Hélio Schwartsman
“Free Speech”, de Jacob Mchangama, é um livro importante. Ele conta a história da liberdade de imprensa desde Sócrates até hoje. O que salta aos olhos é a regularidade dos padrões. Quando se trata de defender seu próprio direito de dizer o que pensa, as pessoas são maximalistas. Mas, quando se deparam com ideias de que não gostam, vêm as queixas contra os excessos da liberdade de expressão e a proliferação de “notícias falsas” (esse termo tem mais milhagem histórica do que se poderia supor).
O caso mais gritante talvez seja o do poeta inglês John Milton. Ele é reconhecido como um dos campeões da liberdade de expressão por tê-la defendido com veemência em seu “Aeropagitica” (1644). Menos mencionado é que, alguns anos depois, Milton se tornaria ele próprio um censor. Também beberam das águas da incongruência censória Voltaire, Robespierre, John Adams, entre outros. Nem instituições escapam. A Igreja Católica passou de minoria religiosa oprimida a editora do “Index Librorum Prohibitorum”.
E, se a repetição do padrão geral já chama a atenção, ela se torna assustadora quando comparamos nossa época de internet e redes sociais aos dois séculos que se seguiram à invenção da imprensa. Em ambos os casos, adventos tecnológicos deram um tremendo impulso à circulação de ideias, às tentativas de censura e à radicalização. O século 17 teve até o seu Telegram. Era a Holanda, onde se imprimiam os textos proibidos nos outros países. Eles eram depois contrabandeados até os leitores.
Mchangama é convincente ao sustentar que devemos resistir à tentação de censurar adversários. Não é que as modernas fake news sejam inócuas. Mentiras podem provocar grandes males. Mas o autor vê um certo pânico moral na importância, não corroborada pelos estudos acadêmicos, que atribuímos a elas.
A melhor defesa contra más ideias é, desde a Antiguidade, ideias melhores.
Roberto Damatta
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