Roberto Damatta

 Vivi tempos em que éramos apenas “subdesenvolvidos”. Naquela era mitológica, havia um atraso admitido: o clima tropical (que impedia o pensamento, como dizia um dos nossos professores), a Serra do Mar (muralha que bloqueia a conquista do sertão), a colonização lusa (se fossem os holandeses...), a mistura fatal das raças, o jeitinho jurídico que, vejam o horror, condena ácidos criminosos a doces prisões domiciliares, o feroz imperialismo ianque, os coronéis latifundiários, os políticos ladrões (mas que faziam...), os sistemas eleitorais indevidos, a saúva, a sensualidade, o samba, a cachaça, o Diabo...


O Brasil, como dizia Otto Lara Resende, não tinha furacão, tufão, terremoto, nevasca e maremoto, mas tinha inflação. Domesticamos a inflação, mas o populismo que produziu a plutocracia quebrou as contas públicas. Hoje, temos um sistema travado e o nosso time político, com o perdão pelo feio qualificativo que lhe cabe, é uma merda. Com a devida vênia aos honestos, todos têm algum laço, traço ou gene espúrio.

Aliás, a nossa elite é uma Grande Família. Os partidos, que deveriam conter os empenhos da casa, ressurgem fortes no estamento (como dizia com avassaladora sapiência Raymundo Faoro). Se você gritar “tio!” ou “padrinho!” no Congresso Nacional, ou em qualquer outro ambiente repleto de “gente grande”, você vai ouvir um amoroso “SIM?...”. Mudamos para a coisa pública, mas os laços de parentesco retornam como um furacão. Reprimimos legalmente o nepotismo puro, mas um ardiloso jeitinho inventou um brasileirismo – o nepotismo cruzado!

Nada, convenhamos, é mais legítimo na nossa democracia igualitária e meritocrática do que dar uma “mãozinha” a um parente se ele (ou ela) tem aquele talento. Mas, qual é o parente que, no Brasil, não tem talento?

Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...