Francisco Daudt

      “A realidade pode ser incômoda, mas é o único lugar onde se consegue um bife decente”, disse Woody Allen, resumindo a relação conflituosa que nossa espécie tem com a verdade. Precisamos dela, mas frequentemente a rejeitamos. Tudo começou com a morte. Tão logo brotou no sapiens a percepção de que todos vão morrer – inclusive o próprio –, ele arranjou um jeito de dizer “não é bem assim, existe vida após a morte”. E deixou o primeiro sinal de consciência registrado pela espécie, há cem mil anos: os ritos fúnebres.


     Fato é que os dois instintos que nos movem – a sobrevivência pessoal e a da espécie –, fazem com que lidemos com a realidade, ora buscando a verdade, ora fugindo dela. Vejamos o sexo: um provérbio português dos anos 1600 dizia que “juras de foder não são para crer”. Esse negócio de “eu vou casar com você amanhã” deve ser bem verificado pela moça, pois as chances de o rapaz estar em franco desapreço pela verdade são muito grandes.

     E há o pensamento mágico: nossa sobrevivência pede um certo grau de controle (ou de ilusão de controle) sobre o mundo externo. É bom saber se vai chover na minha horta, e se eu puder controlar a chuva através de uma dança ritual (ou do cacique cobra-coral), eu a farei. Assisto passivo ao jogo de futebol, mas se pegar uma cerveja na geladeira pode ajudar o meu time a fazer gol (afinal, foi o que aconteceu no jogo passado), lá irei pegá-la.

     Milênios se passaram até que alguém humildemente admitiu sua ignorância: “Não sei porque isso acontece. Mas quero saber”. Foi o embrião da ciência. Não é um assombro pensar que tal postura – como tendência mundial – tem apenas seiscentos anos?

Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...