A dissonância cognitiva consiste num processo que pode gerar uma forma de cegueira situacional que não nos permite ver o que é contrário ao nosso conjunto de crenças, ou, como colocava Leon Festinger, ocorre quando, na busca de coerência entre o que pensamos e o que observamos, entramos em conflito interno.
Para solucioná-lo, é tentador eliminar a informação dissonante, negando parte da realidade ou inventando uma explicação aparentemente lógica para o fenômeno.
A preguiça mental de certa cidadania frágil leva a negar o que não se encaixa num arcabouço explicativo que busca ter respostas para tudo ou que nos é fornecido por líderes que pensam por nós.
Infelizmente, o ser humano não é um sistema estruturado, e a vida em sociedade menos ainda. A busca de sistemas explicativos abrangentes não têm trazido soluções fáceis ou guias de ação para qualquer situação e menos ainda nos permite dividir a humanidade, de forma clara, entre os bons e os maus.
Troca de ofensas e mostras de virilidade, próprias de disputas de torcidas de futebol, certamente não são o melhor caminho para lidar com problemas e riscos institucionais tão graves como os que vivemos.
Tampouco o são nossas tendências a sermos técnicos amadores de futebol ou juízes, num cenário em que, dependendo das preferências políticas, rábulas disputam pareceres jurídicos ou jurisprudências distintas.
Certamente, a sensação de injustiça deve ser expressada com contundência, assim como a de impunidade, mas uma cidadania crítica não deveria resultar em negação de diálogo com quem vê as coisas de forma diferente ou, pior ainda, com a própria realidade.