Um líder sindical desaparece e a polícia não consegue encontrar o culpado. Querendo mostrar eficiência, passa a investigar um homem que aparentemente poderia ser suspeito, mas que nada tem a ver com o crime. E para dar visibilidade ao trabalho de investigação, usa a imprensa. Esse é o tema de “Ausência de Malícia”, do diretor Sydney Pollack.
O suspeito é o empresário Michael Gallagher, interpretado por Paul Newman. Gallagher vê sua reputação sendo destruída aos poucos a cada manchete que o jornal publica envolvendo seu nome nas investigações criminais. Chega a procurar a repórter que escreveu os textos, Megan Carter, interpretada por Sally Field, para perguntar como ela descobriu que ele estava sendo investigado. Ainda pergunta à jornalista o que o jornal publica quando alguém é inocente, pois a notícia de inocência não compensa o mal que a acusação provoca.
O drama mostra a repórter sendo o tempo todo manipulada pelos policiais. A informação de que Gallagher estaria sendo investigado foi vazada propositalmente por eles para que ela a publicasse. O diretor do jornal questiona a veracidade das informações, fala à repórter sobre a responsabilidade de se divulgar fatos imprecisos, o risco de um processo e a obrigação de se ouvir os dois lados da história. No caso, ele orientava a jornalista a procurar pelo empresário e ouvir sua versão. Ela diz ter tentado telefonar para ele. Mas a pressa em dar o furo não podia esperar por uma nova tentativa. E assim, o filme mostra como a imprensa pode ser precipitada, irresponsável e usada para interesses próprios, no caso o interesse da polícia. Os investigadores acreditavam que o fato de Gallagher ser manchete nos jornais seria uma forma de pressioná-lo a dizer o que sabe.
Outro tema tratado é a escolha de um repórter em publicar informações dadas em off. Megan é procurada por uma amiga de Gallagher. Ela garante à jornalista que ele é inocente, pois no dia em que o líder sindical desapareceu, estavam juntos. Megan a pressiona para que conte mais. A mulher revela então que os dois estavam em Atlanta. Gallagher estava lhe apoiando pois ela tinha ido até lá para fazer um aborto. Diz a repórter que essa informação não pode ser publicada, pois seu pai é muito rígido e, além disso, ela trabalha em uma escola católica. Perderia o emprego se o episódio virasse notícia. Apesar dos pedidos, Megan publica o relato. No dia seguinte, descobre que sua fonte se suicidou
“Ausência de malícia” é mais um dos filmes que retratam o poder da imprensa. Poder de mudar uma vida quando informações são divulgadas sem precisão, sem certeza, sem um trabalho de apuração completo, que não condiz com exigências do trabalho jornalístico como rapidez e furo. A personagem Megan, tão manipulada pela polícia, mostra ainda como interesses próprios podem comandar o que sai em uma publicação, mesmo quando os jornalistas não têm consciência disso.
Greyci Girardi