Leonardo Sakamoto

 Muita gente não foi devidamente treinada para dialogar com o mundo sem que o interlocutor fosse, previamente, colocado em uma caixinha.

 Categorizado, embalado, etiquetado, rotulado. E ignorada a complexidade humana, reduz-se um indivíduo – sem ler, ouvir e tentar interpretar o que ele diz – ao lugar que alguém ou um grupo determinou para ele. Simplifica-se tanto ao ponto das variações de cor e tons sumirem e sobrar preto e branco.
 A partir daí, textos são compartilhados na rede, com xingamentos ou elogios a quem os escreveu, sem que tivessem sido devidamente lidos. Porque o compartilhamento não serve para fomentar o debate construtivo sobre a realidade, mas como munição digital em uma guerra de torcidas organizadas.
 Os mais triste de tudo isso é que a mensagem é ignorada enquanto a batalha é travada sobre lugares comuns relacionados ao pretenso ''time'' pela qual o autor ou autora da mensagem ''torcem''. Aos poucos vai se formando um deserto na rede. Como se tivéssemos desistido de nossa capacidade de ter opinião própria a partir de uma reflexão individual proporcionada pela experiência pessoal, pelo diálogo com os outros, pela aquisição de conhecimento.
 E, voluntariamente, nos oferecido para sermos absorvidos por um lado em disputa.
 O que, infelizmente, me lembra de Oscar Wilde: ''Há três tipos de déspotas. Aquele que tiraniza o corpo, aquele que tiraniza a alma e o que tiraniza, ao mesmo tempo, o corpo e a alma. O primeiro é chamado de príncipe. O segundo de papa. O terceiro de povo''.
 Apesar disso ser motivo para um certo desalento, acredito que estamos vivendo uma adolescência da internet.
 E, assim que amadurecermos ao perceber a necessidade de melhorar o debate público, a avaliação de Wilde não vai prosperar. Prefiro, portanto, ficar ao final com Eduardo Galeano, na esperança de que nademos juntos para vencer a correnteza e não sejamos levados por ela.
 ''A igreja diz: O corpo é uma culpa.
 A ciência diz: O corpo é uma máquina.
 A publicidade diz: O corpo é um negócio.
 O corpo diz: Eu sou uma festa.'

Roberto Damatta

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