Não é que devêssemos desvalorizar o passado, pelo contrário, não existe fonte mais segura de aprendizado do que aquilo que já foi vivido. Mas ficar suspirando por tempos supostamente melhores é uma atitude ingênua, senão infantil e negligente, pois pelo passado não se tem qualquer responsabilidade, não há possibilidade de ação pelo que já foi feito, não há perspectiva de mudança do que já passou. Se há algo de realmente importante no passado é resgatar ou perpetuar o que ele teve de melhor e estar atento ao que “deu errado” para evitar repetições.
Alguns acreditam ainda que as regras de civilidade eram mais respeitadas e consequentemente a sociedade era mais gentil e solidária. Sério mesmo? Nunca ouviram falar das humilhações públicas e gratuitas, que poderiam perseguir uma pessoa por toda vida? Dos maus tratos aos servos, da primazia da aparência nas classes abastadas? Mas, “peraí”, isso se parece bastante com “hoje em dia”, com a pequena diferença de que, atualmente é possível denunciar esse tipo de atitude e discuti-la, onde antes, qualquer um que contra elas se colocasse corria o risco de ser tão ridicularizado quanto os que sofriam tais perseguições.
O antigamente é uma espécie de romance utópico no qual tudo parece melhor simplesmente porque não precisa ser encarado de frente. Segundo a regra do “antigamente”, todos pensam em si mesmos vivendo em uma família nobre, abastada, liberal e carinhosa, que simplesmente não existe nem nunca existiu como regra geral.
Viver o agora e lidar com a responsabilidade de torna-lo melhor é um desafio constante e cansativo, e os braços sedutores de um passado inventado nos convida a adormecer em seu seio quente, mantendo-nos inertes e cegos às qualidades do nosso próprio tempo. Na verdade, é a amargura que nos cerceia e nos impede de viver. Refugiamo-nos no túmulo do tempo sem usufruir nem mesmo dele.
Creio eu que esses adoradores do passado, vivessem no tempo que aclamam e consideram foram melhores, ao lidar com a realidade, queixar-se-iam novamente, invocariam tempos ainda mais remotos, até que retornassem aos períodos anteriores à invenção da roda e não pudessem mais pensar ou imaginar um antigamente para o qual retornar.
Talvez hoje, a nossa urgência mais latente seja reinventar a própria vida, que anda dispersa ante as “romantizações” do passado, enquanto o presente escoa pelos ralos dos delírios de grandeza e da lamentação.