Intelectuais com status de celebridade e língua afiada, que dominam a ciência de ponta e não perdem a oportunidade de ridicularizar a crença em Deus com tiradas que viram memes. A descrição bate com a de figuras do século 21, mas também vale para pensadores que já estavam na ativa uns 2.500 anos antes de Cristo. Pelo visto, quando o assunto é o ateísmo militante, quanto mais as coisas mudam, mais elas continuam as mesmas. Essa talvez seja a principal mensagem de “Battling the Gods: Atheism in the Ancient World” (Lutando contra os Deuses: Ateísmo no Mundo Antigo), livro do historiador britânico Tim Whitmarsh.
O historiador argumenta que a Grécia antiga era um ambiente desse tipo justamente por causa de sua natureza algo caótica e descentralizada. Em vez de ser uma nação unificada, como a Grécia de hoje, o território helênico estava dividido em centenas de cidades-Estado modestas. Sem governo central, cada cidade era livre para ter suas próprias formas de culto aos deuses, com inúmeras divindades e sacerdotes sem grande poder político. Em resumo, seria impensável o surgimento de uma “Inquisição” helênica.
Os gregos também não tinham um equivalente da Bíblia hebraica. A analogia mais próxima eram os textos épicos do poeta Homero, que eram admirados como literatura e manual de conduta aristocrática, mas retratavam deuses muito parecidos com mortais: briguentos, ciumentos e com poderes limitados, apesar de imortais.
Conforme várias das cidades gregas foram crescendo economicamente e ficando culturalmente sofisticadas, por meio do comércio com o Egito e o Oriente Médio, surgiram pensadores que estão entre os primeiros do mundo a tentar explicar os fenômenos da natureza e a origem do Universo de maneira racional, sem recorrer à ação divina. Apesar de não serem muito afeitos a fazer experimentos para testar suas hipóteses, tais filósofos podem ser considerados precursores da ciência moderna – um de seus “chutes” mais bem dados é a ideia de que a matéria do Cosmos é composta de átomos.
Alguns desses sujeitos até falavam de forma vaga numa Inteligência cósmica ou Deus único que teria ordenado o Universo de maneira racional, mas Whitmarsh argumenta que, em muitos casos, essas vagas referências a divindades parecem metáforas que, na verdade, descrevem um princípio cósmico impessoal. De qualquer modo, eles não poupavam críticas à crença nos deuses gregos, como Zeus, Atena e Afrodite, considerando que as histórias sobre seus casos de amor e brigas eram ridículas.
Ideias ousadas contra a religião tradicional teriam ganhado fôlego ainda maior com o surgimento da democracia em Atenas, por volta de 500 a.C. A liberdade política e de expressão na cidade mais famosa da Grécia – todo cidadão podia participar diretamente da votação de leis e do julgamento de crimes, por exemplo – criou uma cultura essencialmente laica, e o ateísmo passou a ser tema até de comédias, como as de Aristófanes. Em sua obra “Os Cavaleiros” (encenada em 424 a.C.), dois escravos conversam justamente sobre a falta de fé. “Tu acreditas mesmo em deuses?”, diz um deles. “Claro”, responde o outro, “a prova de que eles existem é que fui amaldiçoado por eles”.
Embora vários dos ateus da Antiguidade tenham sido criticados e até processados, Whitmarsh diz que raramente eles sofriam consequências sérias porque a religião dos gregos e romanos valorizava principalmente os rituais (sacrifícios de animais aos deuses, por exemplo) e não se preocupava tanto com as crenças das pessoas. Como a maioria dos ateus não defendia que se interrompessem os sacrifícios, por exemplo, eram deixados em relativa paz.
A coisa teria mudado de figura com a ascensão do cristianismo, diz o pesquisador – a ideia de que uma única crença era a verdade absoluta pode ter aberto caminho para a perseguição aos descrentes.
*Publicado na revista Quatro Cinco Um, esqueci de anotar o nome do autor.