Andrew Solomon

 A vida é repleta de tristezas. Mesmo as pessoas que se apoiam numa fé que lhes promete uma existência diferente no além não podem evitar a angústia neste mundo.  Não há vida que não contenha motivos para o desespero, mas algumas pessoas chegam perto demais da borda, enquanto outras conseguem ficar tristes, mas numa clareira, à distância do abismo.


 A depressão começa no insípido, enevoa os dias numa cor átona, enfraquece ações ordinárias até que suas formas claras são obscurecidas pelo esforço que exigem, nos deixando cansados, entediados e obcecados com nós mesmos. Não sabemos por que alguém fica deprimido com circunstâncias que não perturbam outro.

 Estar deprimido quando se experimentou um trauma ou quando sua vida está claramente uma bagunça é uma coisa, mas sentir-se deprimido quando você finalmente está distanciado do trauma e sua vida não é uma bagunça é horrivelmente confuso e desestabilizante. Claro que você está consciente de causas profundas: a perene crise existencial, as dores esquecidas da infância distante, os leves erros cometidos com pessoas agora falecidas, a perda de certas amizades por sua própria negligência, o fato de não ser nenhum Tolstoi.

Tornar-se deprimido é como ficar cego, a escuridão no início gradual acaba englobando tudo; é como ficar surdo, ouvindo cada vez menos até que um silêncio terrível o envolve, até que você mesmo não pode fazer qualquer som para penetrar o silêncio. Ver-se exposto às devastações de uma chuva quase diária, e saber que estamos nos transformando em algo débil. Perceber que uma parte de nós cada vez maior irá pelos ares com o primeiro vento forte, transformando-nos em alguém cada vez menor.


Do livro O demônio do meio-dia, trecho editado por José Aléssio

Roberto Damatta

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