“Foi então que os grandes proprietários e as companhias inventaram um novo método. Um grande proprietário comprava uma fábrica de frutos em conserva. E quando as peras e os pêssegos amadureciam, ele forçava o preço das frutas para um valor inferior ao custo da produção. Como fabricante de frutas em conserva, ele pagava a si mesmo um preço baixo pelas frutas e, mantendo alto o preço das frutas em conserva, auferia ótimos lucros. Os pequenos proprietários, que não possuíam fábricas de frutas em conserva, perdiam as suas propriedades, que eram arrebanhadas pelos grandes proprietários, pelos bancos e pelas companhias, às quais pertenciam as fábricas de frutas em conserva. Com o tempo, diminuía o número das propriedades. Os pequenos proprietários não tardavam a mudar-se para as cidades, onde esgotavam o seu crédito, os seus amigos, as suas relações. E depois eles também caíam nas estradas.
As companhias e os bancos trabalhavam para a sua própria ruína, mas não sabiam disso. Os campos estavam prenhes de frutas, mas nas estradas marchavam homens que morriam de fome. Os celeiros estavam repletos, mas as crianças pobres cresciam raquíticas. Em seus peitos intumesciam-se as pústulas escrofulosas. As grandes companhias não sabiam quão o quão tênue era a linha divisória entre a fome e a ira. E o dinheiro que podia ter sido empregado em melhores salários era gasto em bombas de gás, em carabinas, em agentes e espiões, e em listas negras e em exércitos armados. Nas estradas, os homens deslocavam-se como formigas, à procura de trabalho e de comida.
E a ira começou a fermentar.”
“Tem um sujeito lá em McAlester, condenado a prisão perpétua, que só vive estudando. Estuda o tempo todo. É secretário do diretor, escreve as cartas dele e outras coisas que é preciso escrever. Bem, ele é um sujeito danado de inteligente, estudou Direito e coisas assim. Um dia, falei-lhe acerca do meu caso, por ele ter lido tantos livros. E ele me disse que a leitura de livros não serve para nada. Que já tinha lido tudo sobre as prisões, agora e nos tempos antigos, e disse que lhes achava menos sentido agora do que quando começara a ler. Que as leis eram uma coisa que mandava a gente pro inferno e depois nos tirava de lá, e ninguém parecia ter força para enfrentar nem juízo bastante para modificar. Ele me avisou: pelo amor de Deus, não se meta a ler, que você acaba maluco.”
“Quer que lhe diga? Eu fazia aquela gente pular e exortar em altos brados o nome e a glória de Deus até todos caírem no chão, exaustos. E a alguns, batizava-os. E depois, sabe você o que eu fazia? Levava uma daquelas moças para o mato e deitava-me com ela. Era o que sempre fazia. Depois, arrependia-me e rezava, rezava, mas sem proveito. Daí a pouco ela e eu estávamos cheios do Espírito e acontecia a mesma coisa, outra vez. Pensei que tudo isso era inútil e que eu não passava dum danado dum hipócrita. Mas era sem querer.
Joad sorriu, mostrando os dentes alongados, e também os lábios.
– Não tem nada como uma reunião de culto bem animada para aquecer as moças – disse ele. – Eu também já fiz isso.
Casy prosseguiu, excitado.
– Você vê – gritou. – Eu vi que tudo não passava disso. – Agitou a mão ossuda e nodosa num movimento de vaivém semelhante a uma carícia. – Então comecei a pensar: “Aqui estou eu pregando a graça divina. E eis aqui gente que obtém tanta graça que até salta e grita. Mas há quem diga que dormir com uma mulher é obra do diabo. O caso é que quanto mais graça divina uma moça obtém, mais rápido ela quer ir pro mato.”
“E sempre que um homem tivesse um pouco de dinheiro podia embriagar-se. Aí acabavam-se os ângulos duros, e tudo era quente, confortador. Aí não mais havia solidão, pois que o cérebro povoava-se de amigos e o homem podia achar seus inimigos e aniquilá-los. O homem estava sentado num buraco e a terra tornava-se macia debaixo dele. A desgraça doía menos e o futuro não mais aterrorizava. E a fome não rondava mais perto, o mundo era suave e sem complicações e o homem podia chegar aonde quisesse. As estrelas desciam para maravilhosamente perto e o céu era tão encantador! A morte era um amigo e o sono era irmão da morte. Voltavam os tempos antigos… uma moça de pernas bonitas, com quem outrora se dançava em casa… um cavalo… oh, faz tanto tempo que isso aconteceu! Um cavalo e uma sela. Uma sela de couro trabalhado. Quando foi mesmo que isso aconteceu? Eu devia era encontrar uma moça com quem conversar. E seria tão bom! Até, quem sabe?, eu podia até dormir com ela. Mas que calor faz aqui! As estrelas tão pertinho da gente, e a tristeza e o prazer tão perto um do outro, a mesma coisa, no fundo. Só queria era estar o tempo todo bêbado. Quem foi que disse que isso não prestava? Quem ousa dizer isso? Os pregadores, mas eles têm a sua maneira própria de se embebedar. Mulheres magras, estéreis, mas estas são por demais miseráveis para compreenderem uma coisa assim. Os reformadores, mas estes não conhecem a vida bastante de perto para poder julgá-la. Não senhor… As estrelas estão muito próximas, tão próximas, e eu pertenço à confraria do mundo. E tudo é sagrado… tudo, até eu mesmo.”
Trecho editado por José Claisson Aléssio