Jean-Leon Gerome

 Reza uma lenda do Séc. XIX que um dia a Verdade e a Mentira encontraram-se.

Diz a Mentira à Verdade: “Está um dia tão bonito”.

E estava de fato um dia muito bonito. Passam algum tempo juntas até que chegam junto de um poço.

” A água está tão agradável, porque não tomamos um banho as duas?” sugere a Mentira. A Verdade, embora reticente,  toca na água e a água estava realmente agradável. Despem-se então e banham-se.

De repente a Mentira sai da água, veste as roupas da Verdade e foge. A Verdade salta do poço e corre todos os lugares para encontrar a Mentira e recuperar as suas vestes.

 O Mundo, vendo-se confrontado com a nudez da Verdade, revira os olhos, entre o desprezo e a raiva. A Verdade volta então ao poço onde desaparece para sempre, escondendo a sua vergonha.

Desde então a Mentira tem percorrido o Mundo com as roupas da Verdade, satisfazendo os caprichos das pessoas e das sociedades, e o Mundo, esse, continua a recusar-se a encarar a Verdade nua.


 2ª versão


Certa vez, a Mentira e a Verdade se encontraram.

A Mentira, dirigindo-se à Verdade, disse-lhe:

– “Bom dia, Dona Verdade!”

Zelosa de seu caráter, a Verdade, ouvindo tal saudação, foi conferir se realmente era um bom dia. Olhou para o alto, sem nuvens de chuva. Os pássaros cantavam. Não havia cheiro de fumaça na mata. Tudo parecia perfeito.

Tendo se assegurado de que realmente era um bom dia, respondeu:

– “Bom dia Dona Mentira!”

Está muito calor hoje, não é mesmo?” – disse a Dona Mentira.

Realmente o dia estava quente demais. Deste modo, vendo que a mentira estava sendo sincera, começou a relaxar, a baixar a guarda. Por qual razão haveria de desconfiar, se a Dona Mentira parecia tão cordial e “verdadeira”?

Diante do calor insuportável, a Mentira, num gesto de amizade convidou a Verdade para juntas banharem-se no rio.

Como não havia mais ninguém por perto, despiu-se de suas vestes, pulou na água e insistiu:

– “Vem Dona Verdade, a água esta uma delicia, simplesmente maravilhosa!

O convite parecia irrecusável. Assim sendo, Dona Verdade, sem duvidar da Mentira, despiu-se de suas vestes, pulou na água, e deu um bom mergulho.

Ao ver que a Verdade havia saltado na água, rapidamente a Mentira pulou para fora, vestiu-se rapidamente com as vestes da Verdade que estavam à margem e se mandou sorrateira.

Tendo suas roubadas furtadas, a Verdade sai da água e ciosa de sua reputação, por sua vez, recusa-se a vestir-se com as roupas da Mentira, deixadas para trás.

Certa de sua pureza e inocência, nada tendo do que se envergonhar, não tendo outra opção, saiu nua.

Desde então, aos olhos das pessoas, ficou mais fácil aceitar a Mentira vestida com vestes da Verdade. do que aceitar a Verdade nua e crua.



Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...