Leonardo Sakamoto

 Não existe posicionamento sem ideologia. Nossa ideologia vai conosco para toda parte. Essa matriz de interpretação do mundo que abraçamos, consciente ou inconscientemente, diz muito sobre como vemos os fatos e o que eles significam para nós e para os outros. Aliás, não há discurso mais ideológico do que aquele que diz que não possui ideologia. Ao tentar naturalizar relações sociais, culturais e econômicas como se fossem “naturais” ou “lógicas” ele está construindo, na verdade, uma complexa rede de estruturas.


Para que alguém continue ganhando e alguém continue perdendo. Para que todos achem isso normal. Ou, no limite, para que você seja tão bem doutrinado que se torne um cão de guarda daquele que te explora. Em tempos difíceis economicamente, saídas que rifam direitos dos mais pobres e preservam os dos mais ricos (que tal aumentar impostos e taxar dividendos?) são vendidas como a única alternativa para preservar a qualidade de vida de muitos. Quando elas, por sua própria natureza, significam a proteção de poucos.

Uma discussão ampla e que envolva todos ao invés de medidas tomadas de cima para baixo seria um ato sensato. Mas a sensatez anda sumida por aqui. Como bem disse Paulo Freire, todos são orientados por uma base ideológica. A discussão é se a sua é includente ou excludente. Mas se as pessoas que mais precisariam fazer essa reflexão chamam Paulo Freire de “lixo” e “burro”, será uma grande caminhada até que percebam o tamanho da corrente que prende seus pés.


Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...