João Pereira Coutinho

Ter coragem é uma das virtudes principais. Assim falava Aristóteles. E assim falo eu, que sempre pensei no assunto de forma obsessiva. Vamos imaginar que era possível recuar até 1940. Eu, gentio e ariano, estaria na Alemanha. Ou na Polônia. Ou na Hungria. Perante a perseguição nazista aos judeus, estaria eu disposto a arriscar a pele para ajudá-los? Para escondê-los? Para alimentá-los? Aqui entre nós, é a única questão que interessa a um nível pessoal. Sabemos que existiram monstros no Holocausto. E também sabemos que existiram heróis —300 mil judeus seriam salvos pela ação individual desses heróis. Mas a vida não é feita de anjos ou diabos. É feita de pessoas comuns —a maioria. Existe uma literatura vasta sobre a ética dos “bystanders”, os observadores, os que ficaram a olhar —ou, pelo contrário, que desviaram o olhar— quando os seus vizinhos desapareciam a meio da noite. E, entre os “bystanders”, não é possível jogá-los a todos na mesma sacola de culpabilidade moral. Anos atrás, David Jones publicou o seu “Moral Responsability in the Holocaust” e encontrou três grupos. Primeiro, os que tiveram justificação para não ajudar (sobretudo alemães ou poloneses que temiam pela sua vida e pela vida da sua família). Seria indigno julgar a atitude dessas testemunhas aterrorizadas. Depois, existem os que tiveram fraca justificação para não ajudar (populações civis que viviam fora do vespeiro alemão-polonês-húngaro e que poderiam ter feito mais). Falamos da maioria da população europeia, incluindo aqui países neutros como Portugal ou Espanha. Finalmente, existem aqueles que não têm justificação para não terem ajudado (foram covardes, indiferentes ao sofrimento alheio ou simplesmente cúmplices). Alguns, aliás, chegaram a tirar fotos: em Amsterdã uma exposição no Museu Nacional do Holocausto apresenta esses retratos. Retratos banais, tirados por gente banal, que imortalizou em imagem as vítimas desse tempo. Algumas das fotos foram tiradas atrás do vidro de uma janela, sei lá com que estado de espírito (medo? terror? curiosidade?). E as vítimas, do lado de fora, alinhadas para transporte, alinhadas para um triste destino. Que faria eu? E que faria o leitor? Tiraria fotos? Ou estaria pronto para ajudar por outros meios? Ninguém sabe como teria agido em 1940 e nos anos seguintes, quando os exércitos do Terceiro Reich já cobriam o continente. Mas não haverá desculpa para a inação de hoje. Teremos coragem? E teremos vergonha?

Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...