Hélio Schwartsman

 A ideia de que vivemos em um mundo justo, no qual as pessoas são recompensadas ou punidas por suas ações, tem apelo. Na verdade, não sou eu que reconheço, mas a psicologia. O nome técnico desse viés cognitivo é precisamente a falácia do mundo justo.

 Ele está por toda parte, de Hollywood às histórias infantis, passando por ditos populares como “aqui se faz, se paga aqui”, “tudo acontece por um motivo”. É particularmente saliente nas religiões, onde a retribuição pode surgir, na forma de punição divina repentina ou em outras vidas.

Foi o psicólogo Melvin J. Lerner quem inaugurou os estudos sobre o mundo justo nos anos 60. Você não precisa ser um Sherlock Holmes para ver que a injustiça é a regra em nosso planeta. Coisas ruins acontecem a pessoas boas e coisas boas acontecem a pessoas ruins. Ainda assim, a crença em uma justiça fundamental por trás da aleatoriedade dos eventos prevalece nas mais diversas culturas.

Para Lerner, os motivos são funcionais. Ajuda-nos a não abandonar a ideia de que podemos influenciar o mundo de uma forma previsível, ou seja, que é possível fazer planos para o futuro – o que tem um valor adaptativo óbvio. Estudos subsequentes mostraram que a crença em um mundo justo é fundamental para a saúde mental, mesmo que nos torne piores intérpretes da realidade.

Basicamente, é o acaso que governa o mundo e consequentemente nos governa.



Roberto Damatta

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