Vera Iaconelli

 E Deus criou o Brasil com a melhor fauna e flora de sua invenção e ainda poupou-o de vulcões, terremotos e furacões. Ao ser perguntado porque criava verdadeiro paraíso na Terra, Deus respondeu: mas o povinho que eu vou colocar lá... Cresci ouvindo essa piada em versões curtas e longas, sem juntar os pontinhos que me levariam obviamente a fazer parte do "povinho", ou ainda imaginando que se tratava do povinho que não incluía a nós. Nós quem?


 Embora sejamos milhões, uma certa "brasilidade" com a qual nos identificamos, mas também nos debatemos, nos une. Assumindo que os demais povos são intrinsecamente melhores, vilipendiamos a figura do brasileiro a cada oportunidade e, quanto mais abaixamos para melhor criticar, mais mostramos o rego, como diria o outro. Com um dedo apontando para a frente e os outros quatro para si mesmo, segue o brasileiro aspirando pelo modo de vida europeu ou americano.

 E é nesse espaço de autodesprezo que se infiltra um autoritarismo sempre à espreita, marca de um ódio a si mesmo que não perde a chance de se manifestar a cada momento. A apropriação privada indevida de bens e pessoas, que marcaram a história da colônia Brasil, continua atualíssima. A marca da escravidão nos assombra a cada esquina com nossos carros e casas blindadas e com nosso convívio branco em circuito fechado -shoppings, escolas, clubes e restaurantes, devidamente à prova de negros e pardos, salvo os que estão ali para nos servir. A exploração da riqueza comum como bem privado sem pudor, pelo contrário, com franco exibicionismo, é marca do ódio ao Brasil.

 É como se o projeto de um país fosse impensável para nós brasileiros. Paradoxalmente, é a própria falta de aposta na cidadania e no valor do espaço público compartilhado que cria a situação da qual pretensamente o brasileiro busca fugir.


Roberto Damatta

     Fui condenado a passar 20 séculos no Purgatório pelo Sublime Tribunal Espiritual. Um dos magistrados me inocentou, mas, apesar dos emba...