Joel Pinheiro da Fonseca

  Ao contrário de líderes religiosos como Moisés ou Maomé, Jesus não fundou um Estado nem promulgou leis. Ele dizia que seu reino não era deste mundo. Segundo os evangelhos, ele foi acusado de fomentar a rebelião política, mas as acusações eram falsas.

Ademais, uma das três tentações a que o diabo submeteu Jesus foi justamente a do poder: “O diabo transportou [Jesus] a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: ‘Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares’.” Jesus, previsivelmente, recusou a proposta.

Em diversos momentos da história, movimentos cristãos buscavam se desvencilhar das roupagens mundanas, da tentação do poder, e retomar a mensagem radical de amor ao próximo e esperança no outro mundo: o surgimento dos monges ainda no Império Romano, o movimento de Francisco de Assis no século 12, os reformadores protestantes no século 16.

Lutero, frente uma igreja cujo chefe máximo, o papa, comandava exércitos e exigia dos reis a imposição da doutrina católica, defendeu a liberdade de crença e a doutrina controversa de que dificilmente um príncipe seria um bom cristão. Uma  coisa é ser membro de uma igreja, ter um CNPJ, ostentar o título “cristão”. Outra é de fato acreditar e seguir os ensinamentos de Jesus. Nem tudo que favorece o primeiro ajuda o segundo.

 O poder cultural de cristãos no passado gerou catedrais e A Divina Comédia, mas também a Inquisição, a caça às bruxas, o antissemitismo e a pena de morte a homossexuais. Todos esses, é claro, feitos sob a mesma sensação de que o inimigo poderosíssimo (o judeu, o herege) tem um plano arquitetado nas sombras e está pronto para persegui-los.

O medo ilusório da perseguição assombra as igrejas brasileiras. Mas não vemos igrejas sendo queimadas (ao contrário de terreiros). Com a instrumentalização do medo, justifica-se a busca do poder como cerne da missão espiritual. Resta saber se, assim como em outras épocas, o cristianismo brasileiro saberá reagir. Ou se, com Nietzsche, teremos que admitir que “houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz”.

Roberto Damatta

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