticos, bem como violências ligadas aos dois campos. O complicado, ultimamente, não é crer ou não crer em Deus. O difícil é crer no homem. É árduo acreditar em si.

Luiz Felipe Pondé

 Nem o Satanás está a salvo. Coitado. Antes de tudo, vamos esclarecer que estamos diante de um personagem. Assim creio. Construído ao longo da história ocidental a partir de restos daqui e dali, o Satanás acabou por se constituir na figura que povoa a imaginação de muitos, chegando mesmo a quase merecer um Oscar.

Já no relato do Gênesis, o personagem aparece tentando Eva, provavelmente, uma gostosa (única hipótese possível sobre Eva, pois, fosse ela feia, Adão teria dado ouvidos a Deus). A partir daí, ele enlouquece homens e mulheres, os deixando furiosos em busca da realização de seus desejos mais obscuros e violentos.

Sua crueldade era tal que sua representação era quase sempre a de um deformado, deformando corpos e almas para a eternidade, sendo o inferno seu lar. O medo do inferno formou inúmeras grandes almas ao longo da história. Alguns de nós chega mesmo a acreditar que talvez Deus não exista, mas o Satanás sim, devido à simetria moral entre o dito personagem e o estado do mundo em que vivemos.

Juremir Machado da Silva

  O francês Blaise Pascal, nascido na cidade de Clermond-Ferrand, em 1623, viveu muito ou viveu pouco? Ele morreu aos 39 anos de idade. A expectativa média de vida masculina na sua época era de 26 anos. Como se vê, cada tempo com o seu metro. Pascal tinha uma convicção mais forte do que todas: nós, humanos, não suportamos a solidão, o repouso e o tédio. Em termos claros e válidos até hoje, ficamos loucos de pedra quando não encontramos algo para fazer. Precisamos estar sempre ocupados. Sofremos demais com o barulho dos nossos pensamentos. Pascal ocupava-se com filosofia, lógica, ciência, física, religião e matemática. Inventou uma máquina de calcular.


     A hipótese de Pascal para explicar esse nosso horror à imobilidade é discutível e discutida: teríamos medo de ficar a sós conosco mesmos. Medo de quê? De pensar em nossa finitude, na morte, na miserabilidade humana, em nossa situação de desamparo. O leitor pode exclamar: “Eu adoro ficar sem fazer coisa alguma. Fico de papo para o ar horas e horas numa boa”. Sem ouvir música? Sem celular? Sem boas lembranças para distrair? Honestidade, leitor, honestidade. Blaise Pascal legou à posteridade os seus “Pensamentos”. Ele era bom de frases e refletiu sobre muitas coisas, entre as quais, de modo especial, a felicidade.

Paulo Nogueira

      Envelhecer é um pesadelo para as pessoas. Há uma luta inútil e muitas vezes patética pela juventude eterna. Muitos filósofos se detiveram sobre o tema e se esforçaram por nos ajudar a lidar melhor com a passagem do tempo. Um deles foi Cícero, símbolo supremo da oratória.

     Cícero começa por um fato incontestável: “Todos os homens desejam alcançar a velhice, mas ao ficarem velhos se lamentam. Eis aí a conseqüência da estupidez”. Depois ele toca num ponto crucial: uma vez que a sorte instável ora nos ergue e ora nos derruba, o que muda mesmo é a maneira com que cada um de nós lida com sua cota de infortúnios.

      Afirma Cícero: “Os velhos inteligentes, agradáveis e divertidos suportam facilmente a idade, ao passo que a acrimônia, o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade”


Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...