Contardo Calligaris

Ao tomar posição sobre qualquer tópico, quanto menos soubermos, tanto mais mostraremos e sentiremos uma certeza absoluta. E quanto maior nossa incompetência, tanto maior será nossa convicção na hora de agir. Ou seja, quanto mais a gente é ignorante e incompetente, mais a gente tem certezas radicais e passionais. Inversamente, quem se afasta de sua incompetência (informando-se ou formando-se) torna-se mais humilde e mais disposto a duvidar de si. Em suma, ignorância e incompetência produzem uma ilusão interna de saber e competência. Inversamente, saber e competência produzem uma certa autodesvalorização do sujeito, que passa a duvidar de si. É possível pensar que a certeza passional seja uma maneira de compensar (e esconder) nossa própria ignorância ou incompetência. Mas, de qualquer forma, a explicação é intuitiva: quanto menos eu souber (do que for:de motor de carro, de política econômica, de teatro, de amor etc.), tanto menos saberei medir o que não sei. Inversamente, quem sabe mede facilmente que só sabe uma pequena parte do que gostaria de saber. Sócrates dizia que ele só sabia que nada sabia. Em época de grandes paixões e conflitos –ou, como se diz, de polarizações– mundo afora, vale a pena lembrar que a certeza (ainda mais quando for passional) é proporcional à ignorância e à incompetência. Aplique isso ao campo da moral, da política e da religião: a ignorância é a grande mãe de quase qualquer extremismo.

Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...