Todo vento soprava a favor do Brasil naquele final de anos 1950. Governo progressista, conquistas esportivas no futebol, no boxe, no tênis, indústria automobilística nascente, a nova capital sendo construída no meio do imenso país. O gigante despertara. E, além de forte, parecia elegante, gentil e inteligente.
Faltava uma trilha sonora à altura e ela ganhou forma em 1958, quando um cantor chamado João Gilberto gravou no estúdio da Odeon um compacto em 78 rotações. As canções eram Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) de um lado e Bim Bom, do próprio João, no outro. Esta é a certidão de nascimento da Bossa Nova, expressão artística que só receberia nome próprio tempos depois.Havia anos que jovens músicos no Rio de Janeiro buscavam novos caminhos para a música brasileira. Gostavam de jazz e ouviam discos importados sem cessar. Para citar um exemplo, Roberto Menescal (entre outros) era devoto de um álbum chamado Julie Is Her Name, gravado em 1955 com a deusa Julie London e sua voz de travesseiro acompanhada pelo guitarrista Barney Kessel e pelo baixista Ray Leatherwood.
Julie interpretando Cry me a River é devastadora, mas os músicos só tinham ouvidos para os acordes dissonantes gerados pela guitarra de Kessel. O mapa da mina estava ali.
Faltava o ritmo e a sua invenção remonta ao mito. De acordo com ele, um João Gilberto meio sem rumo teria se hospedado na casa de sua irmã, em Diamantina, e tocava violão o dia todo, sem parar. Tinha predileção por ensaiar no banheiro, o que causava transtorno na ordem da casa.
Mas era lá, entre ladrilhos antigos, que João encontrava a ressonância ideal para seu violão e sua voz. Nesse ambiente pouco nobre nasceu a famosa “batida da Bossa Nova”, inventada por João Gilberto.
Ao voltar para o Rio, João trouxe a base rítmica e interpretativa que serviria de leme à ainda oficialmente não nascida Bossa Nova. Em depoimento a Zuza Homem de Mello (no livro Eis Aqui os Bossa Nova), Baden Powell diz que é como se, de uma escola de samba inteira, João ficasse apenas com os tamborins.
Só o osso, o diagrama, o essencial. São alterações harmônicas, rítmicas e do canto “pequeno”, associado mais à fala que ao dó de peito, que constroem a estrutura básica da Bossa Nova.
Estabelecidas suas bases sólidas, a Bossa se desenvolveu com intérpretes e compositores geniais, entre os quais sobressai Tom Jobim. Foi trilha sonora de uma geração (ou mais de uma), ganhou mundo e hoje é mais tocada lá fora que aqui. Em seu denso ensaio João Gilberto e o Projeto Utópico da Bossa Nova, o crítico Lorenzo Mammì define a Bossa como “promessa de felicidade”. Caetano Veloso afirma que o Brasil ainda precisa merecer a Bossa Nova.
Já se disse que uma música assim – sofisticada e simples ao mesmo tempo, elegante e inovadora, síntese de raízes nacionais e influências estrangeiras de alto nível (o jazz e a melhor música norte-americana, Villa-Lobos, Debussy e Ravel) – só poderia ter nascido em época otimista como a de Juscelino Kubitschek.
É tentador, mas complicado, praticar esse tipo de sociologia das artes, em que estas expressariam diretamente o momento histórico. Mas, com os devidos cuidados, a ligação pode ser feita. Ou alguém aí imagina alguma coisa parecida com a Bossa Nova surgindo no Brasil de hoje?