Ricardo Araújo Pereira

 Desconfio sempre de alguém que me acolhe em determinado sítio dizendo: "Seja bem-vindo, isto aqui é tudo uma grande família". Isto é maneira de receber? Quem diz isso, como é óbvio, não conhece a minha família. Nem a maior parte das outras. Em geral, a pior coisa que pode acontecer a alguém é ter família.


     Qual é o primeiro crime relatado na Bíblia? Um irmão assassina outro. Caim mata Abel, o seu irmão, não mata Reginaldo, um colega de trabalho. Na mitologia grega é a mesma coisa: Cronos castra Urano, seu pai. Não castra Vinícius, o seu açougueiro.

     Em Shakespeare, o mesmo: Hamlet pondera matar Cláudio, seu tio, que por sua vez matou Hamlet sênior, seu irmão. Não deseja matar Chico, o síndico do seu prédio, que por sua vez não matou Paulão, o entregador de pizza.

     Há notícia de moços que foram criados por lobas e acabaram por fundar a cidade de Roma. Mas Palermo, na Sicília, eu aposto que foi fundada por gente criada por seres humanos. A loba é uma progenitora respeitável.
Raramente aparece na toca bêbeda ou desbarata o salário no cassino.

     As famílias são, de fato, um perigo real que não se deve menosprezar. A esmagadora maioria dos homicídios ocorre, aliás, dentro de portas. Quantas vezes lemos manchetes que dizem: "Homem mata mulher e sogra"? Inúmeras. E quantas vezes lemos: "Homem mata mulher e sogra de outra pessoa"? Bem menos.

     E parece-me sensato que, a ter de matar alguém, o homicida opte por um familiar. O homicídio acaba por ser uma atividade demasiado íntima para ser levada a cabo com estranhos. Até é falta de educação.

Roberto Damatta

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