Um subproduto da infindável crise nacional é o mau humor. Ele ficou unânime. O Brasil outrora engraçado é agora movido a azedume. A faísca espirituosa, que iluminava falácias e liberava o riso, deu lugar ao rancor. A ironia política entrou em pane.
O conceito de ironia foi desenvolvido por Sócrates, que dizia o contrário daquilo que achava verdadeiro. Quando lhe perguntaram quem era o homem mais sábio da Grécia, respondeu: "Só sei que nada sei". Irônico, o sabe-tudo se disse um ignorante total.A ironia causa problemas. Sócrates a usava para fazer perguntas e chegar à verdade. Com as suas indagações, o filósofo sabotava as certezas do interlocutor, que ficava espiritualmente livre para aceitar o inesperado, o verdadeiro.
Num mundo racional, os atenienses deveriam agradecer as ironias do pensador, que os conduzia à verdade. No mundo real, eles ficavam uma arara porque Sócrates os ridicularizava.
Para piorar, o filósofo tinha os olhos arregalados de um boi. Vestia togas desalinhadas. Chegava atrasado às festas nas quais era o convidado principal. Aristófanes espalhou que Sócrates era um chato.
Kierkegaard observou que, transformada em método, a ironia alcança tudo e todos. Sem limites, ela faz com que a própria realidade oscile. A existência se torna estranha ao sujeito irônico, e este se torna estranho à existência. Realidade e linguagem entram em descompasso.
Por exemplo: muitos atenienses passaram a achar que, com o seu só-sei-que-nada-sei, Sócrates simulava humildade; dava uma de sábio, mas sofismava. Sem se dar conta da realidade (a irritação crescente), o pensador insistiu na sua retórica (irônica). Acabou condenado por corrupção e bebeu cicuta.