A escritora Marguerite Yourcenar afirmava que a melhor maneira de se conhecer alguém é observando seus livros. Um homem, afinal, é aquilo que lê. Os desavisados não devem, porém, confundir tal constatação com a ideia de que lemos só aquilo que nos conforta e anima. Livros não são escritos para consolar certezas. Na verdade, mostram-se muito mais úteis quando conseguem semear a dúvida, desestabilizar credos, vergalhar convicções.
Por isso mesmo, livros sempre foram considerados perigosos pelos regimes de força, pelas mentes autoritárias e cheias de verdades, pelos inquisidores da vida alheia. Nos antigos ordálios da Antiguidade e da Idade Média, escritos considerados perniciosos eram atirados ao fogo e submetidos ao "juízo de Deus".Se queimassem, ficava provada a acusação que recaía sobre eles. Caso, por improvável milagre, viessem a saltar das chamas, ficariam absolvidos das denúncias. Mais tarde, nos autos de fé da Inquisição, os próprios autores foram atirados à fogueira.
"Onde se queimam livros, acabam-se queimando pessoas", advertia o poeta judeo-alemão Heinrich Heine. Com efeito, antes dos campos de extermínio em massa, os nazistas começaram queimando obras literárias, científicas e filosóficas. Em 1933, montanhas de livros, de autores como Albert Einstein, Sigmund Freud, Stefan Zweig e Thomas Mann, foram incineradas em praças públicas pela juventude hitlerista, sob o pretexto de purificar a cultura germânica.
Na chamada Revolução Cultural chinesa, deu-se o mesmo. No macarthismo dos Estados Unidos, idem. No Chile de Pinochet, também.
No Brasil, claro, não escapamos da sanha dos Torquemadas literários. Durante o Estado Novo, romances de Jorge Amado e José Lins do Rego foram queimados, após apreensões em livrarias e bibliotecas, determinadas por interventores e chefes militares. Nem mesmo Monteiro Lobato e suas "Reinações de Narizinho", obra considerada maléfica à infância pelos censores, escaparam da pirocracia.
Na ditadura civil-militar implantada em 1964, ter livros em casa voltou a ser temerário. Estantes eram devassadas em busca de volumes que servissem para incriminar os respectivos leitores. À época, o cretinismo dos repressores foi responsável por notas de tragicomédia. Livros sobre arte cubista, por exemplo, eram apreendidos por fazer hipotética propaganda ideológica de Cuba.