Leandro Karnal

 O stalker  é um perseguidor virtual, alguém que entra continuamente no seu perfil, explorando suas fotos, perscrutando suas postagens e está ali, como um vulto, em cada passo que você dê.


Nas cidades interioranas existiam formas arcaicas de stalkear. Era a vizinha que, sempre à janela, controlava, comentava, observava todos que iam e vinham. Algumas colocavam almofadas para apoiar seus cotovelos, enquanto cuidavam da vida alheia. Ali estava, em potência, os elementos do futuro cyber-fofoqueiro-vigilante.

O stalker vai além. Ele não apenas calunia, todavia persegue. Desce da janela e espiona a vida alheia em cada respiro dado. O perseguidor foca no seu objeto e não consegue mais desmagnetizar o olhar.
 Não sei se adianta advertir, os jovens em particular, que tudo o que você postar será do público para sempre e poderá ser (e será) usado contra você. Há seres dedicados integralmente ao computador todos os dias, não saindo do seu espaço e, do conforto do anonimato das redes, perseguindo notícias, pessoas e fatos.

Talvez, em um futuro próximo, o bem maior a ser vendido no mercado seja privacidade. O mundo, afogado em exposição, temendo os vampiros da rede, acabará desejando a paz da individualidade e o sorriso do anonimato. No movimento pendular da história, podemos ver surgir a aurora do resguardo como valor supremo.

 Os novos invejosos dirão: você soube que ela não tem nenhum amigo ou contato e que, nunca, ninguém curtiu uma foto? O outro ouvirá incrédulo e desejoso do valor da invisibilidade. Tudo fica no plano utópico, claro.

 Por enquanto, likes definem a posição de cada ser no universo e popularidade é moeda de troca. Assim como o Buda percebeu, pouco antes da sua iluminação, que o mais perigoso demônio que o atormentava era ele mesmo, cada um de nós poderá notar que o pai de todo stalker é nossa própria vaidade. Atrás de toda reclamação de falta de privacidade pode existir um secreto orgulho e uma inconfessável soberba: vejam como sou importante e ninguém me dá paz.


Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...