Paco Urondo

Em primeiro lugar, não se desespere e não siga as regras que o furacão quererá lhe impor. Refugie-se em casa e feche as trancas quando todos estiverem a salvo. Compartilhe o mate e a conversa com os companheiros, os beijos e as noites com quem lhe assegure ternura. Não deixe que a estupidez se imponha. Defenda-se. Esteja sempre atento. Não lhes bastará empobrecê-lo, e quererão subjugá-lo com sua própria tristeza. Ria ostensivamente. Será imprescindível ficar juntos a cada dia até que a tormenta passe. São coisas simples, mas nem por isso menos eficazes. Diga para o lado bom dia, por favor e obrigado. E tomar no cu quando o solicitem de cima. Dê tudo o que tiver, mas nunca sozinho. Eles sabem como emboscá-lo na solidão desprevenida de uma tarde. Lembre que os artistas serão sempre nossos. E o esquecimento será feroz com o bando de impostores que os acompanha. Tudo vai ficar bem se você me ouvir. Sobreviveremos novamente, estamos maduros. Cuidemos dos garotos, que eles quererão podar. Só é preciso se munir bem e não amesquinhar amabilidades. Devemos ter à mão os poemas indispensáveis, o vinho tinto e o violão. Sorrir como vacina contra a angústia diária. Ser piedosos com os amigos. Não confundir os ingênuos com os traidores. E, mesmo com estes, ter o perdão fácil quando voltarem com as ilusões acabadas. E, isto sim, ser perseverantes e tenazes, escrever religiosamente todos os dias, todas as tardes, todas as noites. Ainda sustentados em teimosias se a fé desmoronar. Nisso, não haverá trégua para ninguém. A poesia dói nesses filhos da puta. edição: José Claisson Aléssio

Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...