Em A Rosa Púrpura do Cairo (1985), filme de Woody Allen, em meio à Grande Depressão econômica dos anos 1930 uma mulher desempregada e maltratada pelo marido busca refúgio em um cinema de New Jersey. Cecilia troca a realidade pela fantasia assistindo seguidamente à mesma película até que o protagonista sai da tela e entra em sua vida. Premissa fantástica do rompimento da divisão entre o real e o imaginário, o cotidiano e o cinema, a vida dura e as promessas de felicidade.
O filme de Allen encanta pela realização de uma promessa da mídia que se aproximou do cotidiano com o advento da televisão, mas há apenas duas décadas modificou-nos radicalmente por meio da Internet. A passagem da tela grande do cinema para a pequena da televisão até às menores dos smartphones marcou não apenas a passagem do entretenimento público para o doméstico até o individual, mas sobretudo a crescente exposição à mídia, da eventual visita ao cinema, passando pela audiência diária à TV até chegarmos às atualizações constantes nos celulares conectados em rede.
Nossa própria compreensão passou a ser alterada a partir do momento que passamos a viver para uma audiência. Cada época tem algo que a sintetiza, uma prática disseminada de tal forma que deixa de ser motivo de estranheza ou reflexão. Em menos de uma década, a prática de fotografar a si mesmo para postar em redes sociais ou enviar por mensagens instantâneas tornou-se tão comum para quem possui um smartphone que se naturalizou. A selfie pode ser um bom ponto de partida para começar a refletir sobre a mudança que se passou quando as câmeras fotográficas passaram a ser acopladas aos telefones celulares, incitando seus usuários a voltarem as lentes para si mesmos.
A câmera fotográfica não apenas se disseminou como nunca antes, mas ela foi virada para o usuário alçado a paparazzi de si próprio. O giro da câmera para si mesmo sintetiza a passagem para as mídias em rede, consolidando o advento da Internet comercial iniciado em meados da década de 1990. Se na mídia de massa, marcada predominantemente pela comunicação vertical do broadcasting, os espectadores são incitados a se identificarem com ídolos do cinema e da televisão, na rede, moldada pela horizontalidade, vivem como protagonistas de suas próprias vidas.
Redes sociais como Facebook, Instagram ou YouTube incitam seus usuários a, online, aproximarem-se da experiência que anteriormente era disponível apenas a seus antigos ídolos. Os motivos nas fotos, seus enquadramentos e poses não deixam dúvida sobre a inspiração cinematográfica, televisiva e até publicitária nas fotos que se multiplicaram exponencialmente em perfis e canais de usuários comuns.
O glamour da era do cinema residia na distância estratosférica entre seus astros e estrelas e os espectadores, distância rompida apenas em um delírio como o da protagonista de A Rosa Púrpura do Cairo. Dos astros e estrelas do cinema, passando pelos ídolos da televisão, até chegarmos às celebridades dos reality shows e sua multiplicação nas redes sociais, a tecnologia estendeu sua mão a nós que, feito Cecilia no filme de Allen, rompemos o aparentemente intransponível limite da tela. Hoje, muitos de nós vivemos performando midiaticamente nossas vidas de tal forma que a fronteira entre ambas se esfumou não apenas online, mas também no off-line de nossas consciências.
O dilema de Cecilia – o de escolher entre a fantasia ou voltar à realidade – já não nos serve. A velha oposição virtual e real evocada nos inícios da Internet não dá conta de nosso cotidiano moldado no contínuo on-offline. É na fronteira delicada e desafiadora entre o dentro e fora da rede que vivemos agora. A popularidade online, frequentemente medida por botões como o curtir do Facebook, demanda um trabalho constante da própria imagem que envolve não apenas a aparência física, mas também habilidades sociais anteriores à era digital somadas às típicas de nossos dias.
O valor do prestígio online se disseminou, criando contextos de exposição que facilmente se tornam campos de disputa por uma espécie de reconhecimento mais midiático do que político. A fronteira entre o político e o midiático também se borrou. Misérias pessoais podem ser apresentadas nas redes sociais como causas políticas, dando um verniz coletivo a ressentimentos individuais, cruzadas morais ou puras e simples vinganças.
Os serviços de rede social incitam a postagens de impacto desprovidas de cuidados éticos, checagem de fontes ou respeito ao contraditório. São serviços comerciais que adestram usuários a serem empreendedores de si mesmos, tecnologias multiplicadoras de subjetividades em disputa por popularidade. A competição pela atenção é a raiz de boa parte dos conflitos online e que se estende para muito além de fenômenos como as “notícias falsas” ou dos haters, usuários especializados em destilar seu ódio contra pessoas ou vertentes políticas.
Online, o embate tende a se dar em um tribunal cujos termos, longe do direito, tendem ao julgamento moral. Mascaram disputas de sujeitos carentes de reconhecimento por curtidas, compartilhamentos ou retuítes. Ao invés de um espaço de trocas intelectuais, a rede se revela o lócus de reafirmação de conjecturas e disputa pela atenção de uma audiência sempre faminta por escândalo, denúncias e linchamentos.
Cecilia cruzou a fronteira da tela para ser uma das protagonistas de A Rosa Púrpura do Cairo, assim como as redes sociais nos prometem sermos o centro das atenções.
2/3 dos usuários do Facebook têm na rede social sua principal fonte de informação, portanto leem ou assistem um clipping de notícias criado por algoritmos ou “amigos” que podem priorizar o entretenimento à reflexão. Nada de estranho em um serviço de rede social privado com fins lucrativos. Acusar a empresa/plataforma evoca a ingenuidade de esperar que o mercado volte-se contra si próprio.
Se o capitalismo industrial vendia sonhos pelo cinema, o novo capitalismo o faz de forma mais sofisticada e eficiente, por meio da promessa de que você é especial e único, o centro do mundo acessado por um equipamento que cabe na palma de sua mão. Sob o vantage point de usuário da rede, tudo parece a um clique de distância, especialmente o reconhecimento de si próprio pelos outros que te seguem ou são seus amigos em uma rede social. A Internet nos estendeu a mão como o galã do filme para Cecilia e nos trouxe para dentro da tela em que morariam os sonhos, mas na qual começamos a perceber que temos que agir como empreendedores de nós mesmos para atingi-los.
Cecilia entrou na tela para escapar ao abuso e à infelicidade, assim como muitos de nós foram atraídos online para fugir de misérias de nosso tempo. Em seu delírio, ela encontrou um pouco de amor, mas a maioria de nós foi atirada aos conflitos nas redes sociais. O lado de lá da tela não nos salvou da selvageria do lado de cá, mesmo porque um espelha de forma amplificada o outro e ficamos, desde então, na fronteira do on-offline gerindo nossas vidas e sonhos em uma realidade cotidiana inimaginável há pouco mais de vinte anos, quando a internet começou a se disseminar comercialmente.
O escapismo de Cecilia em A Rosa Púrpura do Cairo pode ser interpretado como um delírio que terminou quando ela escolheu a realidade. Atualmente, desconectar-se não é uma opção, e encaramos o dilema de viver no contínuo on-offline distinguindo seus engodos de suas potencialidades e conquistas. Van Dijck, estudiosa holandesa das mídias sociais, afirma ironicamente que na era da conectividade há algoritmos para quase tudo, menos para a reflexão crítica. Será que ao invés de nos decepcionarmos com as redes sociais ou nos desconectarmos já temos conhecimento suficiente para desmontar algumas de suas armadilhas?