Roberto DaMatta

As aranhas urdidoras de fraudes eleitorais do conto de Machado de Assis, A Sereníssima República, publicado em 1882, uma época marcada pela transição do Império à República e da escravidão ao trabalho livre, são uma genial ficção etnológica e uma extraordinária reflexão sobre a adoção de novos regimes políticos. Um assunto no qual o Brasil é um caso exemplar e Machado de Assis, um privilegiado observador, pois, devido à plenitude de uma aristocracia e de um patriarcado hegemônico, com o reforço da fuga da corte portuguesa, proclamamos uma atiradíssima República sem republicanos e uma democracia sem igualdade. Hoje, vítimas das teias que tecemos, lidamos com o que parece ser uma maluquice eleitoral, tal como aconteceu com as aranhas. A fábula relata uma excepcionalidade de um processo de mudança cultural. As aranhas têm uma língua e, tanto quanto o Brasil, aceitam o republicanismo para descobrir que as demandas da República têm, no seu sistema eleitoral, uma degradável impessoalidade. Uma imparcialidade que nos torna anônimos e iguais perante a lei. Aranhas e nós, porém, temos reservas quanto a esse princípio contrário a práticas sociais hierarquicamente orientadas, mas enterradas no nosso inconsciente, exceto quando colocamos alguém no seu devido lugar com o “você sabe com quem está falando?”. A igualdade como valor destoa da reciprocidade revelada por Marcel Mauss, a qual obriga a fazer e devolver o favor que, ao lado do jeitinho (caseiro ou legalmente supremo), coloca as ideias nos seus lugares. Esses são os costumes não convidados que trazem de volta a “velha política”. O sistema que Bolsonaro foi eleito para liquidar. E que hoje o leva a pensar no golpe que destampa a teia de uma aristocracia estatizada. A comunidade das aranhas também sofre de um claro antietnocentrismo. Inventada pelos seus onipotentes intelectuais, a pátria das aranhas não percebe as gradações, privilégios e castas de sua ordem social. A incongruência entre o regime político e os costumes promove um nelson-rodriguiano complexo de vira-lata – esse sintoma de uma inferioridade estrutural diante de estrangeiros “adiantados” e “civilizados”. Por isso, as aranhas mais sensíveis pedem ao Cônego Vargas – aquele humano a elas simpático que, como um etnólogo, aprendeu sua língua e admirou suas teias – um regime político. Visto como um demiurgo, algo comum nos encontros entre povos com grandes diferenças de poder, esses contatos que conduzem à escravidão e ao colonialismo, o honesto Cônego não hesitou em sugerir o sistema da Sereníssima República de Veneza, o menos sujeito à imobilidade das heranças e casas aristocráticas, o que contém um mecanismo de mudança e aprimoramento. Adotando o regime republicano, logo as melhores moças da coletividade teceram os sacos de onde sairia o nome de um dos eventuais candidatos. Elas foram chamadas de “mães da República”, uma informação reveladora de que a “política”, como a religião, o ensino, o jogo, o esporte ou o trânsito, não entra em espaços vazios porque não há nenhuma sociedade com espaços sem significado. O resultado, depois de algumas eleições, foi decepcionante. Sem serem capazes de enxergar as implicações e o protagonismo social dos seus próprios costumes, as aranhas logo descobriram os seus malandros e os seus golpistas. A disputa eleitoral, ao lado do negacionismo do poder de seus estilos estabelecidos de prestígio de poder, fez com que as aranhas de Machado de Assis até hoje urdam e desmanchem suas sacolas eleitorais e, como Penélope, aguardem seu Ulisses – uma enorme paciência e ao lado de uma velha sabedoria. A preço do autodesconhecimento é a repetição que conduz à ausência de história e de mudança. Pensar que se pode controlar costumes ou, mais ingênuo que isso, ignorar que depois de D. João VI tivemos um Pedro 01 e Pedro 02 e alguns mandachuvas é – no limite da estupidez – desejar não mudar. É voltar ao autoritarismo aristocrático disfarçado de “estados novos” podres de velhos, mostrando a saudade das ditaduras. A miragem nacional denunciada por Machado de Assis é que o republicanismo não é um mecanismo formalista isolado, pois todo regime é contaminado pelo conjunto dos costumes da sociedade do qual faz parte. Impossível mudar? Claro que não. O ponto é ter consciência que todo processo de mudança tem miragens e exige paciência com o velho e energia para implementar o novo.

Roberto Damatta

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