Leandro Karnal

É o mais sólido e tradicional clichê que somos todos, em algum grau, loucos. Como a maioria é algo estranha, ser louco conteria um certo charme. A normalidade é tediosa, opressiva e até pecaminosa, algo que ecoa Erasmo de Roterdã (O Elogio da Loucura) ou Paulo Apóstolo (I Coríntios 4,10). A sinceridade dos loucos e outsiders sempre foi admirada como emanação de algum acesso a um conhecimento superior. Um jovem que não tenha sido seduzido em algum momento pela ideia da insanidade contestadora de um Hamlet a apontar coisas podres no reino da Dinamarca, provavelmente, não é um jovem de verdade. Hoje quase uma denúncia de idade, lembro de um livro clássico da minha juventude: O Louco, de Khalil Gibran. A loucura poética é irmã da contestação, da rebeldia criativa, da insubordinação contra poderes. O louco manso e criativo ri, diz aquilo que está engasgado na garganta dos comuns racionais e infelizes. A loucura dos grandes deve ser vigiada, reflete o rei Cláudio ao pensar nas estranhas ações do jovem Hamlet. Que tempos felizes eram aqueles nos quais os romanos identificavam em Calígula, Nero ou Heliogábalo a insanidade clara e passível de eliminação! Que época abençoada: havia um louco e ele morria e pronto, o mundo melhorava... outra era. Hoje, os gritos dos loucos, no Brasil, raramente superam os da "gente de bem". É preciso ter esperança e, talvez, alguma sanidade. Enquanto for possível.

Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...