Bernardo Mello Franco

 Aos 10 anos de idade, o escritor Umberto Eco (1932-2016) ganhou seu primeiro concurso de redação. O tema tinha tudo a ver com aqueles tempos: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?”. O jovem estudante respondeu que sim. “Eu era um garoto esperto”, gracejou, décadas depois, em conferência na Universidade Columbia.


Eco cresceu numa pequena cidade da Lombardia.  Alfabetizou-se sob o regime fascista e teve que decorar discursos do Duce na escola. Mais tarde, espantou-se com a euforia das festas pela Libertação. “A paz me deu uma sensação curiosa. Tinham me dito que a guerra permanente era a condição normal de um jovem italiano”, relembrou.

As memórias de infância ajudaram o escritor a decifrar o fascismo — o original, dos camisas negras, e seus filhotes modernos, que reaparecem “às vezes em trajes civis”. Ele batizou o fenômeno de “ur-fascismo”, ou “fascismo eterno”, e listou características que ajudam a identificá-lo: o nacionalismo agressivo, o ódio contra minorias, o machismo violento, a exaltação do líder, a obsessão por teorias conspiratórias. “Os seguidores têm que se sentir sitiados”, explicou.

O ur-fascismo execra os artistas, abomina os intelectuais e detesta os professores. Considera que as universidades “são um ninho de comunistas”. “Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas”, afirmou Eco.

O Congresso, onde se questiona o governo, também é visto como ameaça permanente. Afinal, só o líder é capaz de interpretar a vontade popular. “Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do Parlamento por não representar mais a voz do povo, pode-se sentir o cheiro de ur-fascismo”, alertou.

O fenômeno se alimenta do ressentimento. Promete o resgate das tradições e a volta a um passado idealizado, onde tudo estaria sob controle. “Isso explica por que uma das características típicas dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política”, escreveu.




Roberto Damatta

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