Daniel Martins de Barros

 Nosso cérebro é cheio de falhas. Enxergamos o que queremos, lembramos do que nos interessa, encontramos relação onde existe acaso. Criamos assim uma imagem bastante imperfeita da realidade. O bom é que mesmo com essas imperfeições o cérebro foi bom o suficiente para ao menos perceber-se defeituoso.

  Mais surpreendente ainda foi termos encontrado meios para contornar esses problemas. Um cérebro sozinho não teria condições de fazê-lo, mas, com a união de várias mentes, o ser humano empreendeu uma de suas maiores revoluções: a revolução científica. Criamos e desenvolvemos métodos para evitar os tropeços de nossos raciocínios.

  Se antes acreditávamos nas ideias que a observação do mundo nos trazia, passamos a chamá-las de hipóteses, que deveriam ser testadas antes de serem aceitas. E logo percebemos que não bastava fazer experiências para confirmá-las, era preciso que elas pudessem ser derrubadas. Uma hipótese impossível de ser negada não é muito diferente de um dogma, afinal. E o pior: com isso, as verdades passaram a ser consideradas transitórias. A qualquer momento um novo experimento podia modificar nossas crenças.

  Assim a ciência passou a ser encarada com um misto de fascínio e medo. Os resultados eram realmente fascinantes: podíamos ver planetas, enxergar nossos ossos, curar doenças antes fatais - o conhecimento não apenas nos ajudava a compreender melhor o mundo, mas também a fazer intervenções mais eficazes nele. Mas tais resultados nunca foram vistos sem alguma desconfiança. Por ser contraintuitiva, contrariar nossas percepções, derrubar pressupostos, o público em geral sempre manteve reservas com relação à ciência. 

Roberto Damatta

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