The Economist

O conservadorismo não é tanto uma filosofia quanto uma disposição de espírito. O filósofo Michael Oakeshott o definiu muito bem: “Ser conservador é preferir o familiar frente ao desconhecido, o que já foi experimentado ao que não foi ainda tentado, preferir o fato e não o mistério, o real e não o possível, o limitado e não o ilimitado, o próximo e não distante”. Como o liberalismo clássico, o conservadorismo é uma criação do Iluminismo. Os liberais afirmam que a ordem social surge espontaneamente com os indivíduos agindo livremente, mas os conservadores entendem que a ordem social vem em primeiro lugar, ela cria as condições para a liberdade. Busca a autoridade da família, a Igreja, a tradição e as associações locais para controlar a mudança e torná-la mais lenta. Mas essa demolição vem ocorrendo com o próprio conservadorismo e isso vem partindo da direita. A nova direita não é uma evolução do conservadorismo, mas um repúdio dele. Os usurpadores estão ressentidos e descontentes. Eles são pessimistas e reacionários. Observe como eles estão estraçalhando uma tradição conservadora atrás da outra. O conservadorismo é pragmático, mas a nova direita é fanática, ideológica e sem preocupação com a verdade. Os conservadores são cautelosos com relação à mudança, mas a direita hoje contempla frivolamente a revolução. Os conservadores acreditam em caráter, porque política tem a ver com julgamento, mas também com razão. Eles desconfiam de carismas e cultos à personalidade. Os conservadores respeitam o comércio e são prudentes gestores da economia, pois a prosperidade é a base de tudo. E a direita está mudando o que ela acha pertencer. É a antítese do insight conservador, segundo o qual pertencer à nação, a uma igreja e a uma comunidade local pode unir as pessoas e motivá-las a agir em favor do bem comum. O conservadorismo foi radicalizado por várias razões. Uma delas é o declínio dos chamados por Edmund Burke de “pequenos pelotões”, nos quais ele se apoia, como a religião, sindicatos e a família. Outra é que os velhos partidos, de direita e de esquerda, ficaram desacreditados. Fora das cidades, as pessoas se sentem zombadas pela sofisticada população urbana gananciosa e egoísta. A nova direita está claramente vencendo sua luta contra o conservadorismo esclarecido. Para os liberais clássicos, isto é uma tristeza. Conservadores e liberais discordam em muitas coisas, como a questão das drogas e a liberdade sexual. Mas, com mais frequência, são aliados. Ambos rejeitam o impulso utópico de encontrar uma solução governamental para cada erro. Ambos resistem ao planejamento estatal e os altos impostos. A tendência conservadora de policiar a moral é compensada por um impulso de resguardar a livre expressão e promover a liberdade e a democracia no mundo. E, de fato, conservadores e liberais sempre oferecem o melhor de cada um. O conservadorismo modera o fanatismo liberal; e os liberais esvaziam a complacência conservadora. No seu auge, o conservadorismo tem uma influência estabilizadora. Ele é racional e sábio, valoriza a competência e não se precipita. Mas hoje a direita está efervescente e isso é perigoso.

Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...