O que fazer com todos os que estão virando “apátridas afetivos? O filósofo Ortega y Gasset nos ensinou que “uma nação é um projeto de vida em comum”. E em seu livro Espanha Invertebrada, escrito no começo dos anos 20 do século passado, ele se queixava de que não haveria uma vértebra que permitisse aos espanhóis serem unificados por um ideal comum, que levasse cada cidadão a sair da contemplação para uma atitude ativa, em favor da construção do futuro. Nesse contexto, como alguém já resenhou opinando sobre o livro dele, cada parcela da sociedade passa a existir como um grupo à parte do resto.
Ortega estava se referindo ao que hoje denominaríamos de “tribos”. A nação, porém, na concepção de Ortega, vai muito além da simples convivência no mesmo espaço geográfico e se refere a um conjunto de pessoas em que há laços de identificação e solidariedade que levam cada um a contar com o outro.
É algo que se foi perdendo no Brasil nos últimos anos. Somos um país de uma desigualdade que choca qualquer estrangeiro que nos visita, com uma divisão de classes que lembra sociedades estratificadas e com níveis de pobreza que contrastam com a riqueza de muitos lugares.
Entretanto, tínhamos características em comum. Que na luta política fratricida dos últimos anos se foram perdendo. É isso que está levando tanta gente (tantos eleitores!) a se perguntar: “O que me une ainda a este lugar e seus habitantes?”. A percepção de que há cada vez menos itens nessa lista talvez seja um dos fenômenos recentes mais importantes.
Há também, contudo, no País elevada demanda por unificação, para deixar para trás esta “era da infâmia” do atual século, de divisão de amizades e famílias. Quem tiver essa leitura estará em boa posição para o futuro, diante de uma população cada vez mais cansada do País em que vivemos. Antes que o afeto pelo Brasil acabe de vez.