Kácki Aléssio

A angústia que consome os seres sensíveis do nosso tempo tem pelo menos três fontes. A primeira é a destruição acelerada dos recursos naturais do planeta, o que traz aquecimento global, pandemias e alterações climáticas extremas, com mais enchentes, mais secas e mais ventanias. Em segundo lugar, vem a dissolução das paredes da privacidade. Algoritmos extraem dados íntimos de toda gente para abastecer estratégias que desinformam e semeiam medo, preconceito e ódio. A desinformação industrializada, por sua vez, gera a terceira fonte de angústia: o declínio da democracia. Em toda parte, o autoritarismo ganha força, inclusive entre aqueles que, alegando defender as liberdades, são truculentos.

O pior é que a culpa é nossa. Não há mais como ignorar que a responsabilidade pelas três fontes das aflições que calcinam o espírito do tempo é integralmente nossa. Não é mais possível jogar a conta para os “outros”. A culpa não é “da indústria”, não é “da China”, não é “do marxismo cultural”, não é “da ideologia de gênero”, não é “do Google”: é nossa, é minha, é sua, é de todo mundo. Os sujeitos pensantes, que são raros, olham para a frente e enxergam o fracasso. A nossa capacidade de agir coletivamente com base na razão vai malogrando em lances bizarros. A angústia se cristaliza em impotência.

Foi em 1945, com as explosões atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, que a humanidade se deu conta de seu potencial de acabar consigo mesma. Nós, que já sabíamos que as civilizações eram mortais, nos demos conta de que as civilizações poderiam também se suicidar.

Mas, naquele entremeio do século XX, achávamos que o risco de aniquilarmos a vida na Terra tinha que ver com o risco de eclosão de uma guerra nuclear. Hoje, a velha ilusão virou pó. Percebemos, tardiamente, que os hábitos de consumo podem incinerar mais que as ogivas de um míssil. Aprendemos que não precisamos de explosivos para pôr fogo em florestas, extinguir espécies e matar nossos semelhantes. 

Outra ilusão que se desmanchou no ar foi aquela de achar que era preciso um controle burocrático central para que o dito “sistema” grampeasse em definitivo a intimidade dos viventes. Antes, imaginávamos que seria necessário existir um “Big Brother” – como no livro 1984, de George Orwell – para que o poder conseguisse vigiar os indivíduos e a sociedade inteira. Quanta ingenuidade.

Diante do que se passa atualmente, a ficção distópica de Orwell mais parece uma cantiga de ninar. Ficou evidente que a vigilância total não precisa de gerente nenhum, de “Big Brother” nenhum. Descobrimos, enfim, que o “Big Brother” não é um burocrata no comando das máquinas, mas um agente difuso: todos os olhos de todos os seres são os seus olhos.  Qualquer semelhança com o totalitarismo não é mera coincidência. Com isso chegamos à estafa das democracias. Em cada país, a coreografia é diferente, mas a tragédia de fundo é a mesma: os fundamentos da democracia estão no limiar de um burnout institucional. 

(Eugênio Bucci)



Roberto Damatta

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