Godot?
– Não. Esperando o Brasil.
Tem gente que morreu esperando o Brasil progredir. Eu vivi isso quando aconteceu a bossa nova, houve a inauguração de Brasília, Jorge Amado, Guimarães Rosa estavam presentes e os antropólogos da minha geração iam derrotar os poderosos e salvar os índios e os pobres. Hoje, eu cansei de esperar.
O Brasil cansa, diz um amigo.
Mas esperar é a esperança que não pode morrer.
*
Mas como contemplar o “Brasil” como uma coisa se nós somos parte dessa coisa? Se nós contribuímos para o seu atraso ou progresso?
Quando falamos da sociedade, que são organismos vivos em que nascemos e, por suposto, queremos bem como pátria, nós nos dividimos. Um lado nosso fala como se fosse de fora; um outro se angustia e confunde porque faz o Brasil. Como cuspir no prato em que, bem ou mal, se come? Não é fácil discutir uma relação visceral com a terra na qual viemos ao mundo e entramos no palco da vida e, ao mesmo tempo, ficar esperando que uma “casta” fabricada e eleita por nós o “conserte”, remende ou embrulhe?
*
Discernir o significado de uma espera é importante. Escravos não esperavam, inferiores esperam muito, inimigos são mal (ou jamais) atendidos e os estruturalmente fracos e marginais – os “f...” ou cidadãos em geral – simplesmente não existem. A casta de senhores engravatados, que nos governa com seus impecáveis criados e carruagens pretas, sabe que o povo deve esperar pelas proclamações e leis feitas nos palácios e palanques pelos mandões ou “supremos”. Parentes e amigos são atendidos na hora. Não entram em fila. O “esperar sentado” revela a distância entre os segmentos que constituem a alma do Brasil.