Até hoje brinca-se com uma expressão usada pelas madames de antigamente, quando em estado de choque ou repugnância. Para não desmaiar, elas se dirigiam à criadagem: "tragam meus sais!".
Que sais? Gostaria de encontrá-los em alguma farmácia. Desconfio que estaria sempre a ponto de cheirá-los.
Nos velhos romances, falava-se em "sais de Epsom", que, segundo o Google, consiste apenas em sulfato de magnésio, ou "sal amargo". Tem propriedades laxativas quando ingerido, e relaxantes se acrescentado ao banho de imersão.
Por falar em laxativos, a história italiana registra o uso do óleo de rícino pelos militantes fascistas, quando queriam apenas humilhar seus opositores, e não matá-los ou submetê-los à tortura.
Em "Amarcord", de Fellini, esse tratamento é infligido ao pai do protagonista, pelo simples fato de usar gravata vermelha num dia de festa para a extrema-direita.
Hoje não temos dessas coisas, certamente. Mas é possível que os "conservadores" de hoje façam protestos contra Fellini um dia desses. O adolescente de "Amarcord" —já meio taludo, mas pouco importa— é sufocado contra os seios de uma mulher brutal, grosseira e elefantina. Seria uma "feminazi"?
Mas, voltando ao assunto principal, o que é óleo de rícino? Onde 'estes conservadores" podem encontrá-lo hoje em dia? E, afinal, o que é rícino?
Surpresa, para quem confia no Google: rícino nada mais é do que mamona! Mãos à obra, portanto. Logo vocês acabarão com o que resta de civilização neste país.
Nem com o Google, entretanto, consegui resolver um persistente mistério literário: o das três mulheres do sabonete Araxá.
Manuel Bandeira escreveu um poema enaltecendo a embalagem do produto —mas nunca o vi reproduzido em livro nenhum. Será que o censuraram também?
Outro livro que existe, ou deve ter existido, mas que nunca encontrei em livrarias ou bibliotecas: os famosos Contos da Carochinha. Há contos de fadas por toda parte, mas a Carochinha, quem foi? Quem escreveu? É uma barata?
Sim, mas não só. Os portugueses chamam o fusca de carocha —que é também aquele barrete cônico, com a palavra "burro" escrita em vertical, que se punha na cabeça dos alunos de castigo nas escolas de antigamente.
Será que punham? Enfim, injustiças eram cometidas. Talvez o menino estivesse apenas levando consigo as obras do pedófilo Dante Alighieri, apaixonado por aquela menina de 13 anos, Beatriz.
Depois falam mal da Idade Média.
Para continuar no capítulo histórico, há outro mito, esse de esquerda, que se repete por tempo excessivo.
Sempre ouço críticas à chamada "história oficial" —aquela que privilegia os grandes heróis e vultos do passado, sem dar atenção às estruturas sociais.
Será que essa "história oficial" ainda existe? Fiz o colegial com professores progressistas, é verdade. Mas nem na época nem hoje exigia-se no vestibular algum conhecimento sobre Osório ou Tamandaré.
Ninguém sabe o que fizeram José Bonifácio ou Benjamin Constant. Tiradentes sobrevive. A Princesa Isabel, sabe-se o que fez —embora seja notável que ninguém pergunte por que Dom Pedro 2º não assinou, ele mesmo, a Lei Áurea. A qual, quem sabe, alguns também considerarão oportuno revogar.
Pensando bem, quem precisa de Contos da Carochinha hoje em dia?