Gregório Duvivier
Querido leitor de jornal, você é, antes de tudo, um excêntrico. Ao contrário do resto do país, você não está no WhatsApp. Isso, por si só, denota, senão persistência, alguma excentricidade. Olhe à sua volta. Se houver alguém, está no WhatsApp. Caso pareça que está trabalhando, deve estar no WhatsApp web, invenção que tem por único objetivo deixar fingir que se está trabalhando. Você tampouco está na labuta, é verdade —mas existem muitas formas de não trabalhar, e de todas elas você escolheu ler um jornal.
Você tampouco está no Instagram, o que faz de você um excêntrico do tipo subversivo. Os excêntricos mainstream, neste exato momento, estão caçando “likes” com fotos de sapato sobre azulejo. Você decerto não está no Twitter, o que é uma sorte danada. Vale celebrar.
Caso você tenha um jornal de papel nas mãos, alguém tentará inferir que você tem idade avançada. Ledo engano: os leitores mais velhos estão todos no Facebook. Você já deve ter percebido: a rede social de Zuckerberg tomou o lugar do bingo. Você, leitor analógico, não é necessariamente velho, mas certamente é vintage. Você tem nas mãos uma relíquia com os dias contados, como quem segura um canudo de plástico —e não se importa com isso.
Mesmo que você esteja lendo este texto no computador: posso garantir que você é, no mínimo, extravagante. Não bastou ler a manchete. Você clicou num link. Nos dias de hoje, uma percentagem ínfima dos leitores vão além da manchete. E não lembro onde foi que li isso, mas deve ter sido numa manchete.
E mais, de todas as partes do jornal, você está lendo uma crônica. Isso faz de você um excêntrico subversivo do tipo diletante. Se bem lhe conheço, você não perde tempo com nada que pode servir para alguma coisa.
Você parou um tempo do seu dia pra ler um texto que não informa nem edifica, escrito por um sujeito que não estudou para isso. E mais: você chegou ao fim —a duras penas, talvez, mas chegou. Pode ser um sinal dos tempos, mas hoje em dia fico emocionado com esse tipo de coisa. Olha só que coisa bonita: nós dois aqui, perdendo tempo juntos. É para você, meu igual, meu irmão, que volto a escrever em jornal. Uma coisa eu garanto: não vai lhe acrescentar nadinha. Eu sei que você gosta.
Caso contrário não estaria aqui, conversando comigo nesse não-lugar do espaço-tempo —enquanto o mundo desaba ao redor.
Roberto Damatta
Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...
-
Sei que como todo homem da minha idade caminho para o anacronismo. A cada dia me torno obsoleto. Resta em mim uma capacidade ridícula de n...
-
Sempre houve e haverá desigualdade em sociedades humanas, mas, quando a desigualdade se torna extrema e injustificável, a população tend...
-
Faz de conta que estou no trem e aceno na janela com um lenço branco. Sim, trata-se de uma despedida. Mas não sei exatamente quem ficou...
-
Os nossos amigos poderão não saber muitas coisas, mas sabem sempre o que fariam no nosso lugar” “Como são admiráveis as pessoas que nós não...
-
Deixas que assumam o poder em teu nome. Mas tu mesmo nada dizes. E só demasiado tarde reconheces que te enganaram uma vez mais. É por is...
-
O povo diz que Deus limitou a inteligência para que os homens não invadissem seus domínios. Pena, não ter feito o mesmo com a burrice human...
-
Não é de hoje que inventam lendas, crenças e superstições com o objetivo de moldar o comportamento das pessoas. A história é sempre a mesma...
-
A filosofia existe para que as pessoas possam viver melhor. Lidar melhor com as adversidades. Enfrentar serenamente o “perpétuo vai-e-vem d...
-
E Deus viu que eu me entediava, pois do que valia ser um rei no meu jardim sozinho, sem ter com quem compartilhar o Paraíso? Ou sem ninguém...
-
Não existe posicionamento sem ideologia. Nossa ideologia vai conosco para toda parte. Essa matriz de interpretação do mundo que abraçamos, ...