Quando essa história de Terra Plana começou, parecia que tudo ficaria ali mesmo, no latifúndio exclusivo da comédia. Como tantas outras “teorias” do mundo bestialógico, o terraplanismo, embora não haja data precisa para sua propagação em massa, é um fenômeno visceralmente conectado à internet. Sem a velocidade da comunicação virtual, a coisa não teria chegado ao nível em que chegou.
A defesa de “teses” na contramão da lógica elementar tem um poder de atração irresistível. Todos adoramos um mistério. Quando a insanidade vem embalada em supostas evidências materiais, mesmo que não resistam a um simples teste de realidade, mais adeptos se juntam à tropa dos desmiolados. A mesma turma jura por todos os santos que o homem jamais pisou a superfície lunar.Aí chegamos ao campo da política, do governo, das demandas públicas, das questões de Estado. O que parecia restrito ao interesse de desocupados ganhou ares de debate ideológico. É a prova do quanto um conceito como civilização, por mais que pareça uma conquista definitiva, pode sim passar por retrocessos dos mais tacanhos. Alguém poderia imaginar que o país seria infestado de terraplanistas?
Gente que acredita que os Beatles foram um grupo de rock a serviço de Satanás e do comunismo?
Antes da explosão popular em torno do formato da Terra, o que mais se aproximava desse fanatismo era o combate aos estudos sobre aquecimento global. No YouTube, naturalmente, faz sucesso o trololó de um professor da USP que acusa uma conspiração globalista do aquecimento. É isso mesmo, eu disse um professor da USP!
Nos encontros dos “conservadores” Brasil afora, os palestrantes mais celebrados são exatamente os tipos que contestam nada menos que todo o conhecimento científico acumulado ao longo dos séculos. A regra para o sucesso desses celerados é simples: quanto mais cretinos os argumentos, mais a seita baba de prazer. Eis a quadra em que a ignorância virou selo de qualidade.
De onde vem esse ódio ao conhecimento? A resposta não caberia num espaço como este. E nem sei na verdade quais seriam as explicações para a estranha loucura coletiva. É desafio para estudos de fôlego, de longo prazo, de pesquisas que levem em conta um conjunto de variáveis. Uma coisa eu sei: a tendência é o fundo do poço, o avanço cada vez maior da desinformação, da estupidez.