Luiz Felipe Pondé

 Nem o Satanás está a salvo. Coitado. Antes de tudo, vamos esclarecer que estamos diante de um personagem. Assim creio. Construído ao longo da história ocidental a partir de restos daqui e dali, o Satanás acabou por se constituir na figura que povoa a imaginação de muitos, chegando mesmo a quase merecer um Oscar.

Já no relato do Gênesis, o personagem aparece tentando Eva, provavelmente, uma gostosa (única hipótese possível sobre Eva, pois, fosse ela feia, Adão teria dado ouvidos a Deus). A partir daí, ele enlouquece homens e mulheres, os deixando furiosos em busca da realização de seus desejos mais obscuros e violentos.

Sua crueldade era tal que sua representação era quase sempre a de um deformado, deformando corpos e almas para a eternidade, sendo o inferno seu lar. O medo do inferno formou inúmeras grandes almas ao longo da história. Alguns de nós chega mesmo a acreditar que talvez Deus não exista, mas o Satanás sim, devido à simetria moral entre o dito personagem e o estado do mundo em que vivemos.

No cinema, então, nosso personagem fez história. Da adolescente Linda Blair do “Exorcista” até inúmeros filmes mais ou menos bons (passando pelo grandioso “A Bruxa”), o cinema deve uma parte de sua bilheteria milionária ao fiel Satanás. Às vezes belo e irresistível, no corpo de um homem ou de uma mulher, às vezes monstruoso e asqueroso, o fiel Satanás fez a noite de muita gente ter mais ação e imaginação do que os personagens mais bonzinhos do cinema.

Ninguém jamais temeria o senhor do pecado, não fosse o pecado, em grande parte, uma delícia.

 Do que nem mesmo o pobre Satanás está a salvo? Resposta direta: da banalidade do narcisismo de bolso que alimenta nossa revolução moral moderna, conhecida como egoísmo libertário.
O pobre do Satanás virou a justificativa banal para você ser você mesmo. Alguém conhece ideia mais descabida do que precisar da autorização de uma entidade, outrora responsável pelos maiores terrores da alma e pela destruição do paraíso divino, para você viver suas pequenas taras que cabem no Instagram? O pobre do Diabo virou uma espécie de coach de bolso para você justificar seu mau-caratismo e falta de educação.
Portanto, nem o Satanás está a salvo da infantilização geral do mundo. Pensar em você mesmo, antes de qualquer outra pessoa, sem culpa, é ser o que qualquer demonólogo decente sabe ser a versão mais infantil do Satanás.



Roberto Damatta

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