O francês Blaise Pascal, nascido na cidade de Clermond-Ferrand, em 1623, viveu muito ou viveu pouco? Ele morreu aos 39 anos de idade. A expectativa média de vida masculina na sua época era de 26 anos. Como se vê, cada tempo com o seu metro. Pascal tinha uma convicção mais forte do que todas: nós, humanos, não suportamos a solidão, o repouso e o tédio. Em termos claros e válidos até hoje, ficamos loucos de pedra quando não encontramos algo para fazer. Precisamos estar sempre ocupados. Sofremos demais com o barulho dos nossos pensamentos. Pascal ocupava-se com filosofia, lógica, ciência, física, religião e matemática. Inventou uma máquina de calcular.
A hipótese de Pascal para explicar esse nosso horror à imobilidade é discutível e discutida: teríamos medo de ficar a sós conosco mesmos. Medo de quê? De pensar em nossa finitude, na morte, na miserabilidade humana, em nossa situação de desamparo. O leitor pode exclamar: “Eu adoro ficar sem fazer coisa alguma. Fico de papo para o ar horas e horas numa boa”. Sem ouvir música? Sem celular? Sem boas lembranças para distrair? Honestidade, leitor, honestidade. Blaise Pascal legou à posteridade os seus “Pensamentos”. Ele era bom de frases e refletiu sobre muitas coisas, entre as quais, de modo especial, a felicidade.
Dado que não conseguimos resolver certas questões como a da morte, decidimos, segundo ele, não pensar nisso. Uma estratégia. Funciona? Nem sempre. O que queremos? “O ser humano quer ser feliz, e somente quer ser feliz, e não pode deixar de querer sê-lo. Como fará então?” Ótima pergunta. A palavra felicidade surge, porém, com frequência em seus textos. É preciso que a religião, “para tornar o homem feliz”, mostre-lhe que há um Deus, “que se é obrigado a amá-lo, que a nossa verdadeira felicidade é estar nele”. Qual é o problema? As trevas que nos impedem de enxergar a luz.
Cuidado com a vaidade – Não fosse assim, seria fácil. Não é. Como diz a canção, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. O caminho não costuma ser reto. As dores quase sempre são maiores do que as delícias ou acabam por nos vencer. Ser um gênio infelizmente não garante a felicidade. Nem a estupidez. As misérias humanas, visíveis por toda parte, devem levar a Deus, que pode nos redimir de tantas iniquidades. Não temos como escapar dos entretenimentos que nos distraem de nossos medos, mas não podemos ser felizes realmente só por meio deles. Que fazer? É preciso dar o salto para Deus, fazer a grande aposta, arriscar tudo.
Pascal queria ajudar a encontrar remédios para os nossos males, que nunca são poucos. Segundo ele, como gosta de lembrar o velho sábio francês Edgar Morin, a parte está no todo, que está na parte. Estamos em nossas células, que estão em nós. Vivemos em nosso espírito, que vive em nós e nos faz viver. Pascal apostava que nos resta “um poderoso instinto de felicidade”, parte da nossa “primeira natureza”.
As nossas misérias – ambições, desejos desmurados, ânsia do poder, invejas, o que quisermos – funcionam como uma “segunda natureza”. Ser feliz é tudo o que ser quer. Pascal sabia disso. Ele queria, no entanto, separar a felicidade ilusória da verdadeira felicidade. Os seus contemporâneos não estavam preparados para isso. E nós? Estamos prontos para tanto? O grande inimigo da felicidade é a vaidade. Nada de novo no front. Pascal capturou o que sentimos. Como é possível que não queiramos ser enganados se aceitamos enganar? Como reprovar moralmente quem nos despreza se nos comportamos de forma desprezível? Como esperar a paz do permanente se vivemos na ilusão do efêmero, na autoindulgência, na mentira, na hipocrisia, na enganação, na encenação, no jogo de aparências e na adulação?