Eu já tive medo de perder o emprego, de levar pé na bunda, de pegar dengue ou febre amarela, mas nunca, até a alguns anos, havia temido emburacar num período tenebroso da história.
História, eu pensava, era aquilo que aconteceu há muito tempo, quando o mundo era turbulento e confuso, antes de chegarmos a esta ilha de normalidade a que chamamos de presente. É como olhar para o próprio passado. Me vejo bem desajeitado na infância, perdido na adolescência, tenho vergonha alheia do carrinho de bate-bate em que me transformei lá pelos 20 e tantos, hoje eu sou eu, “senhor dos meus domínios, rei do meu castelo”, como diria o Seinfeld no clássico episódio “The Contest”.
Mas a história, como diria o poeta, é uma caixinha de surpresas. É o tal “conto narrado por um idiota, cheio de som e fúria e sem sentido algum”. E se o idiota estiver especialmente enfezado ultimamente, sofrendo de azia, enxaqueca, unha encravada? E se nós estivermos vivendo o renascimento global do fascismo? E se os líderes populistas de extrema direita, em ascensão por toda parte, aproveitando-se da conexão total e desinformação generalizada proporcionadas pelas redes sociais, criarem nos próximos anos um sistema supranacional digno de “1984”, de “Fahrenheit 451”?
“Imagina!”, eu digo a mim mesmo. “Hoje em dia isso não seria possível!”. Então me dou conta de que não houve um só dia na história da humanidade que não tenha sido “hoje em dia”. Todo ser humano que já pisou sobre a terra, no momento em que tocava as solas no chão estava no posto de observação mais avançado que jamais existira: o presente.
Já mencionei em outra crônica a cena de um documentário com sobreviventes do holocausto, feito pela fundação Shoa, do Spielberg. Com seu avô, um garoto é trancafiado num vagão de carga lotado, sem bancos, janelas ou espaço para se mexer. O avô aperta a mão do garoto e tenta tranquilizá-lo: “Calma, estamos no século 20”. “Calma, estamos no século 21”, penso eu, mas aí lembro do destino daquele avô.
Espero estar enganado em meus anseios mais catastróficos. Espero que essa semente protofascista que está brotando em alguns países seque antes de florescer. Espero que esses líderes farsescos sejam como o Kramer, amigo do Seinfeld. Uns bufões que entram com estardalhaço, falam meia dúzia de abobrinhas sem pé nem cabeça e desaparecem, sem maiores consequências para o rumo da história.